em tempo real, porque eu não agüento esperar (mas sigo recomendando vivamente a leitura da reportagem de capa, “gente à venda”, entre outras várias): “carta capital” 399, de 28 de junho de 2006 – porque (depois de) amanhã já É hoje!

O RAP ELEVA O TOM
MV Bill provoca o hip-hop ao buscar mais diálogo com a sociedade, mas desafia a elite a assumir responsabilidades

Por Pedro Alexandre Sanches

Teu pai te dá dinheiro, você vem e investe/ no futuro da nação, compra pó na minha mão/ depois me xinga na televisão/ na seqüência vai pra passeata levantar cartaz/ chorando, com as mãos sinalizando o símbolo da paz. O discurso crítico é de um jovem traficante, dirigido a um rapaz de classe alta que foi comprar drogas de sua mão. Está traduzido em música em Falcão – O Bagulho É Doido, o novo disco do rapper carioca MV Bill, que deve inaugurar um momento novo (e mais radical) no diálogo entre o movimento hip-hop e a sociedade brasileira.

Enquanto Mano Brown, dos Racionais MC’s, mantém distância da mídia tradicional, Bill avança novos passos a partir da Cidade de Deus e parece querer mover o hip-hop rumo à diversidade e ao diálogo (ainda tenso) entre classes sociais. De quebra, ajuda o rap a ocupar espaços de relevância que foram perdidos pela MPB de classe média.

O disco chega como conclusão musical (distribuída pela gravadora multinacional Universal) de uma seqüência de ações que tem colocado MV Bill em foco privilegiado na mídia, mesmo em meios geralmente hostis aos protestos mais diretos do rap.

Dessa seqüência fazem parte dois livros co-escritos por ele, Cabeça de Porco (que vendeu 40 mil exemplares, segundo a editora Objetiva) e Falcão (33 mil cópias vendidas). Mas o ponto culminante de exposição foi a exibição, pela Rede Globo, no Fantástico, do documentário Falcão, em que Bill e seu empresário, Celso Athayde, esmiúçam o dia-a-dia trágico de crianças e adolescentes que estão na ponta do tráfico de drogas nas favelas brasileiras.

“A minha forma de fazer é ocupar espaço”, resume Bill, que desperta reações controversas por divulgar suas idéias e seus trabalhos no Domingão do Faustão e no Palácio do Planalto, no shopping chique Daslu, de Eliana Tranchesi, e na grife de roupas Daspu, elaborada por ativistas da prostituição do Rio de Janeiro.

“Quando eu era bem mais sisudo, os próprios jornalistas me questionavam, diziam que isso me afastava do público”, ele responde às críticas inserindo a “classe mídia” no contexto. “Hoje questionam do mesmo jeito, dizem ‘pô, mas você está dialogando demais’.”

Pouco a pouco, outro espaço que Bill vai ocupando é aquele que sempre foi recusado pelo líder máximo do movimento hip-hop no Brasil, Mano Brown. O líder dos Racionais se mantém, por convicção ideológica, quase totalmente ausente da mídia controlada pela “minoria branca”, como definiu o governador pefelista de São Paulo, Cláudio Lembo, em sintonia involuntária com o discurso que percorre de modo cada vez mais contundente o trabalho de MV Bill.

É nesse pique que continua o diálogo áspero conduzido pelo menino narrador do rap citado no início, O Bagulho É Doido: Me levam pra cadeia e me transformam em detento/ você vai pra uma clínica tomar medicamento/ imaginem vocês, se eu fizesse as leis/ o jogo era invertido/ você que era o bandido/ seria o viciado, aliciador de menor.

Para vários de seus colegas, o estardalhaço que o discurso e as atitudes de Bill têm provocado talvez cause mais impacto no chamado “asfalto” que nas próprias periferias. É o que defendem o rapper Helião, que saiu do grupo paulista RZO para carreira-solo, e o carioca BNegão, egresso do núcleo Planet Hemp e hoje empenhado no Movimento Antijabá, movido por artistas independentes.

Diz BNegão: “Bill está apresentando um ponto de vista importante. É fácil provocar um sentimento negativo, reacionário, neguinho tem. Mas o que ele está fazendo dá uma coisa diferente no caldeirão. Quem já está envolvido com o hip-hop não tem surpresa, mas para quem não convive talvez seja mais impactante”.

As reações contrárias à ida à Daslu acontecem também no próprio meio, como admite Gaspar, do inventivo grupo de nova geração Z’África Brasil: “Eu não iria à Daslu, não acredito que a Daslu vá beneficiar a periferia. Mas acho que ele é corajoso de abordar temas, mexer com facção do crime, colocar os garotos do tráfico na Globo”.

