
Acumulando já 13 anos de carreira discográfica, Anitta segue perseguindo a meta de lançar um álbum que faça jus ao título – em outras palavras, que passe de um amontoado de singles (daqueles que ela lança às pencas, entre dez e vinte por ano, desde 2017) e transmita algum recado menos individual que coletivo. Depois de inaugurar sua discografia com três apanhados de músicas pop inconsequentes em português – Anitta (2013), Ritmo Perfeito (2014) e Bang! (2015) –, a artista carioca de Honório Gurgel optou por se concentrar no lançamento ininterrupto de singles, que a consolidaram como artista de presença mundial e a primeira estrela pop brasileira da era do streaming.
Depois de Bang!, Anitta demorou quatro anos para voltar ao formato álbum e voltou com o errático Kisses (2019), misturado entre inglês, espanhol e português. Errático, Kisses foi largamente reconhecido como desabituado a lidar com o antigo fetiche conceitual que acompanhou a existência do formato álbum de longa duração desde seus primórdios, nos anos 1950. O internacional Versions of Me (2022), o funkeiro hispânico Funk Generation (2024) e o fragmentado Ensaios da Anitta (2024/25) tatearam por tentativas de elaborar conceitos rudimentares, incompletos, sempre sabotados por um cenário em que o interesse mercadológico por coleções pensadas e encadeadas de canções virou fumaça virtual diante da virtualização total da música.
Agora, aos 33 anos, Anitta volta a se ancorar principalmente na língua portuguesa, pela primeira vez desde a fase pré-internacional, numa proposta de encontro com uma unidade conceitual, que ela trata como busca por equilíbrio, ou melhor, Equilibrivm. O objeto unificador mais imediatamente apreensível no sétimo álbum de estúdio da artista é a substituição dos anseios por dinheiro, fama e poder pela busca espiritual (em forma, como sempre, de música pop palatável).
Os excessos hipercapitalistas raramente são explicitados em Equilibrivm – o único momento-ostentação acontece em “Deus Existe”, quando a narradora aluga ou compra uma casa em frente ao mar para descansar, levar os cachorros para passear e dar beijos de língua em seu amor. “É qualidade de vida/ passei o dia inteiro com a minha família/ equalizei a batida/ pela janela vi nascer um novo dia”, reza “Deus Existe”, acompanhada pela banda de reggae chamada… Ponto de Equilíbrio.
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QUERO APOIARDe resto, a ostentação em Equilibrivm ocorre no sentido oposto, tanto nas músicas como no material audiovisual que acompanha algumas delas, com referências e imagens abundantes de natureza – águas, floresta, bichos, figurinos de folhas, fogo, terra… O culto à natureza vem atrelado à exaltação do imaginário religioso afro-brasileiro, com citações e vestuários de diversos orixás em grande parte das canções, como “Desgraça”, “Mandinga”, “Caminhador”, “Ternura”, “Nanã” e a afro-indígena “Choka Choka”, essa última em dueto com a colombiana Shakira.
A chantagem religiosa aplicada por 300 mil (supostos) fãs que a abandonaram quando apresentou o videoclipe candomblecista de “Aceita” (2024) funcionou ao contrário: Anitta dobrou, triplicou e multiplicou a aposta e espalhou referências apaixonadas às religiões afro-brasileiras por boa parte do álbum, e não só. Misturam-se em Equilibrivm, intensa e algo caoticamente, imagens e citações sacro-profanas a Oxalá, Exu, Oxum, Nanã, Ewá, Pombagira, mantra budista, igreja católica, sexo, búzios, Ossanha, Omulu, caboclos de maracatu, pretas e pretos velhos, acampamentos ciganos, urucum, rios, cachoeiras, amor, retiro, paz etc.
Em canções quase sempre coletivas, assinadas por dezenas de compositores e produtores diferentes, é impossível saber quem fez o quê (a inteligência artificial ainda não assina autorias), mas a marca da paulista Liniker parece evidente na bela “reza forte” de “Caminhador”: “A vida nem sempre foi fácil/ mas eu sou do tipo que vê no que dá/ e olha no que deu/ tudo que era meu veio me buscar/ (…) caminho com a minha dor/ caminho, e o caminho se abrirá”. “Ternura”, misto de canção de amor e chamado a mamãe Oxum, escancara uma expectativa de cura: “A sua doçura me cura/ só a sua ternura pra me salvar”.
