
Conheci Vladimir Sacchetta, jornalista, pesquisador e criador da Companhia da Memória, por conta de um trabalho que marcaria minha trajetória. Era 2005, e eu tinha recebido da editora Boitempo uma encomenda: escrever um perfil biográfico de Florestan Fernandes. O livro Florestan – a inteligência militante deveria integrar a coleção Pauliceia, que estava, à época, sob sua coordenação.
Eu já era leitor de Florestan (tinha vários livros dele grifados em casa, embora não lembrasse por que tinha feito isso) e, portanto, aquele sobrenome, Sacchetta, não me era estranho. Sabia que o pai, Hermínio, havia sido um grande jornalista e um militante fundamental da esquerda socialista — e trotskista — brasileira. Também sabia, já não me lembro por que caminho, que Vladimir havia feito a pesquisa de imagens dos livros de Fernando Morais e Elio Gaspari.
Vladimir não me conhecia pessoalmente; talvez me lesse no Estadão, onde trabalhei de 2000 a 2003. Fui encontrá-lo em seu escritório, na rua Capote Valente. A conversa foi ótima. Ele me contou detalhes da personalidade e da vida de Florestan, sem peias. Indicou fontes, cedeu documentos, entrevistas completas que haviam sido publicadas de forma resumida em revistas, fotos etc.
Ficamos horas conversando. Num dado momento, ele me mostrou uma nova edição de O Livro no Brasil, de Lawrence Hallewell, que acabara de receber. Era uma edição enorme, e perguntou se eu conhecia o livro. Disse que sim, mas não a nova edição, e o abri. Nesse momento, uma casualidade me fez involuntariamente farsesco: por puro acaso, ou talvez porque meus olhos fossem mais rápidos que meu cérebro, parei numa página que citava uma reportagem minha numa nota de rodapé. Não foi, mas pareceu ensaiado. Fiquei com medo de que ele achasse que eu já sabia disso e tivesse tentado me exibir.
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QUERO APOIARBesteira: ele achou bacana, e seguimos a prosa por mais um tempo. Vladimir fez uma seleção primorosa de imagens para o livro, a começar por aquela do sociólogo em sua formatura, jovem, que, segundo Ivana Jinkings, a editora, se parecia comigo. Eu não achava isso, embora tenha de reconhecer que nossas sobrancelhas, enormes, de fato tinham algo em comum.
Por meses, Vladimir me ajudou na pesquisa, ajudando-me a marcar conversas com Ivan Valente, Antonio Candido e Luiz Eduardo Greenhalgh — dos que me lembro. Também era uma fonte confiável para checar alguns fatos, pois foi um dos assessores mais próximos de Florestan.
Sacis
Quando o livro ficou pronto, logo identifiquei um erro de concordância no começo do primeiro capítulo, fruto de um ajuste de última hora que fiz no texto. Fiquei envergonhadíssimo, passei uma noite sem dormir, sobrevalorizando o problema. No dia do lançamento, Vladimir, obcecado por sacis — ele me ensinou que há proximidade, mas também diferenças de fundo entre as sociedades de criadores e as de caçadores de saci —, lembrou um ensinamento de Monteiro Lobato.
Lobato, biografado por Vladimir, Márcia Camargos e Carmem Lucia Azevedo em Furacão na Botocúndia, foi um dos fundadores da moderna edição brasileira e costumava dizer que todo livro escondia seus sacis — erros que escapavam de autores, revisores e editores durante todo o processo editorial, mas que saltavam assim que o livro impresso era aberto. “Seu livro não tem saci, Haroldo, é impressionante!”
Eu, que já tinha visto aquele erro no primeiro capítulo, falei:
— Ah, eu já achei um, mas não vou te contar hoje, só daqui a um mês.
Quando deu um mês, liguei para Vladimir. Ainda envergonhado pelo erro de concordância, menti para ele:
— Olha o índice. Agora confira com as páginas de abertura dos capítulos. Está tudo errado.
Vladimir deu uma gargalhada e falou:
— É, um saci dos grandes, mas ninguém vai notar. Só você mesmo.
A editora, num dos ajustes do projeto gráfico, esqueceu de atualizar o sumário.
Ivana, tenho certeza, percebeu e não me contou, no que fez bem. Eu também não cobrei dela; esses erros acontecem, e um livro sem erros é mais ou menos como uma floresta sem curupira: pode até existir, mas não tem graça nenhuma.
