O som de Tiago Araripe

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O compositor, poeta, cantor e produtor Tiago Araripe destrinchando um coco na Praia de Iracema, em Fortaleza

 

 

Tiago Araripe, cearense do Crato, estudava Arquitetura no Recife nos anos 1970 e criara o coletivo Nuvem 33, de música experimental. Quando houve o Festival Experimental de Música de Nova Jerusalém, um visionário Woodstock tupiniquim, Tiago estava lá com seu grupo ao lado de cometas psicodélicos caboclos, como o Tamarineira Village (embrião do Ave Sangria), e foi naquele ambiente frenético que tomou uma decisão de toda uma vida: “Não quero mais fazer Arquitetura. Vou fazer música”.

Tiago seguiu então para São Paulo, determinado a estudar na escola que o baiano Tom Zé mantinha àquela altura na metrópole. Mas Tom Zé tinha fechado a escola. Como tivesse se tornado vizinho de um compositor e diretor de teatro chamado José Luiz Penna, este o levou para conhecer Tom Zé num estúdio que o maestro Rogério Duprat mantinha na região central de São Paulo. Ficaram a tarde toda tocando violão e conversando e Tom Zé convidou Tiago Araripe para tocar consigo. Ficaram um ano com um projeto acústico que, a pedido de Tiago, eletrificou-se.

Tom Zé e Tiago Araripe gravaram então um compacto pela Continental, hoje uma preciosidade, com duas músicas: Conto de Fraldas (Tom Zé) e Teu coração bate, o meu apanha (Tiago Araripe e Décio Pignatari). Quem fez os arranjos, tocou piano e teclados foi um desconhecido de Guarulhos, Guilherme Arantes. Era já o ano de 1974.

Tom Zé apresentou Tiago ao pessoal concretista – além de Décio Pignatari, que virou parceiro musical (fizeram juntos também a canção Drácula), também os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Moravam todos ali pelo bairro de Perdizes.

Tom Zé pegou outro rumo, mas o grupo evoluiu para virar uma banda: o grupo Papa Poluição (Penna, Araripe, Paulo Costta, Xico Carlos, Bill Soares e Beto Carrera). Um dos compositores, José Luiz Penna, tinha uma canção que costumavam tocar nos shows. Um dia, em turnê pelo circuito Sesc abrindo as noites para um ídolo emergente, cearense, este perguntou a Penna se podia fazer umas modificações na canção e gravá-la. Acrescentou dois versos, eliminou outros. O ídolo era Belchior, a canção era Comentário a Respeito de John.

Entre 1981 e 1982, pelo selo Lira Paulistana, Tiago Araripe gravou seu primeiro elepê, um clássico: o disco Cabelos de Sansão. Na capa, montado num leão, envolto por uma fotografia da Nebulosa de Trífida (uma massa de gás e poeira espaciais na Constelação de Sagitário), Tiago incursionava por um som de avant garde, progressivo, experimental, com destaque para Coração Cometa; para sua versão de Little Wing, de Jimi Hendrix; e a parceria com Cid Campos  em Estrela do Mar. O álbum não aconteceu em sua época, só sendo resgatado em 2008 pela antena de Zeca Baleiro e seu selo Saravá Discos.

Em 2004, Tiago Araripe estava havia 26 anos afastado da música. Música gravada, mas continuava produzindo, burilando, compondo. Trabalhando numa agência de publicidade, encontrava raro tempo para continuar sua tarefa sonora. Zeca Baleiro o trouxe de volta ao front. Em 2013, ele lançou Baião de Nós (gravada pela Candeeiro Discos, com apoio do governo de Pernambuco), que trazia duas parcerias com Zeca, a faixa-título e Esfinge.

Há um ano, entretanto, Tiago Araripe decidiu colocar em prática um plano que já vinha acalentando há algum tempo: ir embora do Brasil, mudar radicalmente de horizontes existenciais. “Era preciso para me reinventar, seguir em frente. Ou envelhecer de vez”, diz o poeta e músico, agora com 67 anos. Foi parar em Bombarral, no interior de Portugal, onde vive atualmente. Fica a 45 quilômetros de Lisboa, uma região que produz alguns vinhos e frutas, especialmente pera rocha. Em Portugal, a música o reivindicou: gravou com a cantora portuguesa Mara a canção Tudo no Lugar, um encontro entre o Nordeste, o fado e a cultura moura.

Perto de estrear um concerto em Lisboa, Tiago Araripe desembarcou em Fortaleza essa semana para gravar uma música. Acabou se dispondo a gravar logo duas, uma delas que poderá ter a direção musical do visionário guitarrista Cristiano Pinho (a outra, uma parceria com Nonato Luiz, será produzida por Adelson Viana). Tiago vai ficar até 25 de julho. Aquilo que Brasil tem de melhor nunca deixa o Brasil para trás.

 

 

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