No sábado de Carnaval de 2017 (*), uma escola de samba do segundo grupo carioca desfilou um enredo denominado Meu Quintal É Maior do Que o Mundo, em homenagem ao poeta pantaneiro Manoel de Barros. A escola está fora de moda (como talvez também esteja Manoel de Barros, nestes tempos de Roberto Freire não-ministro da não-Cultura), mas vive uma data especial: neste ano, completa 70 anos de vida, vitórias e infortúnios.

O livro recém-lançado Serra, Serrinha, Serrano – O Império do Samba ajuda a resgatar tintim por tintim uma história toda bordada em esquecimentos, omissão e ocultação. No Império Serrano, localizado no Morro da Serrinha, na zona norte carioca, para lá de Madureira, nasceu e se desenvolveu um pedaço fulminante da história da música e da cultura brasileiras. Ali nasceram os versos “passava noite, vinha dia/ o sangue do negro corria/ dia a dia/ de lamento em lamento/ de agonia em agonia/ ele pedia/ o fim da tirania” (**), compostos pelos gigantes Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola para o samba-enredo Heróis da Liberdade, que ficou apenas com a quarta colocação no Carnaval pós-Ato Institucional Nº 5, em 1969.

Abre plural - capa do livro edição antiga

Serra, Serrinha, Serrano, de Rachel Valença Suetônio Valençasaiu em 1981, quando o Império Serrano vivia seu primeiro ciclo de derrocada, a bordo do avanço do profissionalismo ultracapitalista sobre o samba de avenida. Fora rebaixada em 1978, depois de vencer oito carnavais nos primeiros 25 anos de existência.

Abre Plural - capa do livro nova edição

Suetônio morreu em 2006. Rachel, também integrante de diretorias do Império em anos recentes (aqui, entrevista com a autora), concluiu agora a tarefa de acrescentar os 33 anos mais tristes da história da escola de samba que formou Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Dona Ivone Lara, Mestre Fuleiro, Aniceto Menezes, Roberto Ribeiro, Jovelina Pérola Negra, Arlindo Cruz e mais uma formidável galeria de bambas famosos ou anônimos. A maioria absoluta desses bambas é negra, por característica quilombola do Morro da Serrinha, berço também do jongo e das primeiras gravações de pontos de candomblé de que se tem conhecimento, pelo pioneiro Elói Antero Dias, em 1930 (ouça abaixo um apanhado de canções da Serrinha e do Império Serrano).

Eis uma das características que explicam o nascimento do Império Serrano, desmembrado da antiga Prazer da Serrinha, então dirigida com autoritarismo por Alfredo Costa (futuro sogro da então enfermeira Ivone Lara). A escola foi fundada por trabalhadores sindicalizados do cais do porto carioca, sedentos por liberdade no pós-ditadura de Getulio Vargas. Entre esses portuários estavam o fluminense interiorano (de Resende) Elói Antero e o carioca Aniceto Menezes, o Aniceto do Império, parceiro musical da jongueira fluminense interiorana (de Valença) Clementina de Jesus que em 1984 gravaria um samba de terreiro chamado Mulher na Presidência.

Ala Amigos da Onça, a rigor - doação de coleção familiar/acervo Rachel Valença
Ala Amigos da Onça, a rigor – doação de coleção familiar/acervo Rachel Valença

No primeiro carnaval desfilado pelo Império, com enredo em homenagem ao poeta abolicionista baiano Castro Alves (1847-1871), os trabalhadores do porto se concentraram na Central do Brasil, todos vestidos em elegantes ternos (que inspirariam a futura ala Amigos da Onça). O primeiro desfile rendeu o primeiro campeonato, décadas antes da institucionalização, no Sambódromo, do Carnaval televisado pela Rede Globo. O feito se repetiria em 1949, 1950 e 1951, numa galeria de sambas-enredos que falam muito sobre os anseios e as contradições das classes populares do Brasil da época.

