Algumas coisas que eu (acho que) entendi sobre “Tropa de Elite 2”:

a) No primeiro filme, gostei da dubiedade com que era desenhado o Capitão Nascimento. Era sempre possível dizer que o público que se identificava com ele o fazia por conta própria, de suas próprias perversidades. Agora, não, me parece óbvio que Capitão Nascimento é o herói particular de José Padilha. O cineasta defende com unhas e dentes seu sanguinário personagem. É uma postura corajosa (é preciso muito peito para defender de peito aberto e cara limpa alguém que represente a direita mais sanguinolenta). E uma postura perigosa (porque a direita é sanguinolenta, ainda que sob o pretexto repetido mil vezes por Padilha, de que a direita sanguinolenta é a direita sanguinolenta por “culpa” do “sistema”). Para variar, é uma postura catártica.

b) Acho curioso notar, pelos comentários que tenho ouvido por aí, que “Tropa 2” se insinua bem mais unânime que “Tropa 1” – “um puta filme”, já ouvi murmurar até quem dizia odiar o primeiro anos atrás. Isso me faz me indagar sobre a relação que nós, espectadores, mantemos com esse perturbador Capitão Nascimento. No primeiro filme, era possível classificar de “fascista” o vizinho do andar de baixo, caso ele vibrasse com a “ultraviolence” do personagem sufocando “bandidos” em sacos plásticos. Mas e agora, que o Capitão Nascimento volta aparentemente mais sutil, embora tão feroz e tão assassino quanto sempre? Conseguiremos gostar de alguns gestos do Capitão Nascimento, e mesmo assim reconhecer nos atos fascistas dele pedaços dos nossos próprios atos fascistas cotidianos, subterrâneos, clandestinos – e quase nunca nomeados? O Capitão Nascimento, esse espécime nada raro da direita sanguinolenta, somos nós mesmos?

c) Acho graça das inúmeras vezes que ouvi falar que o “2” é um filme “sobre a corrupção dos policiais e dos políticos” – alôôôô, tem alguém aí?! “Tropa 2” é um filme sobre a corrupção de TODOS NÓS. Quem paga as milícias somos nós, quem elege os políticos somos nós. Milícia, polícia e político apertam o gatilho que NÓS determinamos que seja apertado, mas não temos coragem de apertar com nossos próprios dedos – assim como o fato de alguém fatiar por nós o boi que a gente come não nos faz menos assassinos de bois (e frangos, porcos, coelhos, codornas, alfaces, carvalhos, eucaliptos, cabreúvas). Quem tá na selva é para se alimentar, quem tiver de sapato não sobra.

d) Nosso “espaço público” raramente mistura esfera pública e esfera privada com propriedade e lucidez, e José Padilha é um dos que sabem fazê-lo brilhantemente. Em “Tropa 2”, ele demonstra que o imbroglio político-policial que provoca uma insuportável carnificina no Rio de Janeiro tem, como uma de suas origens centrais, um drama da vida privada – um triângulo amoroso, simples assim. Prédios, máquinas, cédulas de dinheiro, metralhadoras e instrumentos de tortura foram e são TODOS fabricados por nós. Mesmo na esfera pública, somos William Shakespeare e Nelson Rodrigues. Se Lula for o “nosso” rei Lear, Cordélia, Goneril e Regan poderiam ser Marina Silva, Dilma Rousseff e Erenice Guerra, não sei se necessariamente nessa ordem.

e) Não entro em detalhes para não estragar o filme de quem ainda não viu, mas o mais bonito e audacioso de “Tropa 2”, na minha opinião, é a aliança firmada entre a esquerda e a direita para detonar o “centro” – o verdadeiro inimigo comum, o monstro de mil caras que não ousa vir à luz nem muito menos declinar seu nome e sobrenome. Não sei em quem o Padilha vota, mas seja em quem for me parece uma aposta tudo-ou-nada, arriscada, um salto talvez suicida. Do meu ponto de vista, se for eleito o “centro” – o monstro de mil caras, José Serra, & seus demistas-fundamentalistas de esgoto -, a quadrilha disfarçada de cordeira estará de volta ao poder central de que sempre desfrutou no Brasil, e Padilha terá perdido sua alta aposta, fragorosamente. Por outro lado, se vencer Dilma Rousseff, o “centro” que não ousa dizer seu nome estará exposto nu e cru à luz do dia, na vice-presidência e em seu partido, PMDB, que até agora eu não consegui decifrar em que banda toca. Nesse caso, quem sabe, o Padilha até ajuda o PT a enquadrar seus próprios monstros-de-mil-caras, e sai empatado do truco.

