“Eu sozinha era a quinta-coluna da MPB!” Não consigo captar a entonação que Joyce Moreno emprega para fazer essa declaração – estamos há dias conversando por e-mail, ela no Rio de Janeiro, eu em São Paulo. Em breve ela parte para Tóquio, no Japão, para mais uma de inúmeras turnês que tem feito desde os anos 1990, quando sua “hard bossa” (expressão cunhada por um jornalista norte-americano) passou a ser apreciadas por fãs europeus e asiáticos mais do que por brasileiros.

Não me arriscarei a tentar explicar o significado do termo “quinta-coluna” a você que está lendo este texto (até mesmo porque não o entendo perfeitamente). Comento com Joyce que, apesar de seu tom aparentemente brincalhão, trata-se de uma expressão pesada. Tensa, carregada de significados. Ela me explica por que seria uma quinta-coluna da MPB, essa sigla abreviadora para música popular brasileira que surgiu dentro da geração artístico-universitária a que Joyce pertence (tem hoje 65 anos).

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Na mítica passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro, em 1968, aparecem em primeiro plano Zé Rodrix, Chico Buarque e Joyce – foto do acervo da cantora

 

“Só me dei conta disso muitos, muitos anos depois. Até então eu ouvia o que os grupos diziam uns dos outros”, diz, referindo-se às turmas pelas quais transitava, fossem dos sambistas e bossa-novistas cariocas, dos tropicalistas baianos, dos jazzistas mineiros do clube da esquina, e assim por diante. “Mas ninguém sabia nada sobre isso. Obviamente eu não comentava com uns o que ouvia dos outros. Houve um tempo, especialmente quando explodiu a tropicália, em que muitas amizades racharam, e não tinha nada a ver piorar a situação com futricas”.

tutty 71Novembro 2008 2Conhecida apenas como Joyce até 2007, quando adotou o sobrenome do marido (e parceiro-músico-baterista), o baiano Tutty Moreno (foto à esq.), essa garota de Copacabana é mais atuante, longeva e antiga no cotidiano musical brasileiro do que geralmente se lembra nossa vã memória. O Brasil ouviu mais falar dela a partir de 1980, quando os espectadores do festival MPB 80, da Rede Globo, se encantaram por “Clareana”, uma terna balada em que a mãe Joyce celebrava a infância das filhas “Clara, Ana e quem mais chegar”. Mas ela estava nos festivais da canção desde muito antes – em 1967, classificou uma composição de punho próprio, “Me Disseram”.

Na classificação daquele II Festival Internacional da Canção (FIC), deu Chico Buarque em terceiro lugar (com “Carolina”), Milton Nascimento em segundo (“Travessia”) e Gutemberg Guarabyra em primeiro (“Margarida”). Enquanto os meninos cantavam carolinas e margaridas, a criação da garota de 19 anos não passou das fases eliminatórias. Mas gerou controvérsia. Versos como “já me disseram que meu homem não me ama/ me contaram que tem fama de fazer mulher chorar” fizeram o jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, classificar a compositora de “vulgar e imoral”, segundo ela própria narra na seção biográfica de seu site oficial.

“Nunca entendi por que não havia canções brasileiras no feminino escritas por mulheres. As poucas compositoras brasileiras de até então eram muito tímidas quanto a isso, as letras eram neutras”, afirma Joyce. “Houve até críticos que chegaram a pôr minha autoria em dúvida, dizendo que as músicas eram boas demais para terem sido feitas por uma mulher.”

Mas qual seria o pecado original da menina Joyce? Ser mulher num universo – o dos compositores de MPB – estrangulantemente masculino?

Joyce e compositoresJoyce demonstra por meio de uma historieta que, sim, sua maior transgressão era o sexo com o qual havia nascido. “Outro dia veio aqui em casa uma repórter, e mostrei a ela uma charge do (cartunistaLan de 1967, na época do festival. Nela estou sentada, rodeada por companheiros de geração também concorrentes – Milton Nascimento, Chico Buarque, Edu Lobo, Dori Caymmi, Nelson Motta (e o veterano Capiba, imagem à dir.), todos jovens, bonitos. Ela então disse: ‘Puxa, mas você nunca pensou em namorar um desses caras?’. E eu: ‘Não, eu não queria namorar um dos caras. Eu queria SER um dos caras!’.