Baiano de Santo Amaro, Mano Décio da Viola era um dos autores do samba de 1949, Exaltação a Tiradentes, em que a figura romantizada de Tiradentes, que “foi traído e não traiu jamais e foi sacrificado pela nossa liberdade”, espelhava os anseios pós-abolicionistas, sempre abolicionistas, de toda a comunidade da Serrinha. Em 1971, sob cerrada ditadura civil-militar, a gaúcha Elis Regina imortalizaria uma versão MPB, intimista e tristonha, da Exaltação a Tiradentes de Mano Décio.

O pano de fundo do entre-Getulios era explosivo, sob o avanço de direitos trabalhistas promovido pelo líder gaúcho. Com uma bandeira que expunha a coroa do Segundo Reinado, o Império Serrano se parecia com rebeldes do virada do século XX, como os baianos de Canudos e os sulistas do Contestado, que viam na República a raiz de todo o mal, ao relacionar num mesmo conjunto de causas e efeitos a abolição da escravização sem acréscimo de direitos em 1888 e a derrubada da monarquia por cima em 1889.

Pioneira das fantasias na avenida, a imperial Olegária dos Anjos se veste de rainha para desfilar - doação de coleção familiar/acervo Rachel Valença
Pioneira das fantasias de luxo na avenida, a imperiana Olegária dos Anjos se veste de rainha para desfilar – doação de coleção familiar/acervo Rachel Valença

Assinado coletivamente pela ala dos compositores do Império, o enredo de 1950, chamado Batalha Naval do Riachuelo, exaltava o militarismo imperial: “Hoje rendemos homenagem/ aos defensores do Brasil imperial/ pelo vivo exemplo de coragem/ na batalha naval/ salve a Marinha de leiroerra/ seu passado glórias mil encerra/ Tamandaré, Almirante Barroso”.

Uma barafunda se fez em 1951 com 61 Anos de República, enredo anti-imperial no sentido de exaltar num golpe só os militares que deram termo à monarquia, os civis que derrotaram Antônio Conselheiro em Canudos e… Getulio Vargas, recém-reconduzido à presidência pelo voto direto. Dizia a letra de Silas de Oliveira, ex-militar, funcionário público e futuro guarda do Ministério da Educação e Cultura: Em 1891 sem causa perca/ era eleito Deodoro da Fonseca/ cujo governo foi bem audaz/ entregou a Floriano Peixoto/ e este a Prudente de Moraes/ que apesar de tudo terminou com a Guerra de Canudos/ restabelecendo enfim a paz”.

A conclusão do samba era cabal do posicionamento “hay gobierno, soy a favor” (em especial se tal governo acrescentasse direitos a quem mais precisava deles): “Hoje a justiça, numa glória opulenta/ a 3 de outubro de 1950/ nos trouxe aquele que sempre socorreu a pátria em horas amargas/ o eminente estadista Getulio Vargas/ eleito pela soberania do povo”.

Num processo de constante alternância de poder com a antes hegemônica Portela, a próxima vitória do Império viria em 1955, com Exaltação a Caxias, primeiro samba-enredo comprovadamente assinado em dupla por Silas e Mano Décio: “Soldado de opulentas galhardias/ este bravo guerreiro, hoje patrono do Exército brasileiro/ com elevado espírito de estadista/ pacificou de norte a sul os revolucionistas”. Getulio havia sido suicidado em agosto de 1954, num ato que adiaria em dez anos os versos proféticos da conclusão do samba: “Honrosamente sentimos orgulhosos em acrescentar/ que este vulto encerra/ na paz e na guerra/ o ideal do Brasil militar”.

Em 1956, Silas e Décio faturaram mais um campeonato com samba em louvor ao bandeirante paulista Fernão Dias Paes Leme, O Sonhador das Esmeraldas, os oprimidos convertendo o opressor caçador de índios em herói redentor que “deu a própria vida ao progresso da nossa nação”. Fórmulas exaltativas à parte, uma ponta de ironia podia ser se entrever nos versos “nas jornadas fulgurantes dos bandeirantes/ herói se revelou/ mas o sonho das ricas esmeraldas não realizou”. Que fim levaram as esmeraldas?

