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Filha, mãe, avó: Paula, Dilma Vana, Dilma Jane

Presidenta da República não é mãe.

Se quer ser mãe, mulher tem que ser bela, recatada e do lar (e Amélia é que era mulher de verdade). Se é bela, recatada, do lar e mãe, mulher não deve trabalhar fora, quanto menos na pilotagem da presidência da República. Por silogismo, se é mãe mulher não pode ser presidenta. Tampouco presidenta deve ser confundida com mãe.

Ainda que as afirmações acima fossem verdadeiras (querem nos convencer de que são, talvez sejam, mas não são), Dilma Vana Rousseff e a figura mítica da MÃE estão irremediavelmente ligadas no meu imaginário particular. Menos porque Luiz Inácio Lula da Silva a tenha inicialmente vendido como “mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)”, visando outras maternidades. Mais por outros motivos.

Minha mãe biológica, Clementina Zaira Sanches, morreu aos 77 anos, em 2011, cinco meses depois de Dilma Vana Rousseff se tornar a primeira mulher que ocupou a presidência da República do Brasil. No meu mundo interior, o advento da Dilma presidenta coincide com a extinção da Zaira minha mãe. Mãe não pode ser presidenta. Presidenta não pode ser mãe.

Não pode. Mas pode (ou podia?).

Minha mãe, qual Amélia, bela, recatada e do lar, nunca se pareceu com Marcela Temer e sempre foi dona de casa. ~Não trabalhava fora~. ~Não trabalhava~. Era sustentada por meu pai, o terno José, e por tal pagava preços módicos, em cama, mesa e banho. Embora inteligente e sagaz, não conseguiu estudar além da quarta série primária, apenas.

Foi uma mulher acanhada, submissa e dependente, sempre. Autêntica Amélia, verdadeira Marcela. Votava (nos tempos em que houve eleição) em quem meu pai indicava que deveria votar (ou pelo menos dizia que – vai alguém saber o que se passa na intimidade da urna, você e seu voto, seu voto e você).

Nos últimos anos de vida, minha mãe teve de conviver com a desintegração lenta, gradual e irrestrita de meu pai. O velho se consumia diante do golpe de estado autoaplicado chamado mal de Alzheimer (morreria um ano e sete meses depois dela, aos 83 anos).

Conforme o velho se esquecia de si mesmo e parava de zelar pela família, a velha foi ficando completamente perdida, atarantada, desamparada, órfã desempregada de pai, padre, patrão e marido.

Ela, que apoiara a ditadura (civil-)militar porque meu pai (etc.), viu-se progressivamente apaixonada pelo Lula, conforme ele evoluía como pai-presidente e seu Zé involuía como sequestrado de mr. Alzheimer.

(Lula foi um presidente da República que tinha feições de pai, e era diametralmente oposto, também nisso, a seu antecessor Fernando Henrique Cardoso.)

Quando Lula revelou que Dilma, a “mãe do PAC”, seria o próximo Lula, minha mãe explodiu de fora para dentro. Adquiriu frágil e breve autonomia. Apaixonou-se por Dilma. Fez campanha por Dilma. Mesmo sem saber nomear a coisa, indignava-se com a misoginia que o adversário José Serra usava feito tacape para tentar golpear Dilma.

Exultou intensamente com a eleição da Dilma. Descobríamos (todas) juntas que (minha) mãe podia ser presidenta. Dona Zaira falou de Dilma com imenso carinho a cada conversa (breve, pouca) que tivemos nos cinco meses de vida que lhe sobravam.

Quando soube do AVC que ia levar minha mãe embora, foi imediato para mim a livre associação de pensamentos: ela ajudou a eleger, mas não conseguiu ficar aí para ver como evoluiria a Mulher PresidentA. Não peitou. Pirulitou-se.

Dilma e mãe se confundem na minha cachola porque não consigo parar de pensar em minha mãe a cada minuto do processo indecisório que primeiro reelegeu Dilma, para em seguida demovê-la (será?) da primeira presidência feminina da nossa história do Brasil. Presidenta não é mãe? Mãe não é presidenta?

