john paul stevens, juiz da suprema corte americana, que se aposentou
foto: new york times

Leio as notícias sobre a retirada honrosa do juiz da Suprema Corte americana, John Paul Stevens, aos 89 anos, após 34 anos decidindo com sabedoria. “O fim de uma era, para o tribunal e para a Nação”, diz o New York Times.
Leio com interesse porque pensava justamente nisso, sobre a disseminação da falta de escrúpulos e de honradez em quase todos os segmentos da vida brasileira. E da falta de gente de confiança, livre, íntegra.
“Como não podemos substituir a experiência e a sabedoria de Stevens, vou procurar alguém nas próximas semanas com qualidades similares – uma mente independente, um patrimônio de excelência e integridade, uma enérgica dedicação às normas da lei, e um crucial entendimento de como a lei afeta a vida diária do povo americano”, disse Obama.
Observo o nauseante festival de desequilíbrios de Gilmar Mendes (parcial até no momento da saída), que o próprio colega Joaquim Barbosa definiu como um homem de “capangas”. E vejo o espetáculo que tem sido a coação pública de promotores, policiais, peritos, movimentos sociais, jurados de Tribunal do Júri. Há leviandade em revistas, em jornais, em programas de debates, no território livre da internet. Com todas essas demonstrações de fúria linchadora e corporativa, tenho dúvidas se ainda temos capacidade de gerar gente com aquele grau de equilíbrio e serenidade.
Há ainda um espírito disseminado de vassalagem, de traições. Eleições, atualmente, só parecem exacerbar esses sentimentos. “Com qual lado você tem negócios? Se é com o lado de lá, certamente é um corrupto”, diz a nova legislação do Vale Tudo.
O preconceito virou mais-valia em certos colunistas de imprensa. Semanalmente, escolhem como alvo qualquer forma social de boa vontade – querer o bem do outro (ou preconizar a igualdade), em qualquer circunstância, é um sentimento a ser combatido. O afã de desqualificar permite excessos, mesmo após insignificantes deslizes sociais, contra homens públicos. “Quando se encontra uma pequena falha em um homem livre, que se engana pouco sobre o essencial, as pessoas se atiram sobre ele como um predador sobre sua presa”, diz Bernard Henry-Lévy, revoltado contra um artifício crítico com o qual tentaram desmoralizá-lo.
Não é só um deslize intelectual que basta para o linchamento. Certos articulistas já defendem abertamente que basta que uma pessoa seja “feia” ou “sisuda” ou “mal-humorada” para que lhe desperte desconfiança. São raciocínios infantilóides, decalcados dos velhos taxistas malufistas, que legitimam o medíocre e o servil nos postos-chave do Serviço Sujo Nacional que opera abertamente.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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