Os imperialistas amargariam segundos lugares nos anos seguinte exaltando vultos como Dom João VI (para Silas e Décio “precursor da nossa independência” que “deixou livres todos os portos”) e Maurício de Nassau. Em 1960, a dupla causou treta com o samba-enredo Medalhas e Brasões, que classificava a Guerra do Paraguai como “brilhante página da nossa história militar” e irritou o governo paraguaio ao inicialmente tratar o vulto Solano Lopez como “ditador”.

Sob o brevíssimo governo de Jânio Quadros, em 1961 Movimentos Revolucionários e a Independência do Brasil veio assinado coletivamente pela ala de compositores e rendeu à escola seu pior resultado até então, um quarto lugar. Em 1962, sob João Goulart, o enredo O Rio dos Vice-Reis parecia espelhar a sina da escola (além de um eterno retorno do Brasil de sempre) e ficou com o vice-campeonato.

Às vésperas do golpe civil-militar de 1964, Silas de Oliveira criou sozinho o clássico Aquarela Brasileira, a exaltação ao Brasil que se abre com os históricos versos “vejam esta maravilha de cenário/ é um episódio relicário/ que o artista num sonho genial/ escolheu para este Carnaval”. Pela primeira vez na história, uma mulher, Carmen Silvana, seria a puxadora do samba na avenida. Como a provar que o circo pegava fogo, a morte do compositor Ary Barroso, autor da inspiradora Aquarela do Brasil (1939), foi anunciada quando o Império entrava na visita. A bateria fez silêncio em sinal de luto, a escola perdeu pontos, e Aquarela Brasileira saiu da quarta colocação para a história.

O Brasil sob ditadura viu o Império Serrano perder posições consecutivas, mas não a inspiração. Em 1965, Dona Ivone Lara tornou-se a primeira mulher compositora de um samba-enredo no asfalto, ao dividir Os Cinco Bailes Tradicionais da História do Rio com Silas e Bacalhau. Ficou em segundo lugar.

Em 1969, Heróis da Liberdade representou um canto de cisne para Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, em lamento contra o racismo e a escravização. A dupla foi chamada ao Dops para explicar versos como “é a revolução/ em sua legítima raiz” (que a Censura fez trocar por “é a evolução” e “ao longe/ soldados e tambores/ alunos e professores/ acompanhados de clarim/ cantavam assim:/ já raiou a liberdade/ a liberdade já raiou”. Silas e Décio jamais voltariam a assinar um samba-enredo na avenida.

A escola seguiu por caminhos tortuosos. Venceu o Carnaval de 1972 exaltando Carmen Miranda sob versos autoelucidativos: “Cai, cai, cai, cai/ quem mandou escorregar/ é melhor se levantar”. Após o rebaixamento de 1978, brilhou (e venceu o Carnaval) em 1982 com o histórico samba-enredo Bumbum Paticumbum Prugurundum, assinado por Beto sem Braço e Aluísio Machado, trabalhadores do morro que forneciam e forneceriam sambas para Martinho da Vila, Alcione, Beth Carvalho, Bezerra da Silva e Zeca Pagodinho.

Em 1996, o Império conseguiria seu melhor resultado em mais de década: sexto lugar. Em paga, dedicou o enredo de 1997 ao caubói de parque de diversão Beto Carrero e amargou novo e até aqui definitivo rebaixamento, com resultados cada vez piores no segundo grupo. Em 1999, passou a ser presidida pela primeira vez por uma mulher, Neide Coimbra, após um processo de impeachment. Em 2012, homenageou Dona Ivone Lara, imperiana histórica hoje com 95 anos. Com o hoje global Arlindo Cruz entre os autores do samba-enredo, a escola ficou em segundo lugar e perdeu a chance de voltar ao hoje denominado Grupo Especial.

