Moro num prédio sem elevador, de quatro andares. Vivo no terceiro andar. Da sala, é possível perceber com clareza quando uma mulher está subindo ou quando um homem está subindo. As passadas de uma mulher são mais curtas, ela pisa no chão sempre com alguma espécie de maciez, um metrô com rodas de borracha; o homem parece que quer abrir fendas no chão quando caminha. Foi moleza saber que era um delegado que tava subindo.

Desci sem ter tempo de escovar os dentes. Chegamos ao Gatinhos Defuntos sem o meganha-auxiliar, o esquisitão Praxedes, que olha bunda até de menina de 5 anos, e que o delegado deixou numa entrada de metrô ali pela Sé.
A gente não sabia o que estava procurando, e o delega não bebia. Ele também não queria ir para a ‘Gas Station’ da boate, era ‘no drugs’ total, e eu tava preocupado, aquela sua “limpeza” toda ia acabar causando desconfiança. O lugar tinha música ao vivo, jazz, coisa da melhor qualidade. Eu jamais teria imaginado.
Por conta da radicalização da Lei do Psiu, os bares estão obrigados a instalar ABCs (Abafadores de Barulho de Conversa) em toda a zona boêmia. O aparelho é controlado pelo maître, que regula o volume do nhem-nhem-nhem no próprio controle remoto da TV.
Isso fazia com que as pessoas ali parecessem sussurrar, o lugar ficava ainda mais fantasmagórico.

Tava difícil pedir alguma coisa. Enfrentei muitos garçons com cara de basset hound, aquela cara arqueada para baixo, os olhos de insônia – incapazes de demonstrar entusiasmo genuíno pela vibração do baixo clero (a pedagogia do jogo de cintura, a mesma que me ensinou a me fingir de morto para enganar os canalhas de sorriso fácil). Mas ali era invisibilidade total.

O delegado não dava a mínima para o lugar e as hostilidades. Andou para lá e para cá no lounge pink e branco e mediu tudo. Depois, aproximou-se da chapelaria e chamou o mané que estava lá, quase dormindo ao fundo. O sujeito veio e ele tirou o distintivo. O sujeito nem piscou. Era outro desses homenzinhos com uma cara de cartum, com aquelas linhas geométricas em volta da boca e uma barbicha rala. Um tipo Barney Rubble. Notei que tinha também sobrancelhas esculpidas. Cumprimentou a gente com mão mole, e ainda por cima molhada. Nojo. O delega abriu um envelope e começou a tirar fotos e a mostrar ao homem.

– “Já viu algum deles por aqui?”.

Passou uma, duas, três fotos. E nada. Na quarta foto, o sujeito mexeu o maxilar, como um cavalo ruminando seu capim noturno.

– “Esse aí sim. Esse já veio muito.”

A foto não era de uma vítima, era do padre da Sé, o Padre Malraux.

– “Ele vem só?”
– “Ele é moça, meu filho”, disse o cara. “Vem sempre com uns ursinhos”.
“Ursinho” era gíria para michê. O padre era uma biba, no final das contas. Por que Giudice não parecia surpreso?

O delegado ainda fez algumas perguntas meio automáticas e depois deu-se por satisfeito.

Íamos deixar o clube quando me deu uma tremenda dor de barriga. Pedi um tempo para ir ao banheiro. Deus do céu! O banheiro era o fim do mundo, estava impregnado de cheiro de desinfetante de pinho comtempero de merda. Eu me acabei por mais de 10 minutos, uma eternidade. Quanto mais demorava, mais eu ficava constrangido de ter de voltar à mesa. Era um pensamento ridículo, mas não conheço lugar melhor para abrigar pensamentos bizarros. De repente, eu filosofava sobre a merda e ria sozinho, quando não me dobrava de cólicas do tipo fecais. Uma constatação, quando terminei: o homem fica tão aliviado depois de uma proeza dessas, que não sossega enquanto não vê a merda desaparecer no ralo do vaso sanitário. Mas ele a encara antes, esse é um fato da vida. Quanto mais mole e desintegrada, mais asco nos causa, e mesmo assim nos despedimos dela, com alguma satisfação. Como é que andamos por aí com algo dessa natureza nas entranhas?

Pensei na vida. Há tempos não tenho um trampo fixo. Biscates aqui e ali. Essa tarde, talvez por engano, convidaram-me para participar de uma mesa-redonda num canal a cabo secundário: Fumantes e Pais Separados Criam Filhos Desajustados? Recusei. Não tenho filhos. Não foi por isso. Também não foi pelo tema, é fácil enganar nesse métier, mas pelo cachê, que não pagava nem um lanche no Ponto Chic.

TRECHO DO INÉDITO A MORTE ENGARRAFADA, UM THRILLER DE FICÇÃO CIENTÍFICA, PULP FICTION, QUE DEVO PUBLICAR (OU NÃO) ESSE ANO

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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