A brasileira Dilma Vana Rousseff passa em revista as tropas francesas
A brasileira Dilma Vana Rousseff passa em revista as tropas francesas

Esta narrativa se desenrola integralmente em elipses temporais femininas do terceiro milênio brasileiro. São peças de um quebra-cabeça, cenas de um filme nada fictício, que se encontram e se desencontram em encaixes nem sempre evidentes. Vejamos.

1º de janeiro de 2011. Numa minúscula água-furtada que se debruça sobre o elegante centro histórico de Paris (o Marais, bairro das gay e das judia), três adultos assistem em tempo real à posse da primeira presidenta mulher da república brasileira. Frio de janelas fechadas e chauffage ligada, os três se disputam um pedaço do edredom. Somos dois franceses e uma brasileira, temos entre 35 e 45 anos e vivemos os restolhos complicadísssimos do fim da desastrosa era Sarkozy, na França. Somos um gay, uma lésbica e uma bi, e todos estrondosamente orgulhosos de o serem.

Reparando bem, faltava pouco para que pudéssemos formar, em letras coloridas piscantes, como numa coreografia do grupo Village People, a sigla mundialmente connhecida como LGBT. A expressão “ditadura comunista gayzista” ainda não tinha sido formalmente cunhada e despejada nas violentas redes facho-conservadoras brasileiras (embora, como veríamos, já estivesse cozinhando em fogo lento nas últimas décadas). Mas, verdade seja dita, os três dentro da pequena água-furtada parisiense poderíamos ter alegremente comemorado o advento do novo regime comunista-gayzista naquele primeiro de janeiro, fosse o caso. E que pena que não tenha sido.

Corta. Foco no momento em que Dilma Rousseff passa em revista as tropas. A brasileira comunista bi-gayzista não se contém e chora em soluços silenciosos, sob o edredom. Os amigos franceses observam, comovidos. Eles sabem que a nova presidenta foi torturada pelas mesmas continências que hoje a saúdam. Eles sabem também, ao contrário dos brasileiros, que 40 anos (o período decorrido entre a tortura e a faixa presidencial) significam muito pouco tempo em termos de civilização. E eles o sabem não por serem melhores ou mais inteligentes que seus amigos sul-americanos. Eles o sabem porque fazem parte de uma velha civilização, imperialista, colonizadora e colonizada (vide o vexame do regime de Vichy, que eles não suportam nem mesmo lembrar), e porque fizeram uma sangrenta revolução em 1789, e porque houve guerras napoleônicas, franco-prussianas, guerra dos cem anos, maio de 1968, guilhotina, nazismo, facho-nacionalismos, falta de pão. Francês não aguenta ficar sem pão.

Ao final da cerimônia, a constatação: “Voilà le Brésil, qui donne l’exemple au monde” (vejam o Brasil dando o exemplo ao mundo). A euforia era justificada em nossa pequena célula proto-comunista-gayzista, anterior mesmo a fatos que mudaram o mundo ao redor e que aconteceriam nos próximos anos, como a aprovação do casamento gay (no Brasil e na França), os atentados terroristas, o tsunami migratório do pós-guerra contemporâneo e as novas ondas neofascistas que engrossam suas fileiras em toda a Europa (e no Brasil), tomando por justificativa os quatro momentos citados anteriormente.

Metade dos anos (19)80 – algo como 1984, 1985. Governador Valadares, interior de Minas Gerais. Terra de coronelismos pomposos. Chegamos da capital faz pouco tempo. Estudamos moral e cívica no colégio. Cantamos o hino nacional enfileiradas por ordem de tamanho no pátio da escola, antes da aula. Colégio de ereiras católicas. Assustada com o ambiente macho-facho-integralista às margens do rio Doce (sim, aquele mesmo rio que seria declarado morto através da ação criminosa da mineiradora Samarco, privatizada por Fernando Henrique Cardoso), minha mãe nos obriga a discutir política durante as refeições. Obriga sim. Não participou, olhar de desprezo.

Temos 11 e 8 anos e conhecemos detalhes da emenda Dante de Oliveira. Marília, minha mãe, histriônica e impressionante, nos fala de coisas alucinantes como galinhas verdes e de uma seita (para nós, diabólica), chamada TFP, que desfila com estandartes e é “de direita”. Sabemos que papai andava de óculos escuros em 64. Sabemos que pessoas foram torturadas. Cada vez que minha mãe pronuncia a palavra “milicos”, temos a impressão de que ela vai ter um troço. Temos tanto medo dos estandartes da TFP quanto dos maconheiros, pois as duas coisas se equivalem no credo maluquíssimo da nossa mãe. Meu pai solta sonoras risadas, cúmplice dela. Meus pais são “de esquerda” e acham a Arena “um horror”. Minha mãe rasgou meu livro de moral e cívica e foi tomar satisfação com uma freira do colégio. Minha mãe anda seminua de biquíni pela casa tomando uiscão e tomando lição de geografia, clima temperado, clima tropical.