 

Aqui, entrevista com a autora de Serra, Serrinha, Serrano – O Império do Samba, Rachel Suetônio.

 

Aqui, entrevista histórica com um dos fundadores do Império Serrano, o mestre de bateria Mestre Fuleiro, feita em 1993 por Alessandra MarquesCláudia Regina Alves da RochaDaniela Sampaio e Janine M. Belo.

 

(*) Este texto foi originalmente publicado na edição 941 da revista CartaCapital, na semana anterior ao Carnaval, antes portanto da vitória do Império Serrano no desfile do Grupo A, que levará a escola de volta ao Grupo Especial após nove anos. A versão expandida acima atualiza algumas informações, mas não modifica a estrutura do texto. Sob o protesto de alguns torcedores imperianos, o autor recolhe o adjetivo “pequena” que empregou no texto original para se referir à escola de samba.

P.S.: correção enviada pela leitora Aline Said Pessoa: “Há uma incorreção no texto. Segundo a matéria, o Império Serrano estaria desde 1997 no grupo de acesso, hoje denominado Série A. Na verdade, o Império retornou em 1999 à elite, tendo sido rebaixado neste mesmo ano, e ascendido novamente ao Grupo Especial em 2001, onde ficou até 2007, quando amargou novo rebaixamento com o enredo Ser Diferente É Normal. Ainda obteve nova vitória no grupo de acesso em 2008, o que possibilitou à escola retornar ao especial em 2009, quando reeditou o enredo de 1976. Neste mesmo ano, amargou novo e polêmico rebaixamento. Finalmente, em 2017, conseguimos a vitória que nos colocou de volta à elite do carnaval. Porém, mesmo nos anos em que esteve no acesso, o Império permaneceu grandioso, com quadra lotada e tendo apresentado grandes sambas e ganhado vários prêmios da imprensa carnavalesca”.

 

(**) Abaixo, o guia para uma playlist de músicas da Serrinha e do Império Serrano:

1. Elza Soares, “Heróis da Liberdade” (1969), de Silas de Oliveira, Mano Décio da ViolaManoel Ferreira) – versão da carioca da favela da Moça Bonita (atual Vila Vintém), em Padre Miguel, para o samba-enredo que ficou em quarto lugar em 1969, mas se tornou para sempre campeão inequívoco da história do gênero.

2. Clementina de Jesus, “Dois Jongos: Picapau/ Carreiro Bebe?” (1976), de domínio público – fluminense interiorana de Valença, Clementina fez do jongo, reminiscência dos cantos de escravizados de todo lugar, uma de suas vias principais de expressão. Na capital, a quilombola Serrinha se tornou frente de resistência do gênero e da memória de seus significados.

3. Beth Carvalho, “Seleção de Jongos: Guiomar/ Caxambu de Sá Maria/ Sabão (Lava Roupa com Meu Nome)/ Vapor na Paraíba/ Boi Preto/ Mataro o Zé Maria/ Pisei na Pedra/ Papai na Ladeira” (1983), de Darcy Monteiro e Tião Zarope/ (“Guiomar”), Darcy Monteiro (“Caxambu de Sá Maria”, “Boi Preto” e “Pisei na Pedra”), Candeia e Alvarenga (“Sabão (Lava Roupa com Meu Nome)”, Mestre Fuleiro (“Vapor na Paraíba”) Vó Maria Joana (“Pisei na Pedra”) e Eva Emely Monteiro (“Papai na Ladeira”) – homenagem aos jongos da Serrinha por Beth, carioca da Gamboa, na zona portuária carioca.

4. Dona Ivone Lara, “Sambas de Terreiro (Prazer da Serrinha): Serra dos Meus Sonhos Dourados/ Orgia/ Alegria Minha Gente/ Eu Já Jurei/ Me Abandonaste/ Meu Destino É Sofrer/ Chorar Não Resolve/ Serra dos Meus Sonhos Dourados” (1982), de Carlinhos Bem-Te-Vi (“Serra dos Meus Sonhos Dourados”), Manula (“Orgia” e “Chorar Não Resolve”), Paco (“Alegria Minha Gente”), Antenor Bexiga (“Eu Já Jurei”), Mestre Fuleiro e Dona Ivone Lara (“Me Abandonaste”), Dona Ivone Lara (Meu Destino é Sofrer”) – sambas da Serrinha, na voz da principal compositora e intérprete feminina da comunidade.

