A arte se encolhe e se expande em tempos de aperto econômico e político. A economia favorece o surgimento de trabalhos mínimos, tipo voz e um instrumento – um piano, um violão. Assim são os novos trabalhos da carioca Alice Caymmi, só voz e piano, e do pernambucano Ayrton Montarroyos, só voz e violão de sete cordas. O fato de serem, ambos, intérpretes de excelência dá legitimidade aos projetos. Pela concisão, ambos coincidem em buscar outros atrativos para encorpar os álbuns, e por isso fazer da seleção de repertório um elemento fundamental dos CDs.

Capa de “Electra”, de Alice Caymmi

Aos 29 anos, Alice, filha de Danilo Caymmi e neta de Dorival Caymmi, batiza seu disco de Electra, entre grega e freudiana. O repertório é o que a geração de Adriana Calcanhotto e Marisa Monte convencionou chamar de eclético. Do samba, em interpretações intimistas, mas derramadas, ela toma “De Qualquer Maneira” (1971), de Candeia, e “Pedra Falsa” (1985), de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, lançada por Roberto Ribeiro. “Mãe (Mãe Solteira)” (1976) ela extrai do tropicalista Estudando o Samba, de Tom Zé, e constrói versão pungente e extremamente pessoal. De lavra comparável é “Me Deixe Mudo” (1973), do “maldito” Walter Franco.

Do pop negro Alice busca “Pelo Amor de Deus” (1972), da face mais romântica de Tim Maia. De Fagner toma a áspera e lamuriosa “Fracassos” (1975), que em sua voz fica mais sentimental do que áspera ou lamuriosa. Da clássica dor de cotovelo de Maysa, empresta a dramática “Diplomacia” (1958). Da voz da portuguesa Amália Rodrigues, relê o fado “Medo” (1966). Do pai Danilo, com Ana Terra, electra recupera “Aperta Outro” (1977), único momento descontraído do disco. “Areia Fina” (2014), da Letuce, é a única faixa contemporânea do álbum. A dramaticidade e a fossa, além do piano de Itamar Assiere, uniformizam a diversidade musical de Electra, gravado ao vivo (mas sem público), em dois dias.

Capa de “Um Mergulho no Nada”, de Ayrton Montarroyos

A deslinearidade de repertório caracteriza também Um Mergulho no Escuro, de Ayrton Montarroyos, gravado ao vivo no Teatro Itália, em São Paulo, em duo com o violonista Edmilson Capelupi. O disco, de capa entre gregos & troianos, começa inédito, com a belíssima canção “Pé na Estrada”, dos conterrâneos Ylana Queiroga e Yuri Queiroga. A outra faixa contemporânea é “Jabitacá” (lançada por Gal Costa em 2015), dos também pernambucanos Junio Barreto, Lirinha e Bactéria, e o resto é nostalgia de tempos que Ayrton, de 23 anos, não viveu em pessoa.

“Sem Pressa de Chegar”, gravada em 2000 por Delcio Carvalho, é uma parceria póstuma com o patrono do frevo pernambucano Capiba, da qual sai a expressão que dá título ao disco. Ayrton regrava “Açaí” (1982), de Djavan, “Mar & Lua” (1980), de Chico Buarque, e “Cálice” (1973), de Chico e Gilberto Gil. Voltando mais atrás, ele chega à bossa nova de “Brigas Nunca Mais” (1959), de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, ao choro carioca de “Doce de Coco” (1964), de Jacob do Bandolim, com letra posterior de Hermínio Bello de Carvalho, o samba de dor de cotovelo “Dona Divergência” (1951), de Lupicinio Rodrigues e Felisberto Martins, e o samba baiano “Sodade Matadeira (1948), de Dorival Caymmi.

A unidade buscada por Ayrton está no mergulho profundo nas canções – essa é a brincadeira do título, em referência à propalada morte da canção (leia aqui entrevista do cantor). Apesar do dom solene das diversas faixas, não é o drama, mas a sensibilidade que caracteriza Um Mergulho no Nada.

Cada um a seu modo, Alice e Ayrton exercitam a arte em tempos de cólera. Pode soar escapista o muito olhar para trás, mas ao mesmo tempo os formatos mínimos convidam à apreciação mais concentrada, quem sabe à reflexão sobre os dias duros que vivemos. É preciso estar atentos e fortes.

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