O caminho para realizar esse desejo estaria forrado de pedregulhos. Joyce estava e está acostumada a pular de “clube do bolinha” em “clube do bolinha”. Filha de um dinamarquês radicado no Brasil com uma funcionária pública carioca que criou três filhos sozinha, era caçula entre dois meninos. Um deles, Newton, tocava guitarra e era amigo de músicos de nomes como Eumir DeodatoRoberto MenescalLuiz Carlos VinhasOscar Castro Neves – era a bossa nova, masculina até a tampa, crescendo ao redor de Joyce.

“Primeiro casamento aos 22. Primeira transa aos 17: ‘Agora você é só minha’, a frase fatal. Adeus, otário”, a compositora rememorou ritos de iniciação no livro de crônicas autobiográficas Fotografei Você em Minha Rolleyflex, publicado em 1997. O primeiro verso da primeira canção do primeiro LP (Joyce, de 1968) tateava pelas dores da emancipação: “Se eu quisesse arranjar um marido…”.

“Não Muda, Não” soava como um espelho de recusa ao “acho bom saber que pra ficar comigo/ vai ter que mudar” de Roberto e Erasmo Carlos em “Se Você Pensa”.  Joyce contra-atacava o machismo iê-iê-iê de outro clube do bolinha: “Não muda, não/ deixa assim que tá bom, deixa ficar/ já pensou ver a gente casado vivendo amarrado sem se gostar?/ já pensou ver você assustado chegando atrasado pra trabalhar?”.

Jurada do III FIC em 1969, Elis Regina viu Joyce cantando “Copacabana Velha de Guerra” e já quis gravar. Uma “Cantiga por Luciana” venceu o festival, com uma “Juliana” em segundo lugar. A vibrante “Copacabana Velha de Guerra” não se tornou o destaque do álbum …Em Pleno Verão (1970), em que Elis apresentava também um outro novo compositor, Tim Maia. Joyce casou-se com o mineiro Nelson Angelo, formou com ele o grupo hippie A Tribo, teve Clara Ana, lançou um disco chamado (nesta ordem) Nelson Angelo e Joyce (1972), tornou-se moça em meio a mais um “clube do bolinha” – o clube da esquina do mineiro nascido carioca Milton Nascimento.

Pergunto como a moça que sonhava ser compositora e bandleader se relacionou com a jovem senhora que arranjou um marido. “Pois é, não deu muito certo, não… O disco com o Nelson é muito bonito, mas não tem praticamente nada do meu pensamento musical. Ele é um músico que eu respeito e admiro, mas o meu espaço musical ali foi completamente tolhido. Mas também eu estava envolvida com fraldas e bebês, então fui levando até onde deu.”

IMG_0394Em 1975, Joyce se separou e iniciou uma retomada lenta, gradual, (in)segura. Trabalhou com Vinicius de Moraes, a seguir integrou a Academia de Danças de Egberto Gismonti (na foto à esq., Joyce e Egberto ladeiam Hermeto Pascoal.), que a levou para a Europa e a diversas tentativas de retomada da carreira individual. Integrado quase completamente de canções compostas por homens, Passarinho Urbano foi lançado na Itália em 1976 e passou em branco por aqui. “A indústria musical daqui estava se lixando pra mim”, avalia a artista, que em anos recentes tem lançado pela gravadora Biscoito Fino álbuns quase sempre editados primeiramente no exterior – caso, por exemplo, do recém-lançado Tudo.

Um disco formidável gravado no mesmo 1976 foi engavetado e seria lançado apenas em 2009 sob o título Visions of Dawn, já sob a égide da relação feliz e profícua entre Joyce a a gravadora inglesa Far Out. Um terceiro álbum gringo, Natureza, permanece inédito até hoje, retido pelo orquestrador alemão Claus Ogerman, responsável também pelos arranjos dos álbuns Urubu (1976), de Tom Jobim, e Amoroso (1977), de João Gilberto.