5. Aniceto do Império, “Mulher na Presidência” (1984), de Aniceto Menezes – no ano da campanha pelas Diretas Já, o imperiano Aniceto sonhava com uma presidenta da República: “Se acaso acontecer uma mulher na presidência/ é sapiência, é sapiência”.

6. Mano Décio da Viola, “Exaltação a Tiradentes” (1974), de Mano Décio da Viola, Penteado e Estanislau Silva – versão de autor para o samba-enredo vencedor de 1949, do álbum Capítulo Maior da História do Samba, que reúne sambas de avenida e de terreiro.

7. Elis Regina, “Exaltação a Tiradentes” (1971) – a cantora gaúcha faz leitura emepebista, tristonha (e sob cuícas), da exaltação a Tiradentes, num contexto do início da década de 1970, quando a gravadora Philips colocava os principais nomes de seu elenco para reinterpretar sambas-enredos históricos em coletâneas pré-carnavalescas.

8. Mano Décio da Viola, “Mano Décio Ponteia a Viola” (1974), de Mano Décio da Viola e Waldemiro do Candomblé – Mano Décio chama mana Clementina de Jesus e uma galeria de serranos para pontear um partido alto de terreiro na viola e no pandeiro.

9. Bezerra da Silva, “A Carta” (1998), de Silas de Oliveira e Marcelino Ramos – Depois de elogiar Getulio Vargas no samba imperiano de 1951, Silas de Oliveira voltou à carga e musicou a carta de suicídio do líder gaúcho/brasileiro no aniversário de dois anos de sua morte. Moreira da Silva gravou a versão original, que o pernambucano Bezerra da Silva ousou resgatar em 1998, em plena era Fernando Henrique Cardoso, quando nem o mundo mineral falava de colocar o retrato do “velho” de novo no mesmo lugar, e ainda termina a faixa mandando um “salve a memória de um grande presidente”. Transformados em versos, os dizeres de Getulio em “era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna, mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém” ficaram parecidos com… um samba do Império Serrano.

10. Jorginho do Império, “Rio dos Vice-Reis” (1994), de Aidno SáDavid do Pandeiro e Mano Décio da Viola – o filho cantor de Mano Décio interpreta em 1994 o samba-enredo que deu o quinto vice-campeonato ao Império, em 1962.

11. Elza Soares, “Aquarela Brasileira” (1973), de Silas de Oliveira – às portas do golpe de 1º de abril de 1964, o samba-enredo de exaltação ao Brasil e às brasilidades chegou apenas à quarta colocação, mas se manteve vivo de 1973 em diante, a partir desta histórica leitura de Elza.

12. Martinho da Vila, “Aquarela Brasileira” (1975) – dois anos depois, o fluminense interiorano de Duas Barras também ofereceu sua versão, disseminada até hoje como um signo soberano sobre o amor ao Brasil.

13. Roberto Ribeiro, “Os Cinco Bailes da História do Rio” (1975), de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Bacalhau – a versão do imperiano Roberto Ribeiro (fluminense de Campos de Goytacazes) para a primeira vez na história do Carnaval carioca em que uma mulher pisou na avenida como compositora de samba-enredo. Dona Ivone gravaria apenas em 1981 o samba que conquistou o vice-campeonato de 1965.

14. G.R.E.S. Império Serrano, “Alô, Alô, Taí Carmen Miranda” (1972), de ManecoWilson Diabo e Heitor Achiles – o samba vencedor de 1972, em versão de escola.

