As três coisas que mais me assustavam eram:
1) o escuro
2) mordida de cachorro ou pisar descalço em lesma (no mesmo nível)
3) falta do que comer

As três coisas que mais me encantavam eram:
1) O frio na barriga na hora do beijo
2) Um gol de placa na pelada
3) A atenção dos amigos em mim, por conta de uma piada feliz

Passados os anos, descobri que uma só coisa me assusta agora: que os filhos sintam medo. Cheirar o medo deles me deixa em pânico. Qualquer alegria deles me deixa quite com o universo.

O frio na barriga ainda é o mesmo.
O gol de placa é um quadro que pintamos na nossa cabeça quando tentamos dormir, horas depois do jogo, e ficamos revendo um videotape inventado.
Os amigos, agora que conheço todos os truques, riem de verdade. E o que é melhor: como um ás da stand up comedy, eu sei quando fazer girar as gags.

Sozinho na cidade, a milhas do caribe, dá tempo de cozinhar as pequenas coisas na caminhada sobre o asfalto molhado. Bobagens em listas.
1) Que as melhores brigas foram aquelas que tiveram um xingamento genial. Paulo Francis uma vez chamou um adversário de “cara de lagartixa ferrujosa pré-histórica”. Ganhou de lavada.
2) Que “o melhor disco com o qual pouca gente vai concordar contigo” é The Raw & The Cooked, do Fine Young Cannibals. I’m Not Satisfied é fabulosa.
3) Que o casamento mais bacana foi o da Michelle, na capela em Morretes.
4) Que a melhor definição de ciúme é “bichinho verde barrigudo com unhas compridas sujas e envenenadas”

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter desde 1986 e autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019), Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021), O Último Pau de Arara (Grafatório, 2021) e A Culpa é do Lou Reed (Reformatório, 2024)

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