Aos 70 anos, Joyce reproduz a imagem de capa do álbum der estréia, quando tinha 20 - foto Leo Aversa/divulgação
Aos 70 anos, Joyce reproduz a imagem de capa do álbum de estréia, quando tinha 20 – foto Leo Aversa/divulgação

Joyce Moreno nasceu de “produção independente” em 1948, 40 anos antes de a conservadora sociedade brasileira considerar aceitável um dado como esse para uma mulher. Aos 20, no ano do AI-5, estreou em LP solo de compositora que hoje seria assimilado sem grandes traumas como “feminista” (palavra rara no Brasil de 1968). Ali, a jovem educada em colégios católicos chamava homem de “meu homem” e “meu moreno”, dizia que não desejava sustentar marido, seduzia quem quisesse com a liberdade de que o país institucional não desfrutava.

A compositora carioca, hoje com 70 anos, acaba de regravar na íntegra, pelo selo nacional Biscoito Fino, aquele simplesmente Joyce de 1968, agora sob o título 50. É um comentário de musa de si mesma, que se homenageia em vez de esperar que alguém mais o faça, mas é muito mais que apenas isso. O violão, o canto, as letras e a fala de Joyce Moreno comunicam muito a um país ainda golpeado pela destituição de sua primeira presidenta da República. Ao repertório juvenil, a artista acrescenta duas canções inéditas que comentam em profundidade lancinante esses 50 anos de túnel dos tempos. São elas “Com o Tempo”, parceria 100% feminina com Zélia Duncan, em que afirma que “com o tempo/ fui ficando mais moça/ mais olhos, menos onça”, e “A Velha Maluca”, na qual reivindica, sozinha, um próximo passo de emancipação da condição feminina, o das idades mais avançadas. “No dia em que ficou velha, a moça ficou contente/ pra ela era indiferente/ foi bom pra se libertar/ da escravidão da beleza, do empenho em viver bonita e ser/ a velha esquisita, maluca de arrepiar”, canta em “A Velha Maluca”.

“Tem hora que acho que ficar velha é uma coisa sensacional, porque começam as pessoas a valorizar um monte de coisa que você fez lá atrás e ninguém dava a mínima”, avalia a senhora auto-musa. “As pessoas falam ‘Joyce é uma compositora do nível de um fulano de tal’, e aí falam dos grandes nomes da MPB. É engraçado isso, porque, né?, durante esses anos todos nem os meus colegas se davam conta disso. Porque eu não fazia concorrência com ninguém, porque eu era uma menina no mundo dos meninos, brincando no playground dos meninos.”

Acompanhe abaixo, em vídeo e/ou em transcrição de texto, a íntegra da entrevista da compositora que desbrava há meio século um ambiente masculinamente inóspito, concedida em 7 de julho de 2018 para fundamentar reportagem da edição 1.016 da revista CartaCapital. Joyce falou em lugar pomposo, o centro do palco do Sesc Belenzinho, em São Paulo, onde poucas horas depois faria o primeiro show paulistano de 50. Ensaiando no mesmo território e convidado a participar, o companheiro e parceiro de mais de quatro décadas Tutty Moreno, baterista mundialmente consagrado, preferiu se esgueirar para os bastidores e deixar a companheira ocupando com exclusividade o “lugar de fala” que há 50 anos não cessa de gentilmente reivindicar.

(No vídeo, foram perdidos os primeiros minutos da entrevista – a janela está reproduzida abaixo, no ponto da conversa onde começa a gravação.)

 

Pedro Alexandre Sanches: Depois de 50 anos você regrava o primeiro disco da sua carreira. Por que lembrar de quando tinha 20 anos?

"Joyce", de 1968
“Joyce”, de 1968

Joyce Moreno: Porque eu gosto desse repertório e queria fazer, primeiro, como uma cantora melhor, e segundo, porque essa cantora melhor tem ideias que aquela de 20 anos ainda não sabia que ia ter e nem tinha como realizar. Era um disco de iniciante, uma outra situação. Não tinha o poder que hoje tem, pra colocar suas ideias e tudo mais.

PAS: O disco começava e agora começa com “Não Muda Não”, uma canção sua, em que você está falando com um namorado, dizendo “não quero arranjar marido”, “não quero te mudar”. Que significavam esses versos há 50 anos e que significam hoje?

JM: Na verdade eu fiz até antes, fiz com 18 anos. Eu vinha do colégio católico e estudava na PUC. Saí de colégio de freira pra universidade católica também, onde as meninas da minha geração, as garotas de Ipanema, eram preparadas pra ser exatamente essa coisinha, essa coisa toda minha que ninguém mais pode ser, pra casar e ter aquela função na vida. E eu já sabia que não era isso que eu queria. Até posso ter passado por isso em alguns momentos, mas não era realmente o que eu queria fazer quando eu tinha 18 anos. Essa música não é pra nenhum namorado em especial, mas é uma declaração de princípios de uma menina bem marrenta (ri).

PAS: Uma declaração que não era tão em voga.

JM: Nem um pouco.

PAS: E hoje é.

JM: É, quer dizer, 50 anos depois, é aquela famosa fórmula matemática, como queríamos demonstrar.

Joyce Moreno, "50", 2018
Joyce Moreno, “50”, 2018

PAS: Você sente que demorou 50 anos, ou quase isso, pra conseguir demonstrar?

JM: Acho que demorou 50, sim, porque aquela onda feminista de 1979, 1980 ainda era uma outra coisa. Não era isto ainda que é hoje. Tem essa palavra que eu acho horrorosa, empoderamento – acho muito feia, porque é um anglicismo desnecessário, mas o sentido dela é muito legal, que é o sentido de você tomar a rédea da sua vida. É uma coisa simples assim.

