daniel carlomagno tem sido o patinho feio da geração “artistas reunidos” que a gravadora trama bancou e fez ganhar existência de fato e direito. é, de todos os rebentos, o único que não foi filho de elis regina, que não foi filho de wilson simonal, que não é filho de jair rodrigues, muito menos será ou seria filho de caetano, gil ou rita lee. talvez em parte por causa disso mesmo, seu disco de estréia (“daniel carlomagno”, trama, 2001) atraiu desatenção geral de crítica & reportagem, imprensa & mídia eletrônia, público & fã clubes. virou anti-artista reunido na mesma medida em que seus pares &/ou parceiros &/ou amigos &/ou colegas (des)unidos (joão marcello bôscoli, pedro mariano, wilson simoninha, max de castro, jair oliveira, luciana mello e, extra-trama, maria rita) atraiam interesse, mas também antipatia – uma nova panelinha se formava, foi o que compreenderam não poucas pessoas que vivem às voltas com o meio musical brasileiro.

daniel foi o “primo pobre” dessa ventania armada, em parte porque era “filho de ninguém”, filho do seu pai, pimpolho da minha mãe, membro da nossa grande família silva num mar de “celebridades”. era parente de ninguém, porque era parente de todo mundo – ou vice-versa.

querendo ou não, as “ovelhas brancas” da família trama fixaram mesmo uma imagem que passou a se locomover em bloco. mesmo com variações maiores ou menores, se identificaram, todos, com uma melopéia manhosa, ou modorrenta, dependendo do gosto do freguês: foram se consumando músicos de soul, de rhythm’n’blues, de funk, de samba-jazz, de bossa negra. alguns até se espraiam por bem mais que tudo isso, mas os rótulos cabiam bem, e a unidade NEGRA dos artistas reunidos rendeu amores & repúdios, como cutucou também uma conhecida indisposição brasileira a sons de origem negra que não sejam o samba, o baticum, o prugurundum, o atotô, o tique-tique-taque do nosso coração. mais que tudo, rendeu a noção errônea de que eram todos mais ou menos iguais.

yep, pode-se argumentar que tal noção nem é de todo errônea, mas acho também que há um fundo muito bem camuflado de preconceito naquela idéia meio corrente de que essa garotada, como nossos pais & padrastos, é “pasteurizada”, “panelinha”, “todo mundo igual”, “se acha”, “pseudochique” (ouve-se muito isso sobre a trama, viu, dona trama?). acho que pode ser, em parte, mas acho que também tudo vira mote para um certo racismo musical velado contra pretos que não pegam no pandeiro nem praticam pontapés na pelota do pelé. [vale para os “prancos” ou “pseudopretos” que apreciam praticar piparotes black music, feito pedro mariano ou os simonal ou o pequeno carlomagno.] ops, afasto-me do assunto, não é bem isso.

é que, para coroar negligências & preconceitos, há agora o segundo cd de daniel carlomagno (também “daniel carlomagno”, de novo trama). pois estou surpreso com o disco do rapaz (eu também não gostara do primeiro) e, vou lhe dizer, com o perdão do palavrão, ouço-o se revelando um puta produtor musical. e aí há as questões apontadas quando eu quase me desviava do assunto.

daniel carlomagno pisa no acelerador black music, novidade nenhuma nisso. ajudará a reforçar os estereótipos trama nos momentos mais moles, melosos e mansos (as baladas e, em especial, as canções pastosas que são de sua autoria, mas antes fizeram modesto sucesso nas vozes dos outros ex-unidos). mas não é disso que se trata o treco, não é assim que se faz, não é assim que se ama.

daniel exacerba neste momento uma outra característica dos ré-unidos, que o faz dialogar olho no olho com max de castro e se torna dado escondido por dentro dos puídos preconceitos. além de cantar com segurança neste novo trabalho, ele é ali um porta-voz de espécimes musicais que se poderiam classificar como pertencentes ao “lado b” da música brasileira. em palavras mais simples, segue, decupa e reelabora sonoridades que fogem do esquadro totalizador de caetano-chico-elis-gil-gal-bethânia. e se sai bem, extremamente bem, nessa tarefa.

porque as grandes faixas do cd evocam, dedicadamente, artistas e estilos musicais que não gozam de unanimidade – mais que isso, que não raro são identificados por nossa grosseria e superficialidade como “chatas”, “ruins”, blablablá. quer ver?

