
“É a vida/ é assim/ sim, eu me arrependo de tudo”, diz uma das últimas letras conhecidas de Alvin L, que morreu no domingo, 5, aos 67 anos. Nascido baiano em Salvador, mas registrado carioca, ele se fez notar a partir do final dos anos 1970, nas faces múltiplas de compositor, letrista, guitarrista, líder de banda de rock, escritor e cantor de presença discreta, mas marcante no cenário competitivo do pop-rock dos anos 1990 e adiante.
Em sua pré-história, tocou numa banda de covers montada pelo roqueiro carioca veterano Serguei e formou grupos do underground carioca batizados de Vândalos, Brasil Palace e Rapazes de Vida Fácil, das quais só a última deixou registro gravado (e esquecido) na indústria fonográfica local.
Os Rapazes de Vida Fácil lançaram apenas um compacto, testado pela multinacional PolyGram em 1983, em tempo de explosão do rock new wave à brasileira, com “Adriana na Piscina” e “Má Reputação” e Alvin no comando dos vocais. “Batom roxo na boca, tatuagem de celofane na coxa/ com ilusão de ótica se enfeita/ Adriana na piscina/ e o cloro agindo na sua retina”, dizia a segunda, descrevendo uma musa 100% new wave, bem no espírito daquele tempo de nomes como Gang 90 & Absurdettes (cuja integrante Alice Pink Pank toca no compacto dos Rapazes), Eduardo Dussek e João Penca e Seus Miquinhos Amestrados.
A presença de Alvin L ficou imperceptível ao longo dos 1980, e quem primeiro o iluminou (como compositor), em 1989, foi a banda roqueira brasiliense Capital Inicial, então em crise de pré-dissolução. Alvin foi trazido pela banda para ser parceiro de Dinho Ouro Preto e demais integrantes na faixa-título de Todos os Lados (“meio louco, meio covarde/ vivendo leve quase pela metade/ nada disso tem a ver com vontade”), em “Mickey Mouse em Moscou” (“ninguém mais vai jogar flores mortas no muro/ ninguém mais vai pichar frases fortes no escuro”) e em outras cinco faixas.
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QUERO APOIARDessas, “Belos e Malditos” foi buscada dos meados dos anos 1980 no repertório experimental do Brasil Palace. Era uma parceria de Alvin com Renato Russo, cuja banda de partida, Aborto Elétrico, se desmembrara em duas, Capital Inicial e Legião Urbana. No princípio, Alvin permaneceu indistinto nesse microcosmo brasiliense-carioca-paulistano. Com melodia refeita pelo Capital, “Belos e Malditos” veio ao mundo como um baladão folk na mitologia sexo, drogas & rock’n’roll: “Belos e malditos/ feitos para o prazer/ os últimos a sair/ os primeiros a morrer”, “eles brincam com fogo/ sabem queimar”.
Quase sempre formulada em versos simples e diretos a gosto do pop de multidão (e quase sempre envolta por tédio juvenil sem-causa), a associação Alvin-Capital Inicial prosperou, deu a Alvin lugar de letrista fixo da banda e rendeu vários sucessos para o Capital: “Todas as Noites” (“todas as noites são iguais/ os meninos satisfeitos/ e as meninas querem mais”), “Chuva” (“será que é tão difícil dizer/ aquilo que você sente?/ será que você diz a verdade/ ou então você mente?”) e “Kamikaze” (1991), “Eu Vou Estar” e “Terceiro Mundo Digital” (1998), “Quatro Vezes Você” (“o que você faz quando/ ninguém te vê fazendo/ ou o que você queria fazer/ se ninguém pudesse te ver?”) e “Olhos Vermelhos” (2002), “Não Olhe pra Trás” (2004), “Aqui”, “Eu Nunca Disse Adeus” e “A Vida É Minha (Eu Faço o Que Eu Quiser)” (2007), “Vivendo e Aprendendo” e “Eu Quero Ser Como Você” (2010)…
Em 2000, o Acústico MTV do Capital Inicial estourou as paradas musicais, inclusive em três hits inéditos com as marcas de Alvin: o já citado “Todas as Noites” (“meia noite/ noite inteira/ três, quatro e cinco da manhã/ eu vou embora/ mas eu sempre volto atrás/ porque as noites são todas iguais”), o rock de fossa “Tudo Que Vai” e a até hoje célebre “Natasha” (“sem amanhã, por diversão, roubava carros/ era Ana Paula, agora é Natasha/ usa salto quinze e saia de borracha”), regravada pelo Capital em 2022, com Marina Sena encarnando Natasha na terceira pessoa.
Com o passar do tempo. a parceria virou linha de montagem (com Alvin não raro se responsabilizando pelas letras de álbuns inteiros do Capital Inicial), que durou toda a vida do compositor. Em 2025, o Capital Inicial lançou a última composição conhecida de Alvin L, a romântica “Você Me Ama de Verdade?”, com partes coincidentes com a antiga e esquecida “Xuxuzinho” (1987), de Rita Lee: “Com corpo, alma e coração/ como Josefina e Napoleão/ sem engano, sem rodeio, sem razão/ como Maria Bonita e Lampião”.
Prestes a voar, com Marina Lima
Uma identidade mais particular e menos indistinta começou a se fixar quando Alvin foi autor solitário de “Eu Não Sei Dançar”, que não interessou ao Capital Inicial e veio a se tornar o hit máximo do