PAS: E ali você assinava como apenas Joyce, e todas eram Joyce, Joanna, Simone, Marina

Regina Duarte comandou o elenco musical feminino do especial "Mulher 80", fundado na trilha sonora do seriado "Malu Mulher" (1979), pautado pelo levante feminista de então, a bordo da oficialização do divórcio no Brasil; Joyce participava como compositora, assinando "Feminina", interpretada pelo Quarteto em Cy
Regina Duarte comandou o elenco musical feminino do especial “Mulher 80”, fundado na trilha sonora do seriado “Malu Mulher” (1979), pautado pelo levante feminista de então, a bordo da oficialização do divórcio no Brasil; Joyce participava como compositora, assinando “Feminina”, interpretada pelo Quarteto em Cy; na foto estão Elis Regina, Simone, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Lee, Fafá de Belém, Regina Duarte, Marina Lima, Zezé Motta, Joanna e o Quarteto em Cy

JM: Mas isso já em 1979. Eu estreei como Joyce em 1968, aquele ano que não acaba nunca.

PAS: Acho curioso que as mulheres não tinham sobrenome na música popular brasileira.

JM: Não tinham sobrenome. Isso realmente, tirando um ou outro homem – Lenine, Djavan, eles também não têm sobrenome.

PAS: E Gal Costa tinha, mas a maioria das mulheres, não.

JM: Acho que no meu caso é como o de Lenine e Djavan, nome raro. Joanna existe, Simone existe. Joyce, naquela época, não tinha ninguém. Agora tem um monte. Eu fiz o teste do IBGE pra ver, descobri “Clareana” acontece em 1980 e em 1981 tem um boom de pessoas chamadas Joyce acontecendo no Brasil. É engraçado isso.

PAS: Ali não existia Google. Quando passa a existir, todas as Joyces viram uma só.

JM: Pois é, exatamente.

PAS: Se escreve Joyce aparece o James Joyce.

JM: É, ele é o mais famoso de todos, né?

PAS: É uma pergunta boba essa do nome sem sobrenome, mas estou querendo avizinhar essas questões da feminilidade mesmo, e de ter ou não ter marido. As mulheres tomavam e ainda tomam o sobrenome do marido. Você é casada com Tutty Moreno.

JM: Mas olha, eu tomei o sobrenome do marido por vontade própria mesmo, foi uma escolha minha, depois de 24 anos de convivência.

PAS: E se fosse o seu mesmo, como seria?

JM: Joyce Silveira Palhano de Jesus. É um nome muito grande, aquela tradição portuguesa daqueles nomes enormes, sendo que não era nem meu sobrenome, porque o meu nome verdadeiro era para ser outro. Porque eu sou filha de produção independente. Meu pai de verdade era dinamarquês. Seria um outro sobrenome se houvesse divórcio na época que minha mãe encarou a barra toda que encarou para me ter sozinha depois de um relacionamento que durou relativamente pouco. Então, como não havia divórcio no Brasil em 1948, ela assumiu, de comum acordo com o ex-marido, o primeiro marido, que eu seria registrada como filha dele. Ele mesmo se ofereceu pra isso, porque havia toda uma situação, de ter deixado ela com dois filhos, ter ido embora com outra mulher. Tinha toda uma situação meio de culpa, e aí fiquei com esse sobrenome. Então sobrenome pra mim realmente não queria dizer nada, absolutamente nada.

PAS: Esse era até um motivo pra ser só Joyce?

JM: É. Aí veio o Google. E veio um monte de Joyce no mundo. E achei que seria legal aceitar o pedido que meu companheiro já vinha fazendo havia muitos anos, “vamos casar, vamos assinar o contrato”. Aí finalmente a gente resolveu fazer isso, depois de 24 anos.

PAS: Só pra ver se entendi, no seu batismo você está registrada com o sobrenome do ex-marido da sua mãe?

JM: Sim, que é meu pai oficialmente e eu nem conheci pessoalmente.

PAS: E é de Jesus?

JM: É, Palhano de Jesus é o sobrenome dele, e Silveira o da minha mãe. Depois de casar fiquei Joyce Silveira Moreno.

PAS: Você viraria Joyce de Jesus, possivelmente uma cantora de candomblé…

JM: Ou evangélica, quem sabe (risos).

PAS: nhamos a Clementina de Jesus.

JM: Podia ser uma das duas coisas.

Em "Encontro Marcado", de 1969, as asas da compositora começavam a ser cortadas: só quatro das 11 faixas tinham a assinatura de Joyce
Em “Encontro Marcado”, de 1969, as asas da compositora começavam a ser cortadas: só quatro das 11 faixas tinham a assinatura de Joyce

PAS: Joyce, você fez esse disco autoral de 1968, depois fez mais um e depois passou uma década até voltar a gravar canções suas. No meio tempo teve Passarinho Urbano (1976), que não era autoral.

JM: Esse é o disco do meu retorno mesmo como artista ao mundo da música, trabalhando com Vinicius de Moraes na Itália. Sergio Bardotti era o produtor que fazia os discos de Vinicius e Toquinho na Itália. Ele me conheceu, achou legal e propôs fazer. Gravamos, sei lá, em um dia ou dois, esse disco que é voz e violão.

Gravado na Itália, "Passarinho Urbano" (1976) reunia canções de autores (homens) sob a mira da censura ditatorial, como Aldir Blanc, Caetano Veloso, Carlos Lyra, Chico Buarque, Edu Lobo, João Bosco, Maurício Tapajós, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Ruy Guerra, Sidney Miller, Zé Keti...
Gravado na Itália, “Passarinho Urbano” (1976) reunia canções de autores (homens) sob a mira da censura ditatorial, como Aldir Blanc, Caetano Veloso, Carlos Lyra, Chico Buarque, Edu Lobo, João Bosco, Maurício Tapajós, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Ruy Guerra, Sidney Miller, Zé Keti…

PAS: Joyce intérprete.