Agosto 2009E então veio “Clareana”, e então Joyce pôde reestrear no país natal pela multinacional EMI-Odeon, com um disco chamado… Feminina (1980). O contexto era de uma nova arrancada feminina na cultura nacional, aproveitada pela Globo no seriado Malu Mulher, com Regina Duarte, e a seguir com o especial musical Mulher 8o (1979), ancorado por Regina e integrado por um elenco estelar de mulheres cantoras (Elis, Gal CostaMaria BethâniaFafá de Belém), mais uma e outra compositoras (Joyce, Rita LeeMarina Lima).

“- Ô, mãe/ me explica, me ensina, me diz/ o que é feminina?/ – Não é no cabelo, no dengo ou no olhar/ é ser menina por todo lugar”, cantava a faixa-título de Feminina, que no especial Mulher 80 aparecera interpretada pelo Quarteto em Cy, no papel de (quatro) mãe(s), em contracanto com a “filha” Narjara Turetta, atriz adolescente que interpretava a filha de Malu-Regina em Malu Mulher. O LP de Joyce era grávido de temas femininos, como “Essa Mulher” (gravada no ano anterior por Elis) e “Mistérios” (“um fogo queimou dentro de mim/ que não tem mais jeito de se apagar”), lançada em 1978 por Milton, no álbum Clube da Esquina 2.

E o que aconteceu com o manifesto feminino-feminista de Joyce? “Houve quem achasse que o disco se chamava Feminina como uma espécie de resposta à grande presença de cantoras lésbicas na MPB naquele momento. Fiquei mal com isso, várias eram minhas amigas e intérpretes. Mas as pessoas às vezes aparecem com ideias ridículas mesmo.”

Pergunto se contrapor “femininas” a “lésbica” (em vez de a “masculinos”) não seria um artifício usado por outro “clube de bolinhas” (o dos críticos musicais, ao qual pertenço) para minar o feminino num ambiente sempre masculino. Ela responde que não acredita nisso. Eu sigo matutando sobre a velha tática do “dividir para governar”.

Joyce cumpriu dois álbuns na EMI-Odeon e partiu para a independência fonográfica, o que não era de modo algum comum nos anos 1980. Aqui ela pede para preservar mistérios:  “Enfrentei anos de boicote na indústria fonográfica brasileira. Não gosto de falar nesse assunto, já se passaram mais de 30 anos e a vida tomou seu rumo. Mas era para minha carreira ter acabado ali”.

Em Tardes Cariocas (1984), um dos discos independentes que lançou nesse intervalo, camadas de ironia, sutileza e inteligência se sobrepõem quando Ney Matogrosso surge para cantar alguns dos versos da cortante “Nacional Kid”: “Mulher minha não mexe com essas coisas, não/ tem que aprender a obedecer o seu patrão que é um rapaz brasileiro”. “Sua identidade secreta é brasileiro”, atalha a compositora, cutucando outros e outros quinta-colunismos.

Durante mais esse hiato do tipo vai-ou-racha, a nada tropicalista Joyce homenageou pela tangente uma colega compositora muito tropicalista, na bossa bem humorada “Minha Gata Rita Lee” (1985). Solidariedade feminina?  “A gata era a cara da Rita, não havia outro nome possível. Na mesma época tivemos um cachorro chamado Oscar, que era a cara do Oscar Castro Neves. Era só por isso… Mas sim, o mundo era esse, meninas não entravam no clube da criação. Meninos ficavam extremamente ameaçados com isso. Mulheres tinham de ser porta-vozes do pensamento masculino.”

A volta, mais uma vez, seria um passo de cada vez. Ainda na independência, Joyce lançou Tom Jobim… Os Anos 1960 (1987), inteiramente devotado à obra do mancebo que dá nome ao disco. Em 1988, a EMI a recontratou para gravar Vinicius de Moraes – Negro Demais no Coração (1988), em honra a outro varão bem conhecido. A feminina-feminista viria à forra em Astronauta – Canções de Elis (1998), que atribuiria status de “cantautora” a Elis Regina, uma mulher que não compunha e transformava em suas composições criadas (quase sempre) por homens. “Essa Mulher”, escrita por uma tal de Joyce, estava entre as 13 recriações, para ser exceção a confirmar a regra.

