A prefeitura de SP institui uma curadoria para programar a Virada Cultural – e inclui um especialista em culturas populares e Sérgio Vaz, da Cooperifa, entre os curadores.   

 

Não são números comparáveis, absolutamente, mas arrisquemos mesmo assim colocá-los lado a lado. Cerca de 2 mil cidadãos correram ao Centro Cultural São Paulo no dia 5 de fevereiro passado, quando o novo secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, convocou a sociedade paulistana a discutir cultura cara-a-cara com a prefeitura. Hoje, 13 de março, a convocação era a jornalistas locais, para que participassem de uma entrevista coletiva de anúncio da “curadoria colegiada” que a partir de agora definirá a programação da Virada Cultural, marcada para os próximos dias 18 e 19 de maio. Não havia 30 pessoas na plateia do Cine Olido – entre jornalistas, integrantes da própria secretaria e agentes culturais locais (como o sambista Tobias da Vai-Vai Luiz Calanca, lojista das vizinhas Grandes Galerias e dono da mítica loja-gravadora-ponto-de-encontro Baratos Afins).

A comunidade jornalística paulistana se adapta devagar a um sistema mais arejado de diálogo com a prefeitura (o exemplo dado por Juca frutifica nesta semana, em reuniões abertas dos setores de juventude e diversidade sexual com a sociedade). Pois era justamente a ampliação do diálogo a principal notícia por trás do chamado de hoje. A partir de agora, a Virada Cultural terá essa tal curadoria colegiada, formada por nove integrantes que definirão os rumos e os nomes da programação daquele que tem sido, nos últimos anos, o evento mais luzidio da cultura oficial paulistana. “José Mauro fazia um trabalho quase individual de curadoria”, afirmou o secretário, referindo-se ao doutor em direito José Mauro Gnaspini, diretor da Virada nas gestões anteriores, agora convertido em um entre nove curadores.

O secretário municipal de Cultura de São Paulo, Juca Ferreira (o sexto, da esq. à dir.), entre os curadores da Virada Cultural, José Mauro Gnaspini, Sérgio Vaz, Alex Antunes, Tião Soares, Pena Schmidt, Alexandre Youssef, Giselle Beiguelman, Maria Tendlau e Marcus Preto - Foto Sylvia Masini

 

A segunda novidade é bombástica, se compararmos a São Paulo de 2013 com a dos últimos anos: outro dos curadores será Sérgio Vaz, poeta e fundador da Cooperifa, que promove célebres saraus de literatura no M’Boi Mirim, zona sul de São Paulo. Pergunto a ele, durante a coletiva, se sua presença indica a chegada da voz da periferia e a volta do hip-hop aos palcos centrais  da Virada. Sérgio responde de modo conciso e preciso: “A periferia já consegue consumir e produzir cultura. Precisa ter mais de tudo, não só de hip-hop. Nenhum estilo existe em detrimento do outro”.

Juca Ferreira conta historieta que se adequa a esse mesmo espírito. Diz que no dia da posse do prefeito Fernando Haddad (PT) conversava com um grupo de jovens que o abordou numa rua do centro da cidade e um mendigo se aproximou, de mão já estendida, na direção dele que, do grupo, era o único a vestir terno e gravata. “Quando ele entendeu do que estávamos falando, baixou a mão e me pediu: “O sr. pode colocar o Raça Negra na Virada?”.

Juca não explicitou se atenderá o pedido, mas outro sopro de novidade no que se anunciava hoje se encontra na presença do curador Tião Soares, nordestino nascido no interior do Rio Grande do Norte e fundador e atual vice-presidente do Fórum para as Culturas Populares e Tradicionais. Sua presença atende ao objetivo do secretário de reforçar a presença das chamadas culturas populares na programação da Virada (e provavelmente também o propósito várias vezes reiterado por Juca, de criar uma festa forte de São João na maior capital do Brasil). Não à toa, termos como “roda de samba”, “arte de rua”, “cultura negra”, “cidade fantasma”, “túmulo do samba”, “pagode”, “caipira” e “à margem” frequentaram a sessão de diálogo entre a secretaria e os jornalistas.

É cedo para afirmar, mas diversidade e pluralidade parecem ser marcas da curadoria nomeada pela secretaria, que conta ainda com os jornalistas Alex Antunes e Marcus Preto, o empresário da noite Alexandre Youssef (do Studio SP), a midiartista e professora Giselle Beiguelman, a mestre em teatro e educação Maria Tendlau e o produtor musical Pena Schmidt, diretor do Auditório Ibirapuera (leia aqui os currículos de todos os curadores). “Vamos ter que apresentar um pouco de tudo para todos”, Pena sintetizou o espírito do trabalho que o grupo tem à frente. Acompanhemos.

 

 

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