JM: É, eu escolhi… Estava numa seca de composição no momento.

PAS: Estava numa seca? Não estava compondo?

JM: Sim, e optei por fazer as músicas dos colegas que estavam sendo censurados. Passarinho Urbano é um disco muito de compositores que estavam sendo censurados no Brasil naquele ano de 1975, que foi quando gravei o disco.

PAS: Eu queria entender como e por que a menina de 20 tem uma safra inicial de composições e depois some por dez anos. É como se a compositora ficasse recolhida?

JM: Não chega a dez anos, né? Foi uma fase. Tive as minhas filhas, fiquei um tempo afastada, foi um período meio de seca musical, nessa parte da composição. Mas sempre foi o que eu queria realmente fazer. Aí eu volto em 1975, 1976, começa de novo uma safra boa de composições, e algumas estão naquele disco que você gostou, Visions of Dawn, com Naná Vasconcelos e Mauricio Maestro. E daí não para mais. Daí pra frente vai, embala.

O disco autoral gravado em  1976 foi arquivado e só veio à tona em 2009, sob o nome "Visions of Dawn", por iniciativa do selo britânico FarOut
O disco autoral gravado em 1976 foi arquivado e só veio à tona em 2009, sob o nome “Visions of Dawn”, por iniciativa do selo britânico FarOut

PAS: Ou seja, houve um disco autoral em 1976 que não foi lançado.

JM: Que só foi lançado 30 anos depois. E depois tem Natureza, que não foi lançado nunca, que é o disco com Claus Ogerman, também autoral, feito em Nova York em 1977, com orquestra, com tudo.

PAS: Cadê?

JM: Ele liberou duas faixas pra compilações, e só tem isso. Eu tenho uma cópia muito ruim de uma fita cassete da época, imagina. Mas estão lá os arranjos de orquestra dele, tá tudo lá.

PAS: Na verdade não é que você não compôs durante dez anos, você só não foi lançada.

JM: É, fui relançada em 1980 com o Feminina. Tem muita gente que acha que Feminina é o meu primeiro disco. Mas teve todo esse pré-eu.

Já sob o sucesso de "Clareana" no festival global MPB 80, "Feminina" (1980) marcou a volta da compositora, com "Mistérios", "Feminina", "Essa Mulher",  "Da Cor Brasileira", "Revendo Amigos", "Banana", "Aldeia de Ogum"...
Já sob o sucesso de “Clareana” no festival global MPB 80, “Feminina” (1980) marcou a volta da compositora, com “Mistérios”, “Feminina”, “Essa Mulher”, “Da Cor Brasileira”, “Revendo Amigos”, “Banana”, “Aldeia de Ogum”…

PAS: Por que esses dois momentos ficaram perdidos?

JM: Não sei, por falta de oportunidade mesmo. No caso do Claus Ogerman, ele não quis. Muitas gravadoras de vários países tentaram comprar esse tape dele, inclusive porque tinha, além dos arranjos dele, orquestra, músicos importantíssimos, muitos já falecidos, como Michael Brecker, Naná Vasconcelos, Joe Farrell, um monte de músico bacana. Nunca foi lançado porque ele não quis. Agora ele também morreu, e a família dissepra última pessoa que tentou, de um selo da Inglaterra, que não sabe onde está esse tape.

PAS: Você também não sabe?

JM: Eu não sei. Eu é que não sei mesmo, não sei de nada. Se tem alguém que não saiba, sou eu.

PAS: Esse disco tinha músicas suas que provavelmente ficaram conhecidas depois?

JM: “Feminina”, “Mistérios” (que apareceria em 1978, em Clube da Esquina 2, na voz de Milton Nascimento)…

PAS: Nada menos que essas músicas…

JM: Algumas coisas assim.

PAS: Seria um lançamento internacional seu?

JM: A ideia era essa.

PAS: Que viria a acontecer décadas depois, espontaneamente.

JM: Pois é. Quer dizer, o que tem que acontecer acontece, né? Mas os caminhos é que ficam meio tortuosos às vezes.

PAS: Você escreve no encarte de 50 que um crítico da época disse que “Superego” era uma música tão boa que não parecia ter sido feita por uma mulher.

JM: É, e outro dia um pesquisador amigo encontrou esse texto, acho que no Diário de Notícias, um desses da época.

PAS: Não vamos dar nome ao boi?

JM: Eu não sei o nome do cara, mas sei que tá lá. Recebi esse recorte. Até com o nome do cara, mas eu esqueci. Dizia isso, “grande música, difícil de acreditar que tenha sido feita por mulher”.

PAS: O relançamento também reproduz o texto de Vinicius de Moraes escrito para o disco de 1968. Eu não entendo muito bem o sentido, mas ele diz que “ela facilmente poderia ser só uma cantora”.

JM: Ele achava isso. Ele já tinha percebido isso.

PAS: Ele estava criticando o fato de você também compor?

JM: Não, de jeito nenhum, acho que pelo contrário, ele está dizendo que eu não queria o caminho mais fácil. Que eu poderia ir bem como cantora, se eu quisesse ficar só nesse caminho. Mas ele sacou de cara que o caminho não era esse. Tanto que no final ele fala “Joyce, que vai dar o que falar”, não me lembro exatamente, “a que tem o sentido das palavras e conhece o mistério do seu casamento com as notas”, quer dizer, o ofício da composição, palavra e som.

PAS: E foi ele que te chamou de feminista na ocasião?

JM: Foi.

PAS: O que era ser feminista em 1968? Você se sentia?