A suingada e enérgica “Bemba” é a única faixa assinada por apenas dois autores, um deles o pagodeiro baiano Magary Lord. Além do refrão de evocação ao semba ancestral do ritmo brasileiro por excelência, quiabos, milhos, pimentas e feijões-de-corda emolduram uma louvação também geocentrada às comidas de santo “vatapá, macassá, abará, Bahia”. No clipe da canção de maldizer “Desgraça”, que abre Equilibrivm, Anitta se alterna entre o branco ritual à la Clara Nunes e o vermelho de Exu e Pombagira, enquanto exorcista um vodu amoroso (ou outro) não-nominado: “Cruzou sete encruzilhadas só pra me encontrar/ me deu sete saias pra me impressionar/ pulou sete ondas no dia primeiro/ já é fevereiro, e eu não vou voltar/ nem por um milagre você me merece/ vê se me esquece, não vai adiantar/ se eu sou teu sonho, você é pesadelo/ já passou seu tempo, trate de acordar/ (…) tu perdeu meu amor, e rezo pra não achar/ pra onde tu vai não vou, desgraça”.
Um fio condutor soma algumas linhas de ação confluentes em Equilibrivm. Disposta a valorizar o imaginário feminino, Anitta convoca um elenco de convidadas de nível, quase todo afrocentrado, com a mineira Marina Sena (em “Mandinga”), as baianas Luedji Luna (“Bemba”) e Melly (“Ternura”), as fluminenses King Saints (“Nanã”) e Ebony (“Vai Dar Caô”) e as já citadas Liniker e Shakira. As exceções masculinas são o paulistano Rincon Sapiência (em “Nanã”, incorporado em orixá, ao lado de King Saints), o grupo carioca Ponto de Equilíbrio (“Deus Existe”) e o trio fluminense Os Garotin (“Caso de Amor”).
Paralelamente à afirmação feminina, os elementos indígena e africano são sobressaltados, inclusive em termos musicais . Aqui, somam-se a musicalidade afrobrasileira e o culto da memória histórica da música brasileira. “Mandinga”, por exemplo, sampleia o refrão “vai, vai, vai, vai” do afro-samba “Canto de Ossanha” (1966), de Baden Powell e Vinicius de Moraes“, levando-o a outras direções: “Vai, vai, vai, vai/ que eu não vou em mandinga de ninguém/ foi mamãe que ensinou a vigiar/ não vou morar nas asas de ninguém/ nem me apequenar pra te agradar”.
“Nanã” parte do refrão do mantra afro-baiano “Cordeiro de Nanã” (1977), do fenomenal trio setentista de candomblé pop Os Tincoãs, sincronizando a devoção à orixá feminina (“sou de Nanã”) a atabaques de candomblé e à convocação proferida por King Saints: “Desacelera, sai dessa tela/ (…) volta pra base, barro e terra”. O timbre modesto da voz de Anitta desfavorece Nanã, que na origem era cantada ritualmente pelo uníssono masculino de Tincoãs encabeçado por Mateus Aleluia. “Varias Quejas”, por fim, verte ao espanhol o afropop “Várias Queixas”, menos no original samba-reggae de 2012 pelo Olodum que na versão bossa-perfumaria de 2019 do trio Gilsons.
“Varias Quejas”, em arranjo pop-bossa, marca um ponto de virada em Equilibrivum, que fratura sua unidade e torna o álbum bipartido. A partir dessa faixa, voltam as habituais iscas pop em espanhol e inglês, ou em espanhol-inglês (“So Much Love”, em que os dois idiomas se intercalam sem fronteira), com ênfase para o sambinha caribenho “Pinterest” e para o pastiche “Choka Choka” (“choka choka cuerpo con cuerpo, boca con boca”), cujo clipe é ambientado em território indígena (ou “toca de cabocla”, como rima a canção assinada por 11 autores).
Ambicionando mercados ao redor do planeta, Anitta precisa agradar muita gente diferente ao mesmo tempo, e esse é o fator que não permite a Equilibrivum ser um álbum conceitual com início, meio e fim. Os atabaques da penúltima faixa, “Meia-Noite” (“depois da meia-noite eu vou sair porque a rua é logo ali/ o meu lugar é lá, deixa ela passar”), tentam restaurar a ambiência afro-brasileira, mas o álbum deixa vários fios desencapados em seu encerramento.
Não pela primeira vez, a tarefa auto-imposta se perde pelo caminho da caminhadora, e o álbum termina com um aceno para o lado oriental do planeta Terra, num discurso declamado por Anitta, mas não escrito por ela, de acordo com a lista de autores, Sobre atmosfera etérea de cítara indiana (executada pela dupla paulista Emanazul), derrama-se um palavrório positivo a pregar a busca do justo meio (como diria o então ministro Gilberto Gil) entre excessos, extremos e extremismos.
No final do discurso que belisca auto-ajuda e ideário new age, encolhe-se a curta parte musical da última faixa, que se detém a repetir sem descanso a frase “tô buscando algo mais que o ouro”. Ironicamente, a busca de equilíbrio se conclui pela palavra “ouro”, numa faixa chamada “Ouro”, arriscando fazê-la parecer mais o oposto ao que pregação por equilíbrio pretende advogar. A determinação e a valentia sobrepujam o discurso coeso e o equilíbrio em Equilibrivm.