Não consigo parar de pensar em minha mãe nos dias em que Dilma será removida da presidência da República (será?) porque sinto que o mesmo processo que levou minha mãe embora tenta agora levar embora a presidentA que ajudei a eleger com muito orgulho.

Meu voto embora. Minha intimidade com a urna na lata do lixo. 54 milhões de desejos escoando pelo ralo. Os filhos de chocadeira Michel TemerEduardo Cunha et caterva (a Rede Globo nunca foi mãe de ninguém) na recomposição ativa da Amélia.

Chama-se misoginia o processo, e nada nem ninguém me convence do contrário. É uma indignidade que isso não esteja sendo levado em contra no debate (debate?) diante da truculência de um modelo supostamente mais requintado de golpe de estado. Masculinidade midiática, masculinidade jurídica, masculinidade parlamentar, masculinidade golpista. Golpes de tacape pós-pós-moderno.

cavernas

Insone na madrugada em que escrevo este texto, lembro-me do primeiro panelaço parido em cesariana para calar a boca da presidenta eleita e reeleita: 8 de março de 2015, Dia Internacional da Mulher. Dilma tentava, sob forte tensão, comemorar o dia que afinal de contas é (é?) dela também.

O panelaço explodiu de dentro para fora enquanto ELA tentava falar dessas coisas corriqueiras: Dia Internacional da Mulher, mães, trabalhadoras, donas de casa, empresárias, forças vivas do país, lei do feminicídio (a partir do 13º minuto), o “longo caminho entre sentir e entender plenamente”.

Desde esse primeiro panelaço (ou melhor, antes, desde a reeleição em 2014) não houve um segundo de trégua para a presidenta-mulher-mãe-avó-etc., com ápice nesta semana coroada de maneira brutalmente feminicida pelo jornal O Estado de São Paulo, com uma imagem fictícia em que a Bruxa arde na fogueira inquisitorial da tocha olímpica.

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Jornal da tradição-família-propriedade, “O Estado de São Paulo” incendeia a Bruxa na pira

(Sim, eu sou uma bruxa, diria Yoko Ono.)

Adversários e aliados se somaram ao panelaço para gritar em tempo integral que P R E S I D E N T A   N Ã O   É    M Ã E    (você trataria sua mãe como trata, como tratam a presidenta?), não é nem sequer mulher de de verdade (ai, meu Deus, que saudade da Amélia de Ataulfo Alves Mário Lago).

Dilma já disse (e outros já disseram) que se cair (será?) ela cai mais pelas virtudes que pelos defeitos que contabiliza. Posso citar apenas de passagem algumas dessas virtudes, todas supostamente impróprias de uma mãe, todas ligadas de alguma maneira ao campo do combate ao feminicídio.

Vacina nas meninas contra o HPV. Lei do feminicídio. Lei dAs empregadAs domésticAs. Graça Foster no comando da Petrobras. Defesa da soberania do pré-sal braS(Z)ileiro. Destinação dos recursos do pré-sal à educação e à saúde (conforme exigiam os meninos, as meninas e os marmanjos de 2013). Tentativa vã de redução dos juros masculinamente escorchantes. Combate à corrupção e aos corruptos que vão (vão?) conseguindo cortar-lhe antes a cabeça.

Graça e Vana
Graça e Vana

Assim como foi calada por sucessivos panelaços feminicidas desde o Dia Internacional da Mulher de ano atrás, até que não mais pudesse se abrir em rede nacional (mulher de verdade não entra vestida de puta presidenta nos lares belos e recatados da elite tropical), Dilma prepara-se para deixar o palácio presidencial (será?), golpeada desta vez pelo Senado onde pontificam a histeria masculina maldisfarçada de Aécio Neves Antonio Anastasia e o neo-cunhismo ex- feminista de Marta Suplicy.

 

Ardo de saudades de minha mãe, enquanto Dilma ganha, neste próximo dia das mães, dois presentes épicos: a suspensão (será?) do filho de chocadeira Eduardo Cunha do cargo de grão-golpista e a própria suspensão da presidência da República (será?). Presidenta da República não é mãe.

 

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