JM: Eu não sabia nem o que era isso. Eu estava só escrevendo no feminino singular e achava que era muito natural. Mas, devido ao forrobodó todo que aconteceu, eu me dei conta de que não, de que não era ainda o momento disso. O momento chegou, mas naquela época realmente era uma coisa meio esquisita.

PAS: O forrobodó a que se refere é porque você falava “meu homem” (na letra de “Me Disseram”)?

JM: É, e de sempre falar na primeira pessoa do feminino. Isso não se usava. Ninguém fazia isso.

PAS: Estamos falando de machismo?

JM: Mas claro. Claro. Claro.

PAS: Hoje podemos decupar completamente o que significava tudo isso.

JM: Podemos e devemos (ri). Hoje é perfeitamente compreensível isso, a gente entende.

PAS: O machismo não teria adiado dez anos da sua história? Não foi isso que aconteceu?

JM: Acho que teria adiado dez anos ou mais. Tem hora que acho que ficar velha é uma coisa sensacional, porque começam as pessoas a valorizar um monte de coisa que você fez lá atrás e que ninguém dava a mínima. E as pessoas falam “Joyce é uma compositora do nível de um fulano de tal”, e aí falam dos grandes nomes da MPB. É engraçado isso, porque, né?, durante esses anos todos nem os meus colegas se davam conta disso. Porque eu não fazia concorrência com ninguém, porque eu era uma menina no mundo dos meninos, brincando no playground dos meninos.

PAS: Pra tentar não ser aquele cara de 1968 que disse que você quase parecia um homem, tenho que confessar que eu fazia parte disso. Eu não prestava atenção em você.

JM: Tá vendo?

PAS: E eu não sei se é porque você é mulher, eu acho que era. Tudo que tem acontecido leva a gente a entender essas coisas.

JM: Possivelmente (ri). Mas você não acha um espetáculo que isso está dando essa compreensão nova de todas essas coisas?

PAS: Importantíssimo.

JM: Eu acho um momento muito interessante, com todos os possíveis exageros que aconteçam e vão acontecer. É muito interessante que se dê atenção a esse negócio, “opa, peraí, mas então…”. Legal isso. Acho um momento muito emblemático.

PAS: No mesmo momento em que a moça que estava aí desde os 20 está se declarando “velha maluca”, é mais legal ainda.

JM: (Risos.) É uma outra próxima questão. O mundo vai ter que lidar com essa geração, do pessoal de 1968 por exemplo, os baby boomers, que mudaram também o conceito de velhice. O conceito de tempo também muda com a minha geração. É uma geração bem foda, viu?, que muda muita coisa.

PAS: A letra de “A Velha Maluca” é sensacional.

JM: Ah, que bom, que bom. Pois é, porque na verdade soy yo, né? Eu fiz pra mim mesma. Eu sou minha própria musa e tô totalmente no sujeito de mim mesma.

PAS: Olhando de fora e de longe, você não parece maluca…

JM: É uma nova maneira de encarar esse tempo extra de vida. Quando eu era menina, uma pessoa de 50 anos era pra mim uma pessoa decrépita. Hoje em dia 50 anos eu acho um jovem adulto. Porque a adolescência vai até os 35, mais ou menos, então os jovens adultos têm 50, 60, estão longe ainda de ser velhos. 70, agora, vamos lá, vamos começar um negócio aí e vamos ver como é que é.

PAS: Se for homem, às vezes fica moleque até morrer.

JM: Então, acho que tudo isso faz parte. Acho interessante. A gente tem que começar a lidar com essas coisas também.

PAS: Você vai fazer 70 ou já fez?

JM: Acabei de fazer, fiz em janeiro.

PAS: Esse seria um novo momento de feminismo, se afirmar como mulher de 70?

JM: Eu acho, sim.

PAS: Tetê Espíndola, que passou dos 60, já me falou isso.

JM: Acho que é uma próxima questão que vai ter que ser encarada, sim, totalmente. Tem um livro, as francesas verbalizam e contextualizam tudo, tem essa mulher que se chama Christiane Collange e tem um livro chamado A Segunda Vida das Mulheres, que é essa aí, a partir dessa idade. Ela fala 55 anos, eu não acho, acho que é mais à frente ainda um pouco. Mas de qualquer forma é uma vida nova, é todo um novo caminho, e é uma maneira bem diferente de lidar com isso.

PAS: Você fala disso em “A Velha Maluca”, de não ter mais compromisso em perecer bonita…

JM: A escravidão da beleza. Eu acho que a mulher sofre demais com isso.

PAS: Mais que o homem.

JM: Muito mais, mas muito mais. Infinitamente mais. Infinitesimíssimamente mais. Eu acho que é uma escravidão realmente que se vive. E é uma liberação quando você chuta o balde, quando diz “ok”.

PAS: Joyce, um dos momentos em que eu me dei conta dessa questão do machismo em relação às compositoras foi você justamente que provocou. Fui fazer uma reportagem sobre o clube da esquina e entrevistei um monte de gente, inclusive você. Algo que você falou, eu sei mais ou menos, mas não lembro perfeitamente, me despertou pro fato de que você era daquela turma, mas não aparecia. Por quê? Você disse: “O Milton Nascimento era a musa”.

JM: Eu falei pra você que Milton era a musa, e continuo achando isso (ri). É um grupo muito de meninos, rolava uma certa misoginia.

PAS: Era clube do Bolinha, como todos eram.

JM: Mas na verdade eu também não era desse grupo. Eu já te falei uma vez, eu sou a quinta coluna (ri). Eu sou de todos os grupos. Eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também (ri).

PAS: E você é Nara Leão, ela passava por todos os movimentos e não pertencia a nenhum.