É parecido com o que pensa o cineasta negro Jeferson De, que prepara o longa de estréia Um Dia, ambientado no Capão Redondo, em associação com a multinacional Columbia e a Globo Filmes. “A questão da Daslu assustou boa parte dos rappers e do entorno do hip-hop. Fiquei assustado, me levou à reflexão, por que a Daslu?”, diz, antes de formular o contraponto: “Mas ele deu um nó na cabeça de todo mundo. Surpreendeu o movimento de onde ele vem e os leitores do Estado, da Folha e da Veja. O vejo como um grande provocador, principalmente pelo fato de ter vindo de um nicho cujo cara principal (Mano Brown) está fora, quer distância de qualquer contato desse tipo”.

Questionado pela mídia, mas também por seus pares, Bill gosta de se autodefinir como uma “ponte” entre o asfalto e a favela. “O fato de ser poliglota e falar as duas línguas me deu trânsito. Não faço diferença, embora tenha preferência pela minha raiz”, afirma.

Mesmo intensificando em várias passagens o discurso duro contra “aliados” e “adversários”, ele hoje coloca alto-falante em outro dilema do hip-hop, que Mano Brown e outros muito vêm abordando no contato direto com os povos de periferia: a violência expressa nas letras.

“Antes, você podia falar de violência, hoje saturou. O protesto tem de ter um fundamento”, diz DJ Hum, pioneiro do rap local na dupla que integrou com o bravo Thaíde: “Muita gente denunciou, mas fazia a coisa que falava. O público foi vendo. Eram 300 discos falando a mesma coisa, matou, morreu, morreu, matou. Chegou um momento em que o discurso ficou muito hipócrita, pregava contra uma coisa na faixa 1 e fazia o mesmo na faixa 2”.

Bill tenta amplificar agora o que Brown há muito vinha demonstrando aos manos da periferia: que é preciso desfazer a associação imediata entre violência e periferia.

Vai direto a esse ponto em O Bagulho É Doido, quando o falcão do tráfico protesta: Eu sou destaque no outdoor que anuncia a revista ‘Veja’/ veja, veja que ironia/ que contradição/ o rico me odeia e financia a minha munição.

“Fui atacado, xingado, ouvi as merdas que muito sociólogo e socialite e jornalista falaram a meu respeito. Virei ‘o bandido do milênio’, chegaram a me chamar assim”, diz, referindo-se à indignação que causou na imprensa em 1999, ao aparecer armado num show do elitista Free Jazz Festival.

“Quando chegou o referendo do desarmamento, pessoas que me acusaram de fazer apologia do banditismo e do crime estavam nas ruas fazendo campanha pelo não ao desarmamento”, completa, lembrando que ele, o “bandido do milênio”, lutou pela aprovação da proibição do comércio de armas no País, afinal derrotada no plebiscito.

Aliado de Bill na crença de que é preciso construir pontes, o paulista Rappin’ Hood articula várias faces de uma possível nova fase do rap nacional – ele se prepara para estrelar um programa sobre a periferia, a ser exibido aos sábados na TV Cultura, que deve se chamar No Olho da Rua.

Diz Rappin’: “A gente fala o que precisa, não vai amaciar. Mas estamos dialogando. Antes ficava cada um tacando pedra de um lado. Ninguém vai ser feliz sozinho, nenhuma classe social. O patrão precisa do empregado, e vice-versa. Segurança não está adiantando mais, olha o que aconteceu, os caras do PCC pararam um estado. Agora tem de governar para o povo, senão a guerra civil está cada vez mais perto”.

De Rappin’ Hood (e também do carioca Marcelo D2, que é força central no diálogo entre o hip-hop e a indústria de massa, embora com discurso político mais atenuado) Bill parece assimilar a necessidade de erguer pontes também musicais entre o rap nacional e o Brasil. Falcão inclui, em alguns de seus melhores momentos, citações a Qualquer Coisa, de Caetano Veloso, ao libelo anti-racista Olhos Coloridos, na voz de Sandra de Sá, e à cantora dita “cafona” Vanusa.

Ecoando D2 e Rappin’ Hood, ele incluiu no CD um surpreendente sambão, Minha Flecha em Sua Mira (Me Leva). “É preciso ampliar os assuntos dentro do hip-hop, é aí que está a vanguarda do rap. O que mais vejo dentro da favela é diversidade, lá se ouve de tudo que se possa imaginar”, aprende Bill.

