Esse artigo aqui a editora não pediu, mas eu fiz assim mesmo e mandei. Portanto, quando ela não publicou nem fiquei magoadinho. Mandei para o blog antigo, em 23.3.2006, e estou republicando agora porque está aqui na cidade o Claudio Versiani, amigo que dividiu algumas pautas comigo em NYC em 2004/2005, e que aceitou meu convite para fazer a matéria do fechamento de um mítico boteco nova-iorquino.
Homenagem ao meu chapa!
No próximo post, vou eleger meus 10 botecos preferidos do Brasil. Não percam! Lista mais polêmica do que as 100 mais da Rolling Stone!


foto: claudio versiani

TODO MUNDO QUERIA UM ÚLTIMO DRINQUE

Às 22 horas, os garçons do Oak Bar pararam de servir bebidas nas mesas. Só sobraram as taças cheias de pistache, amendoim e pedaços de nozes. Eu mesmo tentei três vezes apelar para a boa vontade do barman e conseguir uma nova garrafa de vinho, mas me foi negado o privilégio – não só a mim, plebeu enxerido, como também àquela centena de milionários que flanava por lá.

Boa parte das cerca de 200 pessoas que ocupavam pela última vez as mesas – algumas frequentadoras do lendário pub há quase meio século – aglomeravam-se no balcão na esperança de tomar a última taça de champanhe ou de vinho. Pareciam aquelas cenas de corretores na Bolsa de Valores vendendo desesperadamente as ações de uma empresa quebrada.

Era o sinal do fim: o centenário Plaza Hotel, em Nova York, em um ambiente meio caótico, começava a fechar suas portas. Combinamos, eu e o amigo Cláudio Versiani, acompanhado de sua mulher, de ir conferir aquilo.

A noite daquela sexta-feira, dia 29 de abril de 2005, última em funcionamento, teve um sabor melancólico no velho hotel da 5.ª Avenida, na boca do Central Park. Alguns frequentadores do pub, já embriagados, tentaram tirar o jaquetão do caixa do Oak Bar, argumentando que ele não tinha mais motivo para usar aquilo – afinal, estava despedindo-se daquele trabalho. Mas o garçom, profissionalíssimo, segurou a onda até o fim, até o último minuto, como o orgulhoso capitão do Titanic.

Na recepção, a concièrge fazia os derradeiros check-out dos hóspedes – apenas poucos afortunados teriam até a chuvosa manhã de sábado para sair. No hall do hotel, técnicos com plantas da entrada já estudavam a estratégia para a reforma do Plaza, que começaria naquela noite e iria até 2007. Na calçada em frente ao hotel, pequenos caminhões de mudança faziam ponto esperando móveis, que começavam a descer as escadas nas costas dos operários. Na praça da fonte Pulitzer, os caminhões das TVs estavam estacionados, registrando o fechamento de um dos símbolos de Nova York.

O Plaza funcionou durante 98 anos e sua mística vai atravessar outro século, muito provavelmente. Ali, nos anos 60, os Beatles desembarcaram para ganhar a América, ocupando todo o seu 15.º andar. “Eles estavam sempre indo e vindo rapidamente, e nunca tiveram tempo para um autógrafo”, lamenta até hoje o porteiro Ed Trinka, doorman durante 42 anos no The Plaza.

Ali, segundo lembrou outro porteiro, Mickey Pierce, quando se hospedou o presidente Reagan, a segurança presidencial mandou instalar paredes de vidro à prova de bala nos lugares onde ele se sentava. Marilyn Monroe, o rei Hassan do Marrocos, Alfred Hitchcock, Cary Grant, Audrey Hepburn, Madonna: todo o grand monde de diversas épocas manteve algum tipo de relação com o Plaza.

Minha única relação com ele é que morei durante alguns meses num microapartamento num prédio de 8 andares, colado à parede do mítico hotel, na Rua 58, e costumava atravessá-lo só para admirar sua tapeçaria, as fotos misteriosas, os elevadores elegantes, os móveis que gostariam de ter nascido na Europa.

Os novos proprietários do prédio vão reformá-lo para transformar o Plaza num condomínio de luxo. Assisti a diversas manifestações contra essa decisão na frente do hotel. Numa delas, juntei-me aos manifestantes e gritei com eles: “Save the Plaza! Save the Plaza!”. Se meus amigos da Libelu me vissem ali, eu tava ferrado. O principal argumento dos que defendiam sua manutenção como hotel é que aquilo ali não era um simples negócio, era parte da história da cidade, parte da paisagem, parte do que Nova York quis ser um dia quando crescesse.

Em negociações com o sindicato dos trabalhadores em hotéis e os funcionários, os proprietários concordaram em 2005 em manter alguns dos espaços históricos do edifício, como o Grand Ballroom, onde Truman Capote dava sua famosa festa Black and White para convidados como Candice Bergen, Henry Ford, Walter Lippman e outros colunáveis. Viram o filme Capote? Eram aqueles saraus onde ele, o escritor do clássico A Sangue Frio, com suas pequenas maldades na ponta da língua e a voz afetada, falava mal de Deus e todo mundo. Com estilo, diga-se.

A negociação que definiu o futuro do Plaza foi considerada uma vitória pelos sindicatos. Eu, particularmente, acho que a queda do Plaza foi mais uma derrota do bom gosto universal.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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