A transição democrática é festejada na minha casa com ares de revolução francesa. Chorei compulsivamente no banheiro quando Tancredo Neves morreu e cantei dezenas de vezes com Fafá de Belém “Coração de Estudante”, com ares de pequena carpideira-guerrilheira. Minha mãe não é submissa, ela administra um matriarcado com a cumplicidade sorridente do meu pai. Minha mãe nos repete que “casar é coisa de mulher burra, bom mesmo é ter diploma universitário”. Somos uma pequena família pequeno-burguesa que se acredita do lado bom da força, educando as filhas numa bolha proto-comunista-gayzista de 1985, num curral da ditadura militar do interior mineiro.

Só que não.

Algum lugar em 2013. Do lado de lá do Atlântico, escuto abestalhada os impropérios de Marília-mãe contra “Dilma e o PT”. As conversas telefônicas, nosso principal meio de comunicação ligando 10 mil quilômetros de distância, tornam-se um suplício, para ambas as partes, filha e mãe, mãe e filha. Contra-argumento, como aprendi com ela dentro de sua própria casa matriarcal. Escuto um “mas não estou falando de política!” aos berros. Era já o discurso “apolítico”, “isentão”, propagado aos quatro ventos pela mídia golpista a fazer minha (já) velha mãe dançar no ritmo dos “galinhas verdes” que ela tanto execrava. O mesmo discurso responsável por fabricar os minions fascistas do MBL e por apoiar com um “silêncio sorridente” a nova chacina de São Paulo, as chacinas cotidianas de Geraldo galinha-verde-Opus-Dei Alckmin, durante as manifestações de junho, e tantas outras que viriam depois.

Capitulo: “Mas qual o problema com a Dilma?”, pergunto, exausta. “Ela é péssima, machona, autoritária!”, grita Marília-mãe do outro lado da linha, aquela mesma que negava sobremesa a quem se recusasse a discutir política no jantar. Aquela mesma que não só nasceu na mesma geração de Dilma Rousseff, mas o fez na mesma cidade, no mesmo bairro, frequentou as mesmas escolas, os mesmos colegas, os mesmos chás dançantes. Mas não a mesma cela, e talvez more aí o perigo. E a grande diferença.

Não entendemos, minha irmã e eu. Não nos casamos (pelo menos no papel), temos nossos diplomas universitários, ganhamos nossas vidas com nossas profissões e continuamos a discutir política efusivamente no jantar, como nossos companheiros e/ou companheiras. Não era esse o combinado?

Márcia Bechara e Dilmãe
Márcia Bechara e Dilmãe

Não é preciso ser nenhum gênio do divã contemporâneo para entender que numerosas mulheres da geração da minha mãe Marília-Dilma não conseguiram processar nem aceitar o fato de terem sido oficialmente alçadas ao poder máximo do país onde nasceram. Dilmãe exerce o proibido-proibitivo, que é extrapolar a discussão política na mesa do jantar e exercê-lo com honras de chefe de estado, seja no Palácio do Planalto, ou na sede das Nações Unidas, ou passando em revista as tropas das Forças Armadas.

Jéssica e Val, no filme "Que Horas Ela Volta?", de Anna Muylaert
Jéssica e Val, no filme “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert

Dilma Rousseff é transgressora para além das celas do DOI-Codi. Ela significa, tanto para mim, filha pequeno-burguesa de boas escolas cato-brasileiras, quanto para Djamilas e Jéssicas, o alvorescer de uma verdadeira nova era. A geração de muitas das nossas mães nunca se permitirá sair do claustro de seu próprio boudoir. Dilma, pertencente à mesma geração massacrada pelas mesmas proibições brasileiras de gênero e sociedade do século XIX, avoluma-se e ousa aceitar sair do minúsculo quadrado a ela reservado. Crime sem perdão. Vide a retomada infame e criminosa do “bela, recatada e do lar”.