uma das coisas mais comoventes em “dc” é “machina”, uma canção de humores mineiros composta e interpretada em dupla com o veterano interiorano renato teixeira. lembra mais milton nascimento que renato teixeira, e sofre lá de seus cacoetes. mas é emocionante, viajante, acachapante; “épocas de se fartar com a esperança dos meninos”, cantam daniel e renato, entre piegas & esperançosos, entre urbanos & novamente rurais, entre profetas do passado & arautos de ares novos. há um berrante na alma de cada brasileiro, berram em pós-romaria, caipiras, piras, poras.

outra é “duas solidões”, só de daniel, que tem letra pessimista (embora tocante) e chega a lembrar até um pouco demais os modos musicais do mineiro lô borges. é estranho, mas o que às vezes chega a repelir em lô borges é o mesmo que soa tão, tão, tão atraente em “duas solidões”. parecem duas solidões, a de lô e a de daniel, atadas num mesmo sussurro por socorro. daniel aqui rima com samuel (rosa, do skank), na busca bandeirante por um brasil íntimo, interior, ex-esquecido. é bonito, e é bonito, e é bonito. “cê tá entendendo?”, como diria arnaldo baptista, os nexos? que o caso não é de cor da pele, etnia, idade, peso, extrato bancário, estrato social, sexo ou orientação sexual, mas de ex-clu-são, esse bichinho do ram-ram que nos iguala a (quase) todos?

há, então, duas parcerias com o deus sem ego marcos valle, uma delas (“o inevitável”) meio vagarosa , outra delas (“flores na varanda”) maravilhosa, abrasadora, uma brasa, mora? nas flores dessa varanda está o que havia de mais moderno no marcos valle pós-bossa nova, no marcos valle dos anos 70, no marcos valle que agia em consonância inconsciente com a modernidade eletrônica alemã do kraftwerk e com a modernidade eletrônica brasileira de joão donato & tamba trio. era gente de vanguarda, mas gente do lado b por excelência.

“de volta ao começo”, a última canção, é também de lavra marcosvalleana, embora tenha título de música de gonzaguinha. é longa, enorme, rica, mirabolante. musicalmente, faz tentativa tímida & ambiciosa de ir parar além do professor, de trazer o passado para o futuro, de botar cuíca sintetizada na cuca legal do século xxi.

no meio da massa musical em efeitos de túnel retrofuturista do tempo, há “minha casa”, de daniel sozinho. toca um funk encorpado, tradicional. essa é sua casa, ele parece dizer. é aquele cotovelo que não vão gostar, que vão chamar pasteurizado, patota, panelinha. pode ser, procede. mas é boa, bacana, bem produzida. por favor, pare agora.

por fim, de volta ao começo, há a faixa de abertura, chamada “minha cabeça”. ai, essa tem uma letra negativa, algo dramática, que lembra em graus mais ou menos elevados o imaginário rígido, reto e ríspido de edu lobo. tem poesia pontuda, de imagens autocríticas como “esse bairro estranho e distante que é minha cabeça”, “de madrugada a moça chorando no portão da minha casa”, “havia nada a fazer, era a minha decisão/ e estava errada, mas eu sempre o dono da razão”… pop sideral, erige sobretudo um castelo de sonoridade, produção e interpretação que ergue uma declaração de paixão imedida pela música de marcos (& paulo sérgio) valle. “na minha cabeça” é uma grande canção dos valle black-white-blonde dos anos 70, mas muito modernizada e composta solitariamente pelo próprio discípulo, o carlomagno, instantâneo marcosmagno. é o testemunho modesto, aprendido no déficit de ego de valles, naras e erasmos, de um garoto que viaja de volta ao começo (“tem gente que vem e quer voltar”, “o trem que chega é o mesmo da partida”) para tentar encontrar esse monstro medonho e banguela que é o futuro.

precisa perder pachorra e preconceito para poder apreciar. o lado a já gastou, tem que virar o lado do disco, porque, você sabe, cd não é vinil, mas também tem lado b, o outro lado da lua. e música (em vitrola, radiola, toca-cd, mp3 ou memória ram) tem tantos lados que é quase um cubo, um poliedro.

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