Músicas para Churrasco – Vol. 1, diz o título da capa. Você imagina um disco de pagode, feito de sucessos como “Isso É Fundo de Quintal” (1985), de Leci Brandão, “Vai Lá, Vai Lá” (1994), do Grupo Fundo de Quintal, ou “Camarão Que Dorme a Onda Leva” (1983), com Beth Carvalho e Zeca Pagodinho.

Nada disso.

Músicas para Churrasco – Vol. 1 (Cafuné/Universal, 2011) é o quarto disco autoral de Seu Jorge, descontados ai a estreia com o grupo Farofa Carioca (Farofa Carioca, 1998), um álbum de versões de glam rocks de David Bowie (The Life Aquatic – Studio Sessions Featuring Seu Jorge, 2005), DVDs, CDs ao vivo (um deles em dupla com Ana Carolina, de 2005) e um disco de releituras black-roqueiras de Michael Jackson, Jorge Ben, KraftwerkDorival CaymmiNoriel Vilela, Roy Ayers e Nelson Cavaquinho (Seu Jorge e Almaz, 2010, com o supergrupo Almaz).

A identidade que brota do novo disco é a já conhecida: mistura original (embora não surpreendente) de soul, samba, rock, funk, reggae e pop, que nos anos 70 poderia vir avalizada pelo rótulo genérico samba-rock (“samba-rock não existe, não é um estilo musical, não é um ritmo”, diz o especialista Leandro Lehart, “é uma classificação que os DJs faziam pra poder tocar músicas gringas nas festas”). O pagode, portanto, é, quando muito, pano de fundo para o tipo de arte que Seu Jorge cria, certo?

Nada disso.

Seu Jorge, carioca da gema, do Gogó da Ema, é pagodeiro que canta e toca funk, rock, soul, blues, samba, MPB, discotheque, pop etc. etc. etc. A banda afiada de Músicas para Churrasco está aí para isso, munida de cavaquinhos, percussões, teclados, linhas de baixo, sopros (a maioria deles gravada por norte-americanos), baterias e muitos – muitos – coros e palmas. Os coros e as palmas trazem a estrutura subliminar de partido alto, de modo análogo ao que o funkeiro Tim Maia aprendeu do sambista Martinho da Vila nos anos 70.

O samba de roda, o partido alto e o pagode de mesa transparecem também no texto, pelo tom de crônica do cotidiano que Seu Jorge já utilizara em larga escala no anterior América Brasil – O Disco (2007), em hits corriqueiros como “Burguesinha”,  “Trabalhador”, “Mina do Condomínio”… No novo CD, os títulos dos funkpagodes são autoexplicativos: “A Doida”, “Véia”, “Vizinha”, “Amiga da Minha Mulher”, “Japonesa”…

Ex-morador de rua que ascendeu socialmente a ponto de ir parar em Hollywood, Seu Jorge não aprecia a retórica da penúria, nem aceita o confinamento de temas geralmente imposto aos de sua origem social, geográfica e racial. Sua música acompanha sua escalada social, e é por isso que lhe faz mais sentido falar hoje da “Mina do Condomínio”, da “Burguesinha” e da “Japonesa” que do orelhão de São Gonçalo que estava escangalhado em 1998 (“São Gonça”, do Farofa Carioca) ou da van lotada de 2003 (“Tem Espaço na Van”, parceria gravada por Ed Motta).

O fato de Seu Jorge saber o lugar que merece e que lhe é de direito incomoda muita gente? Incomoda. Desde pelo menos “A Carne” (do Farofa Carioca, parceria com Marcelo Yuka, aquela dos versos crus “a carne mais barata do mercado é a carne negra”), ele mostra que sabe lidar com isso de frente.

Evolui junto com ele, no entanto, o modo de reagir ao incômodo dos outros – aos preconceitos raciais, eu quero dizer. Em vez de compor novas versões de “A Carne”, ele compõe o mundo que o cerca no dia de hoje, e o faz com desconcertante sinceridade. É difícil descrever como menos que transparente um samba-rock como “Amiga da Minha Mulher”, até mesmo na leve (leve?) misoginia que contém (“se fosse mulher feia tava tudo certo/ mulher bonita mexe no meu coração”): “Não pego, eu pego, não pego, eu pego, não pego, não/ minha mulher me perguntou até qual é, qual é?/ eu respondi que não tô nem aí, menti, menti”.

A canção termina e o  não-dito fica praticamente dito: “O meu cunhado já me avisou/ que se eu der mole ele vai me entregar/ a minha sogra me orientou/ isso não dá certo, é melhor parar/ falei, ela não quis ouvir/ pedi, ela não respeitou/ eu juro, a carne é fraca, mas nunca rolou”. Parece fútil, banal (talvez seja), mas o que o caboclo está dizendo, em firmes linhas tortas, é: tenho esposa, sogra, cunhado, família, paquera, casa, comida, farofa, churrasco.

Os temas para tocar na laje no próximo fim-de-semana vão se somando, num fundo de quintal funkeado, rockificado e aburguesado. Ora o narrador dribla (ou não) as gostosonas que lhe dão mole (“A Doida”, “Dois Beijinhos”, “Vizinha”). Ora as canta infamemente (“Japonesa”: “Quero ser seu tamagoshi”, “anteontem comi o seu sushi”). Ora resmunga a independência da esposa (“se quiser contigo é desse jeito/ e eu vou ter que me adaptar/ eu posso até rever os meus conceitos/ mas tenho o direito de reivindicar/ fica mais em casa pro seu bem, minha véia”). Ora celebra a amizade masculina (“Meu Parceiro”: “Ele é família/ é braço, é sangue/ é shock, é brother”). Ora celebra, e ponto final (“Dia de Comemorar”).

O final do disco é novamente desconcertante: o pagode de Seu Jorge se inverte todo e termina deprê, com “Quem Não Quer Sou Eu”, canção de fossa tipo “a raposa e as uvas”: “Tirou onda, pois agora quem não quer sou eu”. Além de ter sogra, parceiro e papagaio, o narrador que veio do Gogó da Ema também sofre. Ele é igualzinho a você, ponto-e-vírgula.

Noves fora a décima canção, o pagode de Seu Jorge é tão alegre, ligeiro e bem-humorado quanto os de Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra ou seu primo de sangue Dudu Nobre. Não deve ser tomado como tal pelos primos do samba, porque é mais universal que regional, mais pop que samba, (bem) mais urbano que suburbano. Retrata o homem como ele é, não como já foi ou como uns e outros preferiam que fosse para sempre.

O pagode de Seu Jorge pode acontecer no Morumbi, na presença da norte-americana Sharon Jones (como já nos contou aqui Jotabê Medeiros), com jam de soul, jazz, blues, rock’n’roll. Mas é pagode, farofeiro e churrasqueiro (e ainda é só o volume 1), colorido e por inteiro, brasileiro por excelência, sob as bênçãos de São Tim Maia. É por essas & outras que Seu Jorge pode tirar onda e profanar o branquelo britânico Bowie – com a aprovação do próprio. Como diria Sabotage (e/ou Helião, Charlie Brown Jr., MV Bill), respeito é pra quem tem.

 

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