f) O Padilha é bacana porque arrisca, arrisca alto, arrisca tudo. O final romântico do filme me faz não conseguir decidir se o Padilha é simplesmente um pirado romântico ou se é alguém que já enxergou uma luz no fim do túnel. A gente, Brasil, precisa se arriscar mais, não temos tempo de temer a morte, é preciso estarmos atentos e fortes.

g) O Padilha não é bacana, porque estiliza a favela como qualquer tem feito para ganhar seus tostões qualquer cineasta tipo “estética da fome” (ó, que oásis continua sendo “Cinco Vezes Favela”, esse lindíssimo filme espontaneamente nacional). O Padilha não é bacana, porque estiliza a violência como o faz qualquer filme vagabundo de Hollywood. A chuva de balas e o rio de sangue em “Tropa 2” me desestruturam, são insuportáveis para mim. Nunca assisto a filmes violentos de Hollywood, porque detesto a indústria de guerra, chumbo e sangue que os Estados Unidos vendem como “cultura” e/ou “entretenimento” supostamente inofensivo. Já está evidente que José Padilha almeja o trono de imperador da “nossa” Hollywood, de rei Lear da Renascença do cinema brasileiro – e vai ser um saco para mim ter que ficar vendo às dezenas seus filmes de carnificina – só porque sei que há conteúdo do mais massudo por baixo do vendaval de vísceras que ele exibe com prazer sadomasoquista.

h) Não aguento mais esse papo de “sistema”. Para com essa lengalenga de “sistema”, seu Padilha – ou será que estou confundindo você com seu personagem-(anti-)herói, o Capitão Nascimento? Pois então, Coronel José Nascimento Padilha, o “sistema” é o teu (e o meu) sistema neuronal. O “sistema” é nervoso, é psíquico (e por vezes psicopata). Vem de dentro e sai vomitado para fora, e não vice-versa. Cidadãos corruptos elegem políticos corruptos e delegam a policiais corruptos o extermínio daqueles que eles acreditam ser o “mal” – curiosamente, o “mal” está sempre lá fora, lá longe, lá no prostíbulo, lá na boate gay, lá na favela, lá no Nordeste – nunca está aqui dentro de casa, dentro do cérebro. 99% de nós acreditam que não somos racistas, e 99% de nós conhecemos gente que já sofreu racismo (só para ficar no exemplo mais óbvio). Na contramão, cidadãos honestos elegem políticos (que delegam policiais) honestos, que se empenham por melhorar as condições de vida de todos nós (e não só da nossa #patotinha, de nossa #panelinha – ei, você aí, leitor!, conhece alguém que empobreceu durante o governo Lula? Se conhece, me apresente, por favor). Às vezes, o cidadão corrupto que faz tudo isso convive no mesmo corpo com o cidadão honesto que faz tudo isso (“Clube da Luta”, Hollywood, misoginia, manja?) O inferno não somos os outros, o inferno é nóis, tá ligado? Starts with u, tudo começa por nós mesmos.

P.S. (em 15 de outubro de 2010): Segundo me conta no Twitter @jumontflores, José Padilha afirmou ontem num debate que votará nulo. Só consigo pensar que é o incrível caso do cineasta que não entendeu os próprios filmes. O diretor faturou R$ 28 milhões com “Tropa de Elite 2”, em apenas uma semana. Para ele, que ganhou notoriedade internacional com o documentário “Garapa”, sobre a miséria extrema no Nordeste brasileiro, não parece ser significativo o fato de 28 milhões de conterrâneos terem saído da miséria extrema nestes últimos oito anos. Tiremos nossas próprias conclusões, começa pela gente.

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