Jadielson da Silva Almeida foi assassinado na tarde de ontem, em São Vicente, litoral paulista. Cravejaram-lhe cinco tiros. A polícia diz não ter suspeitos. Mas MC Primo, celebrado funkeiro da Baixada Santista, não era um desconhecido dos policiais. Para os homens da lei, o jovem de 28 anos era um daqueles autores de letras que falam mal da corporação, chamam-os de “vermes”, fazem apologia ao crime e, talvez por isso mesmo, mereça o fim que teve. O cantor parecia premonitório: “Tá decretada a lei e é a lei do cão.”

MC Primo, funkeiro assassinado na Baixada Santista

Nas últimas eleições, MC Primo foi candidato a vereador em São Vicente pelo PSDB. Recebeu 530 votos. Mas na época ele não fazia o sucesso que faz nos vídeos do YouTube. A música “Diretoria” já tem mais de 500 mil exibições. Outras como “Máquina de Fazer Dinheiro” (apologia ao consumo) e “Longe de Mim” (amor não correspondido) irritavam menos as autoridadades policiais, ao contrário de “Espada No Dragão” (assalto a banco), “PCC Contra Ataca” (a facção criminosa) e “Desde Pivete” (a história de um sequestro). MC Primo cutucou perto demais o poder estabelecido. Mas não foi só ele.

Eduardo Antônio Lara, o Duda do Marapé, de 27 anos, foi assassinado com nove tiros em abril do ano passado. No universo dos funkeiros da Baixada Santista, comentava-se do envolvimento do colega com o consumo de crack. O local do crime fica numa cracolândia. Em abril de 2010, Felipe Wellington da Silva Cruz, o MC Felipe Boladão, e Felipe da Silva Gomes, o DJ Felipe da Praia Grande, ambos de 20 anos, foram mortos na Praia Grande, quando se dirigiam a um baile funk de Guarulhos. Eles iriam se apresentar como dois trabalhadores do mundo da cultura, isto é, músicos. Dois criminosos chegaram de moto e o garupa já desceu atirando. Nunca se soube de nada que envolvesse Felipe Boladão e Felipe da Praia Grande com drogas. Mas todas as quatro vítimas têm um crime em comum: eram idolatrados nas periferias.

Trata-se de um crime, porque é assim que o funk tem sido tratado pelo poder público e pela mídia, tanto em São Paulo quanto no Rio. Um dos gêneros que mais faz a cabeça dos jovens das periferias continua sendo perseguido. Banidos das casas noturnas e dos espaços públicos dos bairros mais afastados, ele é tolerado e até tratado como modinha, ou o hype, entre mauricinhos e patricinhas. Nas baladas ricas, viram os “permitidões”, enquanto nas zonas mais pobres são vistos como “proibidões” – embora trate-se da mesma música, da mesma dança, da mesma alegria.

No Rio, com a chegada das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), os bailes funks estão desaparecendo. Na favela da Rocinha, apenas um sobrevive – antes da chegada da polícia, eram cinco. O motivo é que não se pode mais realizar uma festa de funk sem autorização expressa das UPPs. Foi na Cidade Maravilhosa e em outras cidades da Grande Rio que o funk prosperou desde os anos 1980. Virou febre na década seguinte, mas caiu em desgraça com a morte do jornalista Tim Lopes, em 2002, assassinado ao ser descoberto por traficantes enquanto fazia uma reportagem sobre o uso de drogas e a prostituição em bailes funks. A criminalização se tornou regra para o gênero musical, recebendo o apelido de “pancadão”.

MC Dedê

Na Baixada Santista, que importou e renovou o funk carioca, surgiu o permitidão. Em vez de só falar da realidade violenta, como nos pancadões do Rio, a inovação foi criar letras mais neutras. Surgiram as músicas de apologia ao consumo, como “Bonde da Juju” e “Olha o Kit”, de MC Dedê, como já falamos aqui. O som do litoral paulista não tardou a subir a Serra do Mar, instalando-se de corpo e alma nas periferias. O bairro de Cidade Tiradentes, na zona leste, virou uma referência para o funk paulista. Mas, segundo a Prefeitura, já está espalhado por toda a capital, onde existem mais de 165 festas mapeadas.

O problema dessa proliferação do funk é que elas continuam à margem da indústria cultural. DJs e MCs criam suas músicas, produzem seus vídeos que viram febre na internet, tocam em bailes funks, ganham dinheiro com isso, mas o som permanece sendo visto como algo a ser banido da sociedade. Acontecem nas ruas, atraem de centenas a milhares de pessoas e avançam madrugada adentro. Autoridades públicas, como o secretário de Segurança Urbana de São Paulo, Edsom Ortega, afirmou: “Muitas dessas festas não passam de uma extensão do ponto de drogas dos traficantes.” Esse, em resumo, é o tom da cobertura midiática.

Em 26 de março, a Folha de S.Paulo publicou a reportagem “PM faz blitz para acabar com pancadão na periferia de São Paulo“. Fala da queixa dos moradores com o som alto na madrugada, dos bailes que “atraem tráfico e prostituição” e de que as pessoas honestas não podem dormir. A Veja SP seguiu na mesma toada com “Os bailes funk da pesada que acontecem na capital“. É nessa reportagem que Ortega é ouvido, e o texto afirma que a balada das periferias “entrou para a lista de problemas de segurança pública”. Há uma semana, o Jornal da Tarde arrematou com “Operação de guerra contra os pancadões“. Na reportagem, o subprefeito de Campo Limpo, onde havia ocorrido no fim de semana uma Operação Pancadão para coibir os bailes nas ruas, foi categórico: os bailes funks “estão se tornando uma praga na cidade de São Paulo”, disse Trajano Conrado Carneiro.

Irônico descobrir que as autoridades de segurança pública e de órgãos governamentais sejam sempre ouvidas na hora de criminalizar o funk, este um movimento cultural, mas todos, inclusive a imprensa, silenciam quando jovens são assassinados à luz do dia, este um caso de polícia.

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7 COMENTÁRIOS

  1. temos que dár um basta nessa violencia ,até onde vai isso meu Deus ? pra que tanta ira ? o que fizeram de tão ruim assim que tinham que perde a vida para pagar ..

  2. Tudo lindo e maravilhoso, gosto muito de funk, um pouco mais do carioca (será q é pq sou da baixada santista?), mas muito dessa história do tráfico é verdade! O funk pode ser feminista, pode ser de desafio, de denúncia, mas muitas vezes é só uma galera estimulando o tráfico e o crime e a VIOLÊNCIA. É subversivo, é. Mas o Hell’s Angels também era e muitos hippies da época não perceberam que eles só estupravam as minas e usava droga, não tinham nada de construtivo pra propor. Tem que tomar cuidado com o que defende qnd se ataca o sistema, a babilonia ou o que seja

    • Antonio, você está enxergando além, e isso é ótimo. Não estamos tampando o sol com a peneira e sabemos das relações umbilicais que muitos funkeiros e traficantes mantêm – poderia ser diferente? Não podemos abstrair a origem desses movimentos. A Baixada Santista é o celeiro, há décadas, do funk paulista, e sabemos muito bem que nos morros e periferias o tráfico organizado é quem dita as regras. Isso vale também para o Rio, onde faltamos informar que os bailes estão escasseando por conta da falta de apoio financeiro dos donos das bocas. Isto é, não é só a UPP que não autoriza. Faltam recursos que antes vinham aos montes do tráfico. Porém, vamos ignorar que há algo de muito genuíno, revelador e divertido sobre o funk? O problema é adotar, como parti pris, uma posição, que é a de puramente criminalizar o que o povo gosta, entende?

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