JM: É, totalmente. Eu estava ali de espectadora. E enquanto isso, diferentemente do caso da Nara, que era uma intérprete de todos os movimentos, lindamente, embora todos esses movimentos me abraçassem muito – o samba, a segunda geração da bossa nova, os tropicalistas, os mineiros do clube da esquina…  – na verdade, na verdade, a minha música não é de grupo nenhum. Eu tenho meu nicho, que é um nicho muito só meu. É uma coisa minha, eu não tenho companheiros, nunca fiz parte de nenhum movimento, o movimento era eu sozinha ali com minha prancha surfando no meio dessa história toda.

PAS: Nisso você fica num lugar mais discreto, digamos, que não sei se é por vontade própria ou se é o machismo estrutural que coloca você nele e não te faz ser citada nem no meio dos bossa-novistas, nem do clube da esquina, e assim por diante.

JM: Eu acho que isso aí no futuro alguém vai descobrir. Por enquanto eu ainda não sei, eu sou uma criança, não entendo nada.

PAS: Esse é Erasmo Carlos (risos). No meio de tudo, bem cedo, Elis Regina percebeu você e te gravou (“Copacabana Velha de Guerra”, em 1970) e tentou, não sei de que maneira, furar essa barreira.

JM: Sim, ela gravou. Maria Bethânia, por exemplo, quando eu tinha 19 anos, ela já cantava minhas músicas, mas não chegou a gravar. A primeira que gravou foi Elis. Teve Marília Medalha que também me gravou, nessa mesma época (“Três Cavaleiros”, 1969).

PAS: É outra que também desapareceu do olho do furacão.

JM: Tem um começo ali de algumas pessoas já dando essa sacada, mas isso começa realmente a acontecer a partir de 1979. Aí, sim, vem uma enxurrada de gravações.

PAS: É a geração Malu Mulher, com um surto feminista, digamos.

JM: Isso. Aí vêm Elis, Bethânia, Quarteto em Cy, Milton, Nana Caymmi, Boca Livre, Joanna, um monte de gente começa a me gravar.

Editado de forma independente por um selo batizado Feminina, "Tardes Cariocas" (1983) chegou ao Japão e continha até então inédita "Nacional Kid", com Ney Matogrosso convidado a proferir os versos de zomba "mulher minha não mexe com essas coisa não/ tem que aprender a obedecer o seu patrão"
Editado de forma independente por um selo batizado Feminina, “Tardes Cariocas” (1984) chegou ao Japão e continha até então inédita “Nacional Kid”, com Ney Matogrosso convidado a proferir os versos de zomba “mulher minha não mexe com essas coisa não/ tem que aprender a obedecer o seu patrão”

PAS: E o Japão descobre você.

JM: O Japão em 1985 me descobre.

PAS: Teve que ser lá do outro lado do mundo?

JM: É, são coisas que acontecem, né? Agora essa história está mais bem contada. Eu reescrevi meu livro de 1996, a gente está pensando que vai sair mais ou menos em setembro. Vai ser reeditado, se chama Fotografei Você na Minha Rolleyflex, como o original, mas Remix. Estou fazendo o remix desses textos, com um livro-bônus que vem junto. Tem vários capítulos que não existiam, o livro praticamente dobrou de tamanho. E essa história de como o Japão me descobriu, o que aconteceu, por que eu fiquei escondida a partir de uma certa altura no início dos anos 1980, depois daquele sucesso todo. Tá tudo contadinho ali direitinho, a história agora está bem explicada.

PAS: Uma coisa que tem a ver com o momento do disco de 1968 é que, embora também não seja muito citada, você era da geração dos festivais da canção, era daquela turma em que está todo mundo.

JM: Sim.

PAS: Como foi participar dos festivais?

JM: Foi ótimo. Fiz amizades que duram até hoje. Acho que foi a melhor coisa. Profissionalmente me levou ao primeiro disco, que foi um fruto da participação em festival. E mais importante que isso, acho, são as amizades. Você vê os compositores, alguns estão até nas fotos do disco, estão todos produzindo, todos a mil, todo mundo com saúde forte, firme, fazendo música. Vários estão participando de 50, como Marcos Valle, Toninho Horta, Danilo Caymmi, Francis Hime, Roberto Menescal, que não é dessa época, mas é de antes até, me conhece de criança porque era amigo do meu irmão mais velho. São esses amigos que ficaram, Jards Macalé só não veio porque na ocasião estava doente, internado. Está todo mundo ótimo, inteirão.

PAS: Tutty Moreno entrou na história em que momento?

JM: Ele entra bem depois.

PAS: Ele não é o rapaz da primeira música?

JM: De jeito nenhum, nem sonhava em conhecer. Ele é o rapaz, por exemplo, de “Mistérios”. São músicas muito mais felizes. São outras situações. Conheci ele em 1977, em Nova York.

PAS: Bem depois então de ele ter tocado com os tropicalistas.

JM: Sim, ele já estava morando em Nova York quando eu cheguei lá. A gente se conheceu e em coisa de dez dias a gente já estava casado.

PAS: Podemos dizer que esse amor precipita seu reaparecimento com Feminina?

JM: De certa forma sim. Ele me ajuda a formatar o pensamento musical que eu tinha e que faltava exatamente essa completude rítmica que ele veio trazer pra mim. Ele contou, no programa que fizemos sobre Feminina com o Charles Gavin, que quando me viu tocar pela primeira vez bateu uma coisa e ele falou: “Opa, ali eu vou me dar bem, vou poder tocar como eu sempre quis tocar”, que é uma bateria livre. Isso é o lance do violão, a bateria se apaixonou pelo violão. O violão, por sua vez, estava esperando um baterista que tivesse essa coisa melódica e harmônica que ele tem tocando. Então deu muito, muito certo. Depois, o resto foi tudo consequência, mas acho que começa com a música mesmo. E a outra questão é a questão do homem que não tem medo de mulher. Isso é um negócio espetacular. Isso é um negócio que não tem preço, sabe? Porque no ambiente musical sempre, quando uma mulher aparece muito, às vezes fica difícil a relação entre casais em que os dois estão na mesma profissão.