15. Roberto Ribeiro, “”Alô, Alô, Taí Carmen Miranda” (1994) – versão do imperiano Roberto (fluminense de Campos de Goytacazes) para o “cai, cai, cai, cai/ quem mandou escorregar?”.

16. Mano Décio da Viola, “Dona Santa, Rainha do Maracatu” (1974), de CarlinhosMalaquias e Wilson Diabo – apesar de escanteado na avenida de 1969 em diante, Mano Décio não deixou de interpretar o samba-enredo de 1974 no primeiro álbum solo que pôde gravar na vida.

17. Clara Nunes, “Alvorecer” (1974), de Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho – a mineira Clara foi a primeira artista de expressão nacional a gravar um samba da imperiana Ivone fora do âmbito do Carnaval, e o fez extravasando lirismo por todos os poros.

18. Marisa Monte, “Lenda das Sereias Rainhas do Mar” (1989), de Vicente MattosDinoel e Arlindo Veloso – em sua estréia fonográfica, em 1989, Marisa honrou a Serrinha ao retomar o samba-enredo de candomblé de 1976, que conquistou uma modesta sétima colocação.

19. G.R.E.S. Império Serrano, “Lenda das Sereias Rainhas do Mar” (1976) – a gravação original, com versos que Marisa Monte suprimiu em sua versão.

20. Alcione, “Tiê” (1976), de Dona Ivone Lara, Mestre FuleiroTio Hélio – depois de Clara, a maranhense Alcione iluminou o tema de passarinho “Tiê”, que o Grupo Favela havia gravado em 1974. Os caminhos de Ivone Lara na MPB começavam a se abrir.

21. Maria Bethânia e Gal Costa, “Sonho Meu” (1978), de Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho – seguindo a pista atirada por Clara Nunes e por Alcione, a baiana Bethânia re-apresentou Ivone Lara num álbum de 1978, cantando este samba com a conterrânea Gal, e só então a ex-enfermeira vice-campeã na avenida pôde consolidar uma carreira solo com discos gravados.

22. Clementina de Jesus Dona Ivone Lara, “Sonho Meu” (1979), de Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho – as duas damas tardias se encontram e dão significado quádruplo ao dueto apresentado ao Brasil por Bethânia e Gal.

23. Maria BethâniaCaetano Veloso Gilberto Gil, “Alguém Me Avisou” (1980), de Ivone Lara – Bethânia reforça a dose e apresenta outro futuro clássico serrano, agora com os conterrâneos Caetano e Gil.

24. Quinzinho, “Bumbum Paticumbum Prugurundum” (1982), de Beto sem Braço e Aluísio Machado – há 35 anos, o samba original que deu a última vitória do Império no grupo principal até aqui.

25. Aniceto do Império Clementina de Jesus, “Dona Maria Luíza” (1984), de Aniceto – encontro de titãs do jongo, poucos anos antes da morte dela (em 1987) e dele (em 1993).

26. Aniceto do Império Dona Ivone Lara, “Quem É Teu Pai?” (1984), de Aniceto – encontro de titãs da Serrinha em jongo, capoeira, candomblé e terreiro; em 2017 ela ainda representa aquela cultura, aos 95 anos de idade.

27. João Bosco, “Cabeça de Nego” (1986) – devoto do Império e da Serrinha, o compositor mineiro mergulha na raiz e reverencia o jongo e as figuras referenciais de Aniceto, Silas de Oliveira, João da Baiana, Candeia, Clementina, DongaPixinguinhaPaulinho da Viola

28. Jovelina Pérola Negra, “Camarão com Xuxu” (1986), de Nei Lopes – nascida em Botafogo, estabelecida na Baixada Fluminense e pastora do Império Serrano, Jovelina morreu cedo (em 1998), mas deixou obra maiúscula no campo do samba de pagode, como atesta este clássico do carioca do Irajá Nei Lopes.

