a casa deles no campo parece um projeto arquitetônico do claudio bernardes, a paisagem parece um projeto de burle marx, tudo muito encaixadinho na pedra, na árvore, na cachoeira.
isso tudo faz com que a gente desconfie um pouco do filme.
porque a gente gostaria muito que a vida campestre dos turcos do filme UM DOCE OLHAR fosse genuína, uma espécie de enclave de doçura no mundo globalizado.

é claro que isso não existe.
as camisetas dos turcos que dançam naquela vila são globalizadas.
alguns deles usam calças diesel.
mas adoram dançar música folclórica, e nunca o diretor deixa vazar uns resquícios de rihana, de jay-z, embora tudo se passe em 2009.

daí é que eu percebi que era besteira ficar atento a esses detalhes.
me deixei seduzir pelo humanismo da história.
o pai sussurra com o filho porque o filho, ao sussurrar, esquece-se da própria gagueira.
o filho detesta o leite, então o pai o toma “escondido” da mãe, para driblar as tensões familiares.
o menino não é santo, também trapaceia e sente inveja e ira, mas é capaz de julgar sozinho seus vícios, e condená-los.

o cineasta parece querer dizer que aquele é um estado de coisas que não pode perdurar.
não se pode enganar para sempre as deficiências, mas o bonito é que eles não fazem planos.
não há uma seguradora vendendo seguro para certa harmonia sentimental.
o que há de belo nela é quando ela acontece, quando esse equilíbrio encontra um jeito de se manter.
pode ser numa natureza artificial, pode ser numa rotina artificial.
pode ser num filme inteiro, ou ao menos em momentos de um filme.

o cavalo, o falcão, a escola, a epilepsia, o desastre, a religião: nada tem muito peso na história, só os afetos.
gosto de algumas cenas em especial, como a do menino que adoece por ter se sentido traído.
gosto da blusa de tricô que o menino ganha da avó, que parece a bruxa da branca de neve.
gosto do casaco de couro marrom do pai, acho que não se vendem mais como aquele.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

2 COMENTÁRIOS

  1. Olá Jotabê,
    desculpe invadir seu espaço aqui, mas não encontrei nenhum email de trabalho seu.

    Sempre acompanho suas resenhas no Estadão.

    Estou lançando meu CD de música brasileira e queria saber se posso mandar uma cópia para você.

    Ficaria muito feliz se você me der essa oportunidade.

    Se puder, me mande o endereço para onde devo manda-lo em meu email: [email protected]

    E se quiser conhecer mais o meu trabalho, é só acessar meu site. http://www.marciolugo.com . Espero que goste!

    Obrigado desde já e aguardo o contato.

    Um abraço,
    Márcio

  2. adoro aquela cena em que eles estão caminhando no meio do mato e o pai diz "lembra desse mel? é aquele que te deixou tonto o ano passado". e o garoto sussurra: "o mel louco!". me dá uma saudade de alguma coisa.

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