nada mais anos 90 do que glory box, do portishead.
algo que anunciava uma nova sensibilidade, meio biônica, enxerto de circuitos em um espírito de abandono, com o efeito de uma onda de melancolia.
a voz quente de beth gibbons humanizava aquele lamento tristíssimo.
ela tinha um ar trágico, o equivalente ao que karen carpenter tinha sido nos anos 70 para a gente. “aquele tipo de voz de background que era usado nos filmes de Hollywood dos anos 30″, escreveu um jornal gringo da época.
“não seria surpresa se ela em breve estivesse trabalhando com David Lynch”, escreveu o Independent.
na contracapa do primeiro disco solo dela, out of season, eu anotei o seguinte: “um homem anônimo olhando para uma paisagem na qual se destaca um velho ancoradouro semi-submerso, tudo permeado por uma névoa de ferrugem”.
em 2003, ela e k.d.lang dividiram uma mesma noite no extinto TIM festival. eu vi na marina da glória, e escrevi:

A despojada Beth Gibbons, de calça jeans com jeito de muito usada e blusinha preta, foi a primeira a cantar, acompanhada de uma banda com 6 músicos, tendo à frente o baixista, violonista e guitarrista Paul Webb, o Rustin’ Man. Webb, homem multimeios (que chega a fazer um slide na guitarra com um alicate), pilota o conceito híbrido da música de Beth, que envolve o uso da tecnologia entrelaçado com recursos acústicos e a intermediação de uma voz delicadíssima (mas também potente, quando ela quer).
Beth toca violão e também teclados (em Show, a última canção do seu set) e move-se com dificuldade pelo palco, insegura, arqueada, tímida, quase constrangida. Em contraponto, torna-se outra pessoa quando assume o microfone, fazendo pontes entre acordeãos, flautas, bandolins e guitarras. Sua música parece ser de lugar nenhum: às vezes soa como uma trilha de algum western spaghetti; outras vezes é um assalto instrumental que finge placidez e torna-se sem aviso prévio uma avalanche sonora. É moderna, cheia de recursos, mas carrega consigo a melancolia de séculos.

AMANHÃ ESCREVEREI SOBRE OS ANOS 00, A POUCO MAIS DE DOIS MESES DE SEU FINAL.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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