O fato é que, um ou dois anos depois, meu livro foi sugerido para uma compra governamental. O parecer foi bastante elogioso, mas acabou não recomendando a compra, porque o edital em questão era para o ensino fundamental II, e o livro, segundo o parecerista (concordei com ele), seria mais adequado para o ensino médio. O parecerista, no entanto, fez uma ressalva: havia um descompasso entre o que dizia o sumário e a numeração das páginas…
(A primeira tiragem do livro ainda não se esgotou, e quem o comprar agora pode conferir a veracidade de tudo isso.)
Nunca mais deixei de me encontrar com Vladimir, como se a gente já se conhecesse, mas não se visse. Fizemos duas viagens juntos a São Carlos, onde estava o acervo de Florestan Fernandes, uma antes e outra depois do lançamento do livro, e ele me apresentou João Pedro Stédile e a Escola Nacional Florestan Fernandes.
Em 2008, Sacchetta selecionou 23 imagens de sacis imaginados por grandes artistas brasileiros, que publiquei no UOL, junto com uma entrevista — que, graças à instabilidade da memória digital, desapareceram. Até acho a URL do álbum dos 23 sacis, mas não as imagens nem a entrevista.
Sempre era uma alegria encontrá-lo, e com frequência ele reclamava que a editora Alameda, da qual sou editor, não publicava todos os livros em formato digital — ele preferia ler no Kindle a ler no papel.
Vladimir me contou coisas incríveis sobre seu pai, em especial sobre o apoio que Hermínio e seu grupo trotskista deram à ALN (Ação Libertadora Nacional), de Carlos Marighella. Essa informação me levou a tirar da estante um livro de Jacob Gorender, Combate nas Trevas, de quem sempre fui admirador, que narra outros detalhes desse apoio. Hermínio armou, com Marighella, um esquema para burlar a censura e publicar, no Diário da Noite, de Assis Chateaubriand, jornal que dirigia, a íntegra de um manifesto da ALN transmitido pela Rádio Nacional, emissora tomada numa ação espetacular de propaganda.
Hermínio foi interrogado, ficou preso por alguns dias e perdeu o emprego. Mas, diante do risco que correu, até que foi barato. Marighella seria chacinado pouco tempo depois por agentes da repressão. A ditadura nunca desconfiou de que Hermínio não apenas burlara a censura, mas também ajudara a garantir que a ação da ALN tivesse ampla repercussão.
A partir dessas informações, também conversei muitas vezes com Valentim Facioli, meu orientador de doutorado, que fez parte do grupo de Hermínio. Valentim me contou também o clima de uma reunião em que, pouco antes de cair, Marighella tentou convencer o grupo de Hermínio a aderir à ALN. Os militantes do Movimento Comunista Internacionalista, no entanto, resistiram à pressão de Marighella, que militara no Partido Comunista com Hermínio nos anos 1930, antes que o trotskista fosse expulso da organização.
A conversa entre Marighella e Hermínio Sacchetta não resultou na fusão, mas seguramente aquela negociação, de certa forma, antecipava a aliança que diferentes grupos de esquerda construiriam na fundação do PT, em que stalinistas e trotskistas baixaram bastante as armas que apontavam uns contra os outros em torno de uma construção coletiva.
Vladimir era um dos mais importantes pesquisadores colaboradores do CEMAP, Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa, da Unesp, que guarda documentos fundamentais da história da esquerda brasileira.
Tenho vontade de ficar aqui horas contando histórias que ele me relatou nos poucos encontros que tivemos, bem menos numerosos do que eu gostaria. Formado em Direito pela Universidade de São Paulo, narrou, por exemplo, a aproximação que os grupos de esquerda fizeram em torno de Otavio Frias Filho, herdeiro da Folha de S.Paulo, na velha Faculdade do Largo São Francisco — um movimento que teve papel importante no engajamento do jornal, outrora porta-voz da ditadura, na campanha das Diretas Já.
Recentemente, 20 anos depois do lançamento do livro que fizemos juntos, alguém do MST me procurou em busca dos originais e da autorização para usar uma das fotos que estão na obra. Vladimir foi rápido e, mais uma vez, solidário: mandou o arquivo em alta resolução e fez um pedido: por favor, deem o crédito ao arquivista.
O velório de Vladimir ocorre neste sábado, 16, das 10h às 12h, no Galpão do MST, na alameda Eduardo Prado, 474, na Barra Funda, zona oeste da capital paulista. De lá, segue para a cerimônia de cremação na Vila Alpina, na avenida Francisco Falconi, 437, no Jardim Avelino, zona leste da cidade.