Diversidade e identidade são termos que aparecem fortes na nova produção local, como testemunha Gaspar, do Z’África Brasil: “Nosso trabalho é mais enraizado na pesquisa cultural do País. É falar sério, não é só indústria pop, é raiz popular”. Forrós, blues, Zumbi e Lampião conviverão no próximo CD do grupo, Tem Cor Age. “Não importa se é negro, amarelo, branco, indígena, transparente. Tem cor, age”, sintetiza Gaspar.

Segundo o paulista Parteum, irmão de Rappin’ Hood e co-autor de três faixas do disco de Bill, essa identidade mais ampla passa também pelo desmonte da centralização do eixo Rio-São Paulo: “Tem muita coisa acontecendo no Brasil todo. Vai cair isso de cara de São Paulo, cara do Rio. A mídia precisa prestar mais atenção para entender o que está acontecendo”.

Outra experiência nesse sentido é a do paulista DJ Marcelinho, que com o histórico grupo Câmbio Negro misturava rap e rock, mas hoje integra o grupo Beatchoro, em cujo disco de estréia se podem ouvir referências que vão de Noel Rosa e Jorge Ben à black music nacional.

“Minha relação com o rap mudou porque fui vendo que não tem muito mais que copiar levada de americano, ou ficar no estigma de que rap tem de falar só da quebrada, sair um pouco fora disso. Não é me afastar do rap, é me abrir. Acho que a tendência é se abrir, como já fazem Rappin’ Hood e D2, com o samba, ou o (grupo pernambucano) Faces do Subúrbio, que põe embolada no rap. Está se percebendo que o rap tem de ter uma identidade brasileira”, diz Marcelinho.

Também a identidade negra e o discurso anti-racismo, sempre presentes no rap, atingem o mainstream de modo mais intenso por intermédio de Bill, como atestam várias frases da faixa O Preto em Movimento: Não me encaixo nos padrões/ que visam meus irmãos como os vilões/ na condição de culpado/ ovelha branca da nação que renegou a pretidão; a derrota se esconde no irmão que não se assume; preto por convicção não acha bom submissão.

Fato novo adicional, presente nessa mesma faixa, é a tentativa de retratar o hip-hop como música dançante, útil à diversão. Em raps como esse e Me Leva, e também em Estilo Vagabundo, Junto e Misturado, Enquanto Eu Posso e 9 da Manhã, Bill tenta habitar terrenos ainda bem pouco freqüentados pelo hip-hop local, como lazer, festa, sexo e amor. Não é só ele – a cena rap de 2006 também se estratifica por essas várias vertentes.

Helião, rapper paulista egresso do núcleo RZO, por exemplo, se debate com a vontade de abordar temas amorosos em carreira-solo: “Vou continuar falando das mesmas coisas, mas quero falar um pouco de romantismo também. Acho isso uma evolução, poder falar de amor sem se comprometer e com poesia. Não é fácil, não pode ficar só ‘eu te amo’, ‘eu te adoro’.”

Parceira de Helião, Negra Li é outra que procura investir nessa ponte, alternando hip-hop com a languidez do rhythm’n’blues. Mas ela vai além: será uma das protagonistas do filme Antônia, de Tata Amaral, que deve estrear em 2007, tematizando a trajetória de quatro garotas da periferia paulistana. A Rede Globo estuda transformar o filme numa série nos moldes da já exibida Cidade dos Homens, possivelmente chamada Brasilândia. “É uma sementinha, acho importante eu aceitar esse lance. Posso ser uma peça, uma voz feminina”, ela diz.

Sua fala também evoca identidade, sob um fundo ainda ressabiado: “Nunca escondi de onde vim, mostrei a Vila Brasilândia no Faustão. Não nego minha origem, faço tudo direitinho. Mas às vezes pensam que a gente tem de ser super-herói. Ainda tenho de ficar mais poderosa para poder falar o que eu quiser. Sou uma jovem como qualquer uma da periferia, com sonho de fazer show, dar casa para minha mãe”.

A crescente participação feminina no rap também já foi captada por MV Bill, que apoiou o lançamento de Nega Gizza, e trouxe para o novo CD as vozes de Kmila e Hannah Lima.

Mais pontes são citadas pelo veterano DJ Hum: “O legal do Bill é que ele diz ‘meu livro está à venda’, não fica só prometendo, como sempre acontece. Um dos protestos a fazer hoje é incentivar a autovalorização do indivíduo. Não adianta dizer que o Brasil é sem futuro. O Brasil somos nós, é a gente que faz”.

Fica por conta dele a dica final: “O futuro da música rap está no passado. Quem souber disso vai dar certo no presente e no futuro”. Sem melancolia, sem hierarquia, cada um na sua maré, acrescentaria MV Bill, em É Nós e a Gente.

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