PAS: Não aconteceu com vocês?

JM: Nunca aconteceu. Mas sabe o que é nunca, em momento algum, jamais? Todas as questões que possam ter havido eram pessoais, de homem e mulher, mas não de um artista, um músico para outro. Isso é espetacular, porque é o homem avant la lettre, sacando essas questões que as novas gerações de homens hoje estão descobrindo, e ele já sabia. Isso é um negócio que eu acho espetacular.

PAS: Podemos então inverter a máxima machista e dizer que atrás de toda grande mulher existe um grande homem?

JM: Atrás não tem, tem do lado.

PAS: Só pra inverter…

JM: Não, não, não, essa máxima não pode ser invertida nunca, nunca. Atrás não existe, existe do lado mesmo.

PAS: Antes de começarmos a entrevista aqui no palco, ele estava na bateria e eu ameacei falei que ele ia participar…

JM: Ele fugiu (ri)!

PAS: Fugiu.

JM: Ele saiu correndo.

PAS: Não sei se atrás, mas ele gosta de ficar no bastidor.

JM: Não, ele é um cara muito discreto. Mas é um músico que não preciso dizer quem é e todo mundo sabe a importância dele, e cada vez sabe mais. Está cheio de baterista fazendo tese de mestrado sobre ele aí. As pessoas sabem muito bem de quem se trata. E isso é muito legal, as pessoas se olharem como iguais e não ter essa questão em momento nenhum. Isso é uma joia, um negócio que não tem preço.

PAS: Mudando de instrumento, em 1968 ainda se chamava violão de pinho, como você diz na segunda música ()…

JM: Ah, o pinho… O pinho é a madeira de que se faz o violão, né?

PAS: Mas por que o nome pinho saiu de moda? É tão bonito.

JM: Hoje em dia as pessoas usam aquele fiber glass, né?, aquelas coisas todas. Mas o meu é de pinho. É de cedro, aliás. É cedro com cedro. Tem o pinho, o  jacarandá da Bahia, essas madeiras nobres todas são as melhores que fazem os violões. Tem o ébano ali no braço.

PAS: Você sempre foi do violão, e ele sempre foi seu?

JM: Sou completamente do violão, e ele sempre foi meu.

PAS: Por quê?

JM: Por que eu não sei… Comecei com ele aos 14 anos, ele era do meu irmão, não era meu. Meu irmão é que tocava, e eu comecei a ver meu irmão tocar com os amigos dele. Tínhamos 13 anos de diferença. Eu era filha temporã. Mas fiquei ali sacando aqueles garotos, Menescal, Eumir Deodato, aquela turma que chegava lá em casa e tocava com meu irmão. E quando ele saía eu pegava o instrumento dele e ficava ali tentando, e foi assim que aprendi, como autodidata.

PAS: Seu irmão não foi pra música?

JM: Não, ele poderia ter ido, porque era muito bom. Mas ele queria casar, queria ter uma vida toda regrada, certinha, então se formou em direito, foi trabalhar no Banco do Brasil, fez carreira no banco. É uma outra vida. Está com 83 anos, e tudo certo. A vida dele virou o que ele queria.

PAS: Você tinha referências femininas pra se inspirar?

JM: Talvez a minha mãe. Minha mãe não sabia que era feminista, mas era, embora ela tivesse uma série de questões comigo. Por ser de uma geração mais antiga – ela era de 1912 -, tinha uma série de coisas que para ela eram muito difíceis. Ela fazia na prática, mas não queria aquilo pra mim. Mas ela criou os três filhos sozinha, sempre trabalhou, sempre foi arrimo de família. E ela tinha uma questão, que hoje em dia olhando pra trás eu acho muito legal: ela queria muito ter estudado. Foi tirada da escola com 14 anos porque ficou noiva, do melhor partido de Niterói.

PAS: Não do seu pai?

JM: Não, daquele primeiro marido dela. Então ela ficou noiva com 14 anos, casou com 19, e a família tirou ela do colégio. E ela sempre teve muita sede de cultura, sempre gostou de ler, de música. Era interessada em todas essas coisas. E aí o que aconteceu foi que fez os filhos estudarem, sempre me ofereceu muita cultura, toda vez que sabia que tinha um concerto, uma peça de teatro, um balé. Me encheu de livros, todas as oportunidades que teve ela me encheu de cultura, e eu correspondi. Eu era a melhor aluna do meu colégio, da minha turma.

PAS: A letra de “Não Muda Não” dialoga com ela então?

JM: Eu acho que quem dialoga explicitamente com ela é “Feminina”, porque tinha essa outra questão, de dizer “minha filha, você não é feminina”. Passei minha adolescência inteira ouvindo isso, porque eu era meio tomboy, não gostava daquela coisa do vestido de organdi, da maquiagem, não gosto até hoje. Outro dia eu estava no show de aniversário da Wanda Sá, minha amiga há 50 anos, fui cantar com ela, e ela: “Nossa, te conheço há 50 anos e nunca vi você de salto alto, que absurdo”. Mas é verdade. Eu nunca gostei dessas coisas. Não era a minha onda.

PAS: Você sobe no palco sem maquiagem?

JM: Não, aquela maquiagem de serviço a gente põe (risos), mas não é o que eu gosto realmente de fazer. Eu sempre tive um gosto meio diferente em relação às meninas da minha idade. E a minha mãe adorava maquiagem, até 90 anos, que foi a idade com que ela morreu, se maquiava inteirinha pra ir ali na esquina comprar jornal. Ela tinha esse outro lado, e dizia: “Você está horrível, você não é feminina”. Então tive que fazer aquela música pra ver se ela entendia que “não é no cabelo ou no dengo ou no olhar”, é uma outra história. É muito freudiana essa música.

