Homem-Aranha: Longe de Casa é um falso filme de férias.

E isso não é negativo, muito pelo contrário. É altamente elogioso (notem que eu não disse um filme de férias falso, mas um falso filme de férias).

Trata-se de uma inesperada incursão da Marvel Comics, indústria cultural por excelência, pelo insight de Federico Fellini em E La Nave Va.

Em E La Nave Va (1983), Fellini evidenciava em um filme onírico a máquina de fabricação de imagens e de fantasias do cinema. A câmera entrava por trás dos cenários e mostrava as trucagens; escancarava-se a maquinaria, o mar era de lonas agitadas por bombas mecânicas, o movimento do navio era artificial. Os intestinos do cinema eram desvelados.

A princípio, Homem-Aranha: Longe de Casa parece que vai se conformar com seu destino de blockbuster de temporada. Inicia com um ritmo de ação absolutamente eletrizante, como todos do gênero. Isso vai até mais ou menos a metade. Aí, ele subitamente revela que toda a ação que prendia a atenção do espectador era apenas truque, projeção holográfica, e que os monstros alienígenas eram todos fajutos. Mas é como se afirmasse: calma, não precisam se sentir culpados, foi uma maldadezinha nossa, sabemos que vocês não vivem sem isso, sem uma boa pancadaria (e essa maldadezinha ainda não tinha terminado ali, se o espectador ficar até depois dos créditos).

Com em Fellini, a conclusão de Homem-Aranha: Longe de Casa não é absolutamente desmerecedora da experiência cinematográfica. É um cumprimento, uma reverência ao arsenal de ilusionismo do cinema e suas maravilhas.

O ambíguo Mistério (Jake Gyllenhaal) celebra o sucesso de uma artimanha em um pub cheio de, digamos assim, associados. Ele os saúda um a um, e eles parecem saídos de uma equipe de efeitos de pós-produção de filmes de ação. Mistério se detém especialmente naquele funcionário que, salienta, escreveu um roteiro tão ruim, mas tão ruim, que todo mundo acreditou nele: um trágico herói de um planeta extinto vem à Terra para tentar salvar os habitantes de nosso planeta de um destino terrível (que já o tinha separado de sua família). É metalinguagem: esse seria presumivelmente o argumento do novo filme do Homem-Aranha.

“As pessoas hoje em dia estão propensas a acreditar em tudo que veem”, ironiza (em outro momento) Mistério, que é o homem-charada do filme.

Há muitas camadas de leituras nessa produção, muitos desvelamentos. A velha Europa (uma Veneza de estúdio, Praga e Londres) é medida pela mentalidade adolescente e turística do americano médio; os adolescentes da turma de Peter Parker (Tom Holland) no subúrbio do Queens, em Nova York (ou seja: todos os adolescentes do mundo) creem que ópera é uma coisa que só idosos com andadores frequentam. Mas não é uma ignorância que só alcança as coisas mais clássicas: quando Happy (Jon Favreau) coloca uma música no jato de Tony Stark (Robert Downey Jr), o garoto Parker imediatamente diz: “Eu adoro Led Zeppelin!”. Na verdade, não é Led Zeppelin (mas não vou dizer o que é porque é parte da graça do filme essas gags geracionais).

J.J. Jameson (J.K. Simmons), o patrão-jornalista de Peter Parker no Clarim Diário, faz uma aparição como âncora de um noticiário sensacionalista de TV exatamente no papel mais realista: o do tycoon da imprensa que escolhe sempre o lado dos opressores.

Em vez de vilões onipotentes engolidores de estrelas, a maior ameaça de Homem-Aranha: Longe de Casa é a tecnologia de consumo ligeiro e fora de controle, como a profusão de drones e a hiperdependência da comunicação eletrônica. A pior vilania é a superexposição da vida privada e o julgamento sumário da internet.

Dentro da cronologia de histórias de super-heróis, essa nova aventura do Homem-Aranha se passa logo após os eventos de Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame). Peter Parker (e todo o mundo)  está aprendendo a viver sem um líder e amigo, Homem de Ferro, a.k.a. Tony Stark, perda trágica naquela aventura dos Vingadores. Ele é um adolescente travado: não consegue se declarar à garota que paquera, MJ (a modelo teen Zendaya) e seu único amigo é um onanista nerd. Mas, ainda assim, e apesar de só ter 16 anos, o serviço secreto de defesa do mundo, a SHIELD, quer recrutá-lo.

O filme é um inteligente exercício da metalinguagem. Se houvessem mesmo os super-heróis e os super-vilões e eles duelassem titanicamente, alterando o cotidiano das pessoas comuns, o que aconteceria na nossa vida ordinária? Isso é respondido logo no início do filme. Quem está habituado ao Universo Marvel sabe que o vilão interplanetário Thanos eliminou metade da humanidade, e que no filme seguinte  esse genocídio foi desfeito. Homem Aranha: Longe de Casa raciocina: sim, foi desfeito, mas  5 anos depois. O que terá acontecido com as pessoas comuns nesse vácuo de tempo? Adolescentes viraram adultos. Pais se divorciaram. As escolas mudaram os currículos. Namoros foram iniciados. Os campeonatos foram vencidos por WO pelo lanterna. Como receber de volta os que se foram?

A diferença entre Fellini e o diretor desse blockbuster, Jon Watts, é que o espectador de Fellini sabia perfeitamente do que ele era capaz, tinha expectativas sobre o universo em que ele o enfiaria; Watts se move no terreno do imponderável, talvez poucos de seus tradicionais espectadores notem o que ele propõe como reflexão. No entanto, já prevendo isso, ele torna o filme também um admirável entretenimento adolescente com uma história subjacente, a do delicado e envolvente romance entre Peter Parker e MJ.

É provavelmente um dos melhores filmes provenientes da indústria do entretenimento na última década.

 

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