2la6ickA bossa nova ajudou na comunicação internacional da filha de um errante dinamarquês, mas são de Feminina alguns dos suingues (“Banana”, “Aldeia de Ogum”) que apaixonaram jovens DJs europeus, na fase pós-anos 1990 em que os tropicalistas contaram com a rivalidade mansa de Joyce e Marcos Valle nas predileções gringas pela MPB.

Quando, em 2003, o grupo indie rock norte-americano Portastatic devotou todo um EP cantado em português macarrônico à tropicália brasileira, o repertório partiu de Caetano Veloso (“Baby” e “Não Identificado”), seguiu com Gilberto Gil Dominguinhos (“Lamento Sertanejo”), o ex-mutante Arnaldo Baptista (“I Fell in Love One Day”) e desaguou em… “Clareana”. O EP pós-pós-tropicalista foi batizado De Mel de Melão, a partir de um verso da canção de Joyce.

Há na “hard bossa” de Joyce algo para lá de bossa-nova, para lá de branco, condensável talvez em outra faixa de Feminina, “Da Cor Brasileira”: “De quem falo, ele é feio e bonito/ mais velho e menino/ meu melhor amigo/ é o homem da cor brasileira/ a loucura, a besteira/ que dorme comigo” (a artista conta a história dessa letra em seu blog, no texto “Fotos de Amigos”).

Da cor brssileira era – é – a própria Joyce, garota morena de Copacabana que talvez fosse a verdadeira “Garota de Ipanema” de Tom e Vinicius, não fosse aquela musa loura e subserviente aos desígnios masculinos. O que lá no início a compositora denominou de “quinta-coluna” poderia ser, em vez disso, o dom da hibridez, da mistura de cores, sexos, credos e identidades, da afirmação de liberdade. Tudo isso emana da música feminina que ela produz. Diferentes dos ouvidos brasileiros, os estrangeiros carentes de mestiçagem talvez captem o balanço sem captar o conteúdo dos versos simbolistas, muitos deles de sabor feminista, que ela continua a criar aos borbotões. “Boiou”, brinca, agridoce, a suingada faixa de abertura do novo disco.

Vamos ficando por aqui, enquanto Joyce está andando de ponta-cabeça no Japão. Deixamos, nos versos de “Os Medos” (2004), os medos femininomasculinos que ela admite ainda sentir, mesmo tendo feito tudo que já fez: “Medo de sair, medo de ficar/ medo de ir longe demais“, “medo de não ter medo mais/ medo de ganhar, medo de perder/ medo de querer ser feliz e poder“, “medo de negar, medo de aceitar/ de sair na chuva e molhar/ de não ter vintém, de não ser ninguém/ medo de se dar muito bem/ medo de vencer, medo de arrasar”, “medo de viver, medo de falar/ de se recolher e calar/ de escuridão, de se arrepiar/ medo de parar pra pensar/ medo de trovão, de agitação/ medo de sair por aí e agir“, “de se descobrir ou de se afirmar/ medo de talvez consentir/ medo de subir e cair/ de dissimular, de não se aguentar/ medo de ser muito feliz e pirar“.

 

(Nota: FAROFAFÁ convida à leitura, aqui, da íntegra da entrevista de Joyce Moreno. Além de guardar belos e expressivos pedaços de história da música brasileira, há de servir aos interessados pelo jornalismo, como pistas sobre o que o texto acima elege expor e/ou ocultar, sublinhar e/ou relevar  – sobre edição jornalística, em outras palavras. Leia, também, trechos do capítulo “Praia”, do livro Fotografei Você na Minha Roleyflex, de Joyce.)

Clique aqui para ler a entrevista na íntegra

 

6 COMMENTS

  1. “Mistérios” é na minha opinião uma das musicas mais lindas, cortantes, de um lirismo que me toca toda vez que ouço. Da vontade de se (me) apaixonar de novo.

  2. “Mistérios” é belíssima… E “Nara” também. Descobri esta última, por acaso, vendo no youtube uma interpretação de Nara por Cris Delano com Roberto Menescal. Pena eu não saber onde encontrar uma interpretação por Joyce em pessoa.

  3. Oi, Roland, olha, eu não me lembro dessa música “Nara” que você está falando… Mas consultei meus arquivos aqui, tem uma gravação pela Joyce num disco coletivo chamado “40 Anos – Bossa Nova”, de 1998…

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