PAS: Mas estou achando que “Não Muda Não” também.

JM: Não, mas “Não Muda Não” é mais pros rapazes saberem que a disposição era outra, que eu realmente não era desse time das meninas que iam ficar noivas logo. Dispensei muitos pedidos de casamento, muitos pretendentes. Nunca pensei nisso. Claro que em algum momento você escorrega e casa cedo demais, que foi o que aconteceu, e aí tive duas filhas, fiquei um tempo parada, não foi legal pra mim.

PAS: É um pouco a história de todas as mulheres, ou a maioria.

JM: É, uma primeira experiência de casamento que não foi feliz, pra mim pelo menos. Mas a vida é isso mesmo, é tentativa e erro. A gente vai tropeçando, mas vai. Um dia acerta.

PAS: Tem um compacto seu de 1971 em que você canta “Nada Será Como Antes”. Foi antes de Milton gravar?

JM: Isso. Foi.

PAS: Você foi a primeira a gravar aquela música?

JM: Fui, no tempo em que a rede social se fazia pessoalmente, né?

PAS: Como foi essa história?

JM: Eu tinha ouvido a música, ele vivia almoçando lá em casa, mostrou a música, eu gostei e gravei. Ele adorou a gravação.

PAS: Sua versão ficou meio desconhecida…

JM: Ficou, mas você sabe que eu acho muito bom ser meio desconhecida até certo ponto, pra entrar no mundo mesmo com o pé direito, com a carreira com o pé direito? Eu sempre digo que não fiz carreira, eu faço música. A partir de Feminina sou eu de verdade, estou ali no controle, fazendo as minhas coisas, com a minha cabeça, com as minhas ideias, o meu violão, a minha voz, as minhas letras, quase todas, ou com parceiros, mas na maior parte minhas, meu pensamento musical. Tudo acontece na hora certa.

PAS: Como as gravadoras, que hoje nem existem mais, te viam?

JM: Rebelde.” Eu fiquei na geladeira durante alguns anos. Por muitos anos fui banida, literalmente um boicote.

PAS: Isso é antes ou depois de “Clareana”?

JM: Depois. Foi com aquele sucesso todo. Eu tive uma questão jurídica com a EMI-Odeon, que usou indevidamente um playback meu no disco de uma outra cantora. Só que era eu tocando, eu fazendo vocal de apoio, eu no arranjo, minhas filhas dando a risadinha no final de “Clareana”. Aí eu pedi, e falei com advogado, e foi tirada a música. Quer dizer, não tinha por que fazer outro disco, porque a vendagem da moça não justificava.

PAS: Não daríamos o nome aos bois, também?

JM: Não (a cantora era Sonia Mello, o LP era Grandes Mulheres Grandes Sucessos, de 1980, e o produtor, Miguel Plopschi). Eles tiveram que tirar o disco de circulação. E aí o produtor ficou muito aborrecido com essa história.

PAS: Quer dizer, ele roubou uma coisa sua e depois ficou bravo?

JM: É, e muitos anos depois eu fiquei sabendo exatamente o que aconteceu. Houve uma reunião de alto nível, em nível de presidentes de gravadoras, “ninguém mais contrata, pra servir de exemplo, pra não abrir precedente”.

PAS: Você tinha que aguentar calada?

JM: A ideia era justamente acabar com a carreira daquela pessoa que está se rebelando contra, né? Só que aí eu fiz um disco independente que foi parar no Japão. Aí, pronto, a minha vida mudou. Agradeço a todos eles, porque foi muito bom por esse lado.

PAS: Aí vem talvez o DNA dinamarquês?

JM: Será? Não sei.

PAS: Porque você fez um desvio dos caras que queriam te boicotar.

JM: Aí eu sou o quê? Viking (gargalha)? Tá bom.

PAS: Bruxa… Velha maluca… Na verdade é trágico, porque talvez você tenha conseguido fazer uma volta que a maioria não consegue.

JM: Pois é, graças a Deus consegui, sim, a volta está dada.

PAS: Porque gente com talento não falta.

JM: Não falta mesmo, no Brasil opa, agora então.

PAS: Mulheres, estamos falando, neste caso.

JM: Mulheres, gente em geral.  É muita gente. Eu vou te dar um exemplo de um cara que era supertalentoso, não é uma mulher, é um homem, mas passou por uma situação de ter toda a obra censurada, o Sirlan, lá em Minas. É um compositor talentosíssimo, e acho que se retirou completamente, porque o mercado às vezes tinha essa coisa tão agressiva, que as pessoas se retiravam mesmo, ficavam horrorizadas com aquilo.

PAS: Quando perguntei de referências femininas você falou da sua mãe, mas eu estava pensando em mulheres que tocassem violão, que compusessem, se você tinha isso pra se mirar.

JM: Ah, não, isso eu não tinha, ninguém.

PAS: Você teve que inventar? Tinha ali uma Maysa, uma Dolores Duran.

JM: É, tinha a Rosinha de Valença como instrumentista, mas era instrumentista, somente focada no instrumento. Referência assim não tinha nenhuma, não.

PAS: Inventou sozinha então?

JM: É, né?, é assim que é.

PAS: Nesse momento da volta pelo Japão, você vira uma artista superprodutiva, em termos de disco mesmo. Você faz muito disco, todo ano tem novidade sua.

JM: Faço até demais.

PAS: Nunca.