O golpe em curso no Brasil deseja consciente e imperativamente voltar à era pré-Dilma. Imbecis, fracassarão. O passo foi dado, para fora da cela. “Não voltaremos mais para a senzala, para a cozinha ou para o armário”, já avisou a compositora e cantora Pitty.

imagem.aspxMichelle Perrot, historiadora francesa contemporêna, relata em seus livros como a mulher foi historicamente consagrada, pela força misógina da sociedade machista, à invisibilidade de seu boudoir. A única mulher pública possível sempre foi a puta. A mulher foi criada para continuar escravizada dentro de seu próprio quarto, e é por isso, conta a historiadora francesa, que as principais expressões artísticas ditas femininas saem diretamente desse contexto: a escritura e a pintura, coisas que podem ser feitas dentro de sua cela, ops, quarto.

Virginie Despentes
Virginie Despentes

Outubro de 2009. Chego a Barcelona, onde a romancista, ensaísta e diretora francesa Virginie Despentes está terminando de editar seu documentário Mutantes: Feminismo Porno Punk. O ambiente é frenético. Sou recebida pela figura imponente de Virginie e sua então mulher, Beatriz Preciado (atualmente o filósofo Paul Beatriz Preciado, conferencista de Princetown, Sorbonne e muitas outras universidades pelo mundo, atual curadXr da Documenta 2017-2018), autXr dos incontornáveis Manifesto Contrassexual (traduzido e publicado pela N-1 Edições no Brasil) e Testo Junkie.

Paul Beatriz Preciado
Paul Beatriz Preciado

Ganho de presente um exemplar em francês de Testo, onde Paul Beatriz Preciado relata, entre outros milhões de assuntos altamentes pertinentes, suas experiências pessoais com a testosterona, denunciado o que elX chama de indústria pornofarmacopeica, que deseja regulamentar violentamente o corpo das mulheres e dos homens (e de todas as cybertexturas entre um e outro) a partir de biopolíticas (na expressão de Michel Foucault) do século XIX.

O choque é intenso e vibrante para mim, brasileira vinda de uma era pré-Think Olga, pré-PartidA, pré-Dilma Rousseff, uma era pré-histórica do novo feminismo brasileiro. E como não perceber que o advento de Dilma Rousseff contribuiu majestosamente para o advento das novas mulheres brasileiras, cisgêneras ou transgêneras? Como não perceber que o advento de Dilmãe é responsável para que Carinas Vitrais e outras se proclamem publicamente presidentAs de suas uniões estudantis, nacionais ou estaduais ou municipais ou rurais? Como não saudar o advento das moças recém-formadas pelo Prouni, que ousaram sair da senzala em tempos bicudos de novas extremas-direitas intercontinentais? E que o fazem em alto e bom som, nos microfones do Planalto?

E como nem sequer imaginar por um momento que a presença de um postulado de Simone de Beauvoir no Enem possa ter sido fruto dessa nova era? Afinal, ninguém nasce mulher, torna-se mulher, dizia a filósofa francesa. Tornar-se mulher. Tornar-se cidadão. Dar o passo para fora da cela, a cela de dentro, de dentro da cabeça.

Em Barcelona, em 2009, Paul Beatriz Preciado comanda as aulas filosófico-performáticas-feministas do MacBa, museu de arte contemporânea de Barcelona. Entro em contato com Diana Porno-Terrorista, com Quimera Rosa e as incríveis performers do Post-Op, com as performers espanholas contemporênas forjadas no fogo de Preciado, pós-estruturalista, pós-humanista, pós-Derrida.

I.K.U.Não paro de pensar um só minuto nas minhas contrapartidas brasileiras, na mulher que eu sou, que nós somos, na presença de Dilma Rousseff. Conheço Shu Lea Cheang, cineasta e artista visual nova-iorquina que se tornou mundialmente famosa com I.K.U. (orgasmo, em japonês), filme pornô-lésbico-feminista que ganhou o prêmio do festival de Sundance, no ano 2000. Me aproximo de Virginie Despentes, de quem traduzi o ano passado o ensaio feminista Teoria King Kong, best-seller na França e nos Estados Unidos, e que chega ao Brasil em breve, também pela N-1 Edições. Virginie, que explodiu mundialmente como a escritora e diretora (livro e filme) de Baise-Moi (Foda-Me), que traz a violenta cena onde os estupradores são mortos e dilacerados pelas estupradas, o estupro do avesso, a violência incontida, lugar proibido para a mulher “bela, recatada e do lar”.