29. Jovelina Pérola Negra, “Pagode no Serrado” (1986) – de Marquinho Pagodeiro e Zeca Sereno – numa divertida narrativa serrana, Jovelina vai à feira procurar Clementina, Dona Ivone (“ô, lará, cadê Clementina de Jesus/ ai, Jesus, cadê Dona Ivone?”), Aniceto, o portelense Monarco, a mangueirense Dona Neuma, o salgueirense Almir Guineto

30. Arlindo Cruz, “Meu Lugar” (2007), de Arlindo Cruz e Mauro Diniz – compositor de sambas-enredo do Império Serrano desde 1989, Arlindo celebra Madureira, Oswaldo Cruz, Cascadura, Vaz Lobo e Irajá no samba dolente que em 2012 a Rede Globo modificou para adaptar à geolocalização da novela Avenida Brasil. Arlindo não chega a mencionar o Morro da Serrinha, mas cita as duas escolas de tradição da região: Portela e Império.

31. Leci Brandão, “Madureira, Lugar da Raça” (1990), de Arlindo CruzFranco Sereno – bem antes, a mangueirense Leci celebrou mais explicitamente aquele celeiro do samba, em samba de Arlindo: “Em Madureira é o Império que a Serrinha tem/ é Madureira a jaqueira que a Portela tem/ (…) a negra raça guerreira encontrou seu lugar”.

32. Daúde, “Dora” (2003), de Aniceto Menezes – a baiana Daúde rende ode ao divertido trava-língua rimado em “ora” do mestre Aniceto do Império, registrado por ele no álbum coletivo dirigido por Adelzon Alves Quem Samba Fica… (1971).

33. Velha Guarda Show do Império Serrano, “Império Tocou Reunir/ Não Me Perguntes” (2006), de Silas de Oliveira e Dona Ivone Lara (“Império Tocou Reunir”) e Mestre Fuleiro e Dona Ivone Lara (“Não Me Perguntes”) – duas pedras de toque do Império na reunião discográfica da Velha Guarda da Escola.

34. Wilson das Neves, “Velha Guarda do Império” (2010), de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro – ex-ritmista imperiano e músico de Chico Buarque, seu Wilson reverencia “a escola imperial, paixão da minha vida”.

35. Jongo da Serrinha, “Axe de Ianga (Pai Maior)” (2015), de Dona Ivone Lara – a comunidade local se organiza e produz o disco homônimo lapidar de regresso às origens de tudo.

36. G.R.E.S. Império Serrano, “O Meu Quintal É Maior do Que o Mundo” (2017), de Lucas DonatoTico do GatoAndinho SamaraVictor RangelJefferson OliveiraRonaldo NunesAndré do Posto 7Vagner SilvaVinicius FerreiraRafael Gigante e Totonho – enfim, aos 70 anos de idade, a primeira vitória do Império no segundo grupo desde 2009.

37. João Bosco, “Heróis da Liberdade” (1995) – a eternidade de Silas e Décio, na leitura delicada de João.

3 COMMENTS

  1. Que incrível matéria da Carta Capital e com a Edição 941 de 1 de março deu sorte para a Imperial!!Tenho orgulho por ser assinante!

  2. Há uma incorreção no texto. Segundo a matéria, o Império Serrano estaria desde 1997 no grupo de acesso, hoje denominado Série A.

    Na verdade, o Império retornou em 1999 à elite, tendo sido rebaixado neste mesmo ano, e ascendido novamente ao Grupo Especial em 2001, onde ficou até 2007, quando amargou novo rebaixamento com o enredo “Ser diferente é normal”.

    Ainda obteve nova vitória no grupo de acesso em 2008, o que possibilitou à escola retornar ao Especial em 2009, quando reeditou o enredo de 1976. Neste mesmo ano, amargou novo e polêmico rebaixamento.

    Finalmente, em 2017, conseguimos a vitória que nos colocou de volta à elite do carnaval. Porém, mesmo nos anos em que esteve no acesso, o Império permaneceu grandioso, com quadra lotada e tendo apresentado grandes sambas e ganhado vários prêmios da imprensa carnavalesca.

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