JM: Mas é que eu gosto de fazer disco, gosto de estar sempre inventando uma coisa, todo ano uma coisa diferente. Acho muito legal, e tenho milhões de projetos que não vou conseguir dar conta de realizar, porque quando eu conseguir realizar algum deles, o próximo, já vai ter algum outro que vou estar a fim de fazer, e por aí vai. Tem muitos projetos possíveis pela frente, mas muitos mesmo.

PAS: Pode contar alguma coisa?

JM: Tem vários. Por exemplo, minha parceria com Zé Renato. A gente tem uma parceria que já dá pra gravar um disco inteiro e ainda vai sobrar, um disco só autoral nosso. Isso já é um projeto, uma possibilidade. Aí tenho um monte de música inédita pra fazer um próximo disco autoral a qualquer momento, brevemente. Tenho um projeto com parcerias com pessoas em outros idiomas. Tenho uma parceria americana com letras em inglês. Tenho letra em italiano feita pelo Sergio Bardotti, que ele me deu e só fui musicar agora. Tem parceria minha comigo mesma em francês, meio francês, meio português. Tenho música com Paulo César Pinheiro que tem uma versão em espanhol. Tem todas essas possibilidades, de mil coisas. Tem colaborações com outros músicos, que eu adoro fazer, de vez em quando eu junto com alguém, tipo fiz com Kenny Werner, um superpianista americano, fizemos um disco lindo só de canções bonitas. De vez em quando tem essas coisas, quando você está circulando no mundo uma coisa interessante é isso, você conhece um monte de gente e vai trocando, e vai fazendo.

PAS: Apesar de todas as mudanças, continua sendo um clube do Bolinha todo esse mundo da música?

JM: Não, tem mulheres bacanas também pra trabalhar. Agora, então, tem uma safra de instrumentistas muito legais. Muitas, muitas. São todas umas meninas jovens, de 30 anos, legais. Tem Joana Queiroz, Antonia Adnet, uma arranjadora chamada Gaia Wilmer, que é um espetáculo. Tem um monte de mulher bacana fazendo música, está cheio.

PAS: Tem Clara e Ana (as filhas se tornaram as cantoras Clara Moreno Ana Martins).

JM: Tem Clara e Ana, que são cantoras, que optaram por ser cantoras. Estou falando das instrumentistas, que é um caminho mais difícil, mais complicado ainda.

PAS: Tem algumas artistas já fazendo shows com 100% de mulheres, todas as instrumentistas.

JM: É, isso eu não acho legal. Eu jamais faria um trabalho só com mulher tocando, se essas mulheres não estiverem na mesma vibe musical que eu. Aí é uma outra questão. Em muitos momentos, por exemplo, quando fiz trabalhos educativos que fiz pra MultiRio, de música brasileira, pra botar nas escolas, eu sempre tinha um segundo violonista trabalhando comigo, uma pessoa dividindo os programas comigo. Teve série que foi com Antonia Adnet, superlegal. Teve série que foi com Alfredo del-Penho, igualmente superlegal. Tem um disco meu chamado Astronauta, que gravei em Nova York, com pianistas americanos, metade com Mulgrew Miller, homem, metade com Renee Rosnes, mulher, igualmente legal. Vai pra o que a música pede. Não penso no gênero da pessoa.

Em 1998, Joyce gravou "Astronauta - Canções de Elis" em homenagem ao repertório da cantora gaúcha que foi uma das primeiras a gravá-la
Em 1998, Joyce gravou “Astronauta – Canções de Elis” em homenagem ao repertório da cantora gaúcha que foi uma das primeiras a gravá-la

PAS: É que hoje em dia isso está muito em voga.

JM: Está muito em voga. Pra quem quiser trabalhar assim, OK. Nesse meu disco, por exemplo, tem a Joana Queiroz de clarone logo na primeira faixa, “Não Muda Não”. Mas é uma coisa que a música estava pedindo o som daquela pessoa, então vamos lá.

PAS: Você já fez discos pro Tom Jobim, pro Vinicius de Moraes, e teve um pra Elis Regina, de uma mulher para outra…

JM: Fiz um pro Dorival Caymmi também, que não saiu ainda aqui no Brasil. Tá vendo?, tem muitas possibilidades, e eu quero todas.

"Fiz uma Viagem - Songs of Dorival Caymmi", 2017
“Fiz uma Viagem – Songs of Dorival Caymmi”, 2017

PAS: Quando você fez pra Elis era uma mulher, mas cantando músicas de homens…

JM: Repertório da Elis.

PAS: Ela não teve também tantas mulheres pra ser a intérprete delas.

JM: São escolhas, né? É uma maneira, minha leitura da Elis foi ali.

PAS: E era assim, ainda é um pouco. Entendo que a questão de gênero fique meio chata se a gente fica insistindo nela, mas…

JM: É, eu quero a música.

PAS: Mas encontrar você, que é uma pessoa que falou sobre isso e sabia disso, embora não tenha feito essa bandeira… Tinha a ver com seu gênero, quando os caras da gravadora queriam boicotar, não tinha?

JM: Acho que sim. Acho que sim.

PAS: É legal revisar isso, porque a gente descobre coisas que não sabia sobre nós mesmos.

JM: Mas não cabe a mim também muito. Cabe a mim apenas relatar, e aí as conclusões as pessoas vão tirando. É mais isso.

PAS: Muitos compositores pegam implicância dessa ou daquela música que escreveram quando eram jovens, e não querem mais voltar a elas. Pra você pegar seu primeiro disco e regravar inteiro, é porque não tem isso?

JM: Não, não tem mesmo. Eu acho, claro, que obviamente houve uma evolução na questão da composição. Mas o ponto é que aquelas composições já tinham um negócio legal. E feitas hoje, com as ferramentas que eu tenho hoje, que eu não tinha naquela época, dá mais um sabor pro negócio, fica mais legal ainda.

 

 

 

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