A experiência europeia rompeu com todos os meus tendões de Aquiles fêmeos recatados coloniais, e me trouxe a percepção exata e inequívoca de que o corpo (meu corpo) é um instrumento de desejo, de prazer, de luta. Desmistificar o corpo em seus credos judaico-católicos, arrancar todos os naturalismos dele, perceber que o corpo é laico, que ele pode ser laico, que o corpo é escolha, o corpo feminino é escolha e intervenção, o corpo é cultural e pode existir fora das regras macho-facho-religiosas sem medo, e sem pudor. A experiência europeia me ensina, todos os dias, seja na através da resistência intelectual e política, seja na visão insuportável dos corpos dilacerados pelos atentados, que o corpo é guerra. E é importante que o corpo feminino seja de guerra, e livre, e altamente sexual e sexualizante, sem pedir licença nem perdão.

Algum lugar de 2007. Escrevo e atuo a performance cabaré-feminista Minha Buceta Não É Corporativa, com direção de Fabio Salvatti, na abertura da mostra internacional Verbo, da Galeria Vermelho, em São Paulo, sob a alcunha de Jezebel, the bullet woman is back. Entro com vestido de noiva chamuscado por um fogo improvisado, com um cinturão de mulher-bomba, oito anos antes dos ataques terroristas de Paris, onde moro agora. Como nada é coincidência, começo o cabaré-performance cantando “Amélia que era mulher de verdade”. Com o mesmo trabalho solo viajo para a Universidade da Califórnia (Ucla), no ano seguinte, convidada pelo departamento de gender studies no seminário Women in Transfer e subsidiada pela Secretaria de Políticas para Mulheres do então governo Lula. Ah, a importância de políticas públicas para mulheres, negros, LGBTs, pobres. Conheço o núcleo de estudos feministas norte-americanos e suas pesquisadoras, artistas e performers. Nenhuma abordagem de gênero seria novamente a mesma para mim, depois dessa viagem.

Paris, 8 de maio de 2016. Escrevo este texto-desagravo em pleno Dia das Mães brasileiro. Não tenho a mínima vontade de comemorar o fato de poder procriar na intimidade do meu boudoir, neste terceiro milênio. Não sinto vontade alguma de celebrar maternidades do século XIX, aqui desta minha pequena célula proto-feminista-gayzista autoexilada em Paris, onde me estabeleci, sete anos atrás.

Penso nas hordas de ignorância e miséria intelectual a que assistimos diariamente na ~grande imprensa~ brasileira e nas manifestações pró-impeachment verde-amarelas, além da farsa em curso na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Mas penso sobretudo e muito forte nas novas Jéssicas e Djamilas e Carinas e Suzanas desse meu Brasil afora. É nelas que eu penso, tão melhores que a minha geração, e que a geração antes da minha.

Um aviso aos carniceiros facho-machistas misóginos de plantão: a História ensina, esse carnaval de galinhas verdes do século XIX vai passar, em breve, e as novas meninas farão inexoravelmente as pazes com suas Dilmães, na melhor tradição futurista-feminista possível. Faremos as pazes conosco mesmas, com nossos úteros laicos, com nossas resistências nada passivas, para sempre fora do boudoir. Faremos História, seja o que for que acontecer neste dia 11 de maio. Preparem-se, vocês estão mortos, vocês já estão mortos. E nossas Dilmães estão prontas também para fazer as pazes conosco, atenção.

11 de maio será nada, já não é nada, comparado ao que estamos preparando para vocês, machistas homofóbicos fascistas de plantão. E o que estamos preparando para vocês é cozinhado ao lado de grandes forças femininas e masculinas brasileiras, do centro e da periferia do Brasil. Fuck dia das mães, viva dilmães. Esperem sentados pela nova extrema-direita brasileira, nas suas cadeirinhas de balanço protofascistas. Não vai sobrar narrativa sobre narrativa desse golpe farsesco de 2016. Au revoir.

(*) P.S. do editor Pedro Alexandre Sanches: este Blog do PAS se abre à manifestação da amada amiga Márcia Bechara, como está igualmente aberto a toda e qualquer participação pró-democracia, a toda e qualquer amiga, a todo e qualquer amigo – isto é um convite, um convite à resistência.

3 COMENTÁRIOS

  1. Bom saber que de Governador Valadares saiu mais de uma coisa boa. Parabéns pelas reflexões, e ansiando pela realização do último parágrafo.

  2. Chorei com seu texto, tudo que estava aqui entalado desde que venho assistindo ao festival de estupidez conservadora. Fui criada por uma mãe incrível que, embora tenha repetido as gerações anteriores devido às suas dificuldades emocionais, ensinou-me a fazer tudo diferente, a ter autoestima, a ser quem eu queria a não ligar para padrões. Isso tudo que tenho assistido me fere profundamente, mas tenho pensado que é preciso resistir e a gente saberá como fazer isso.

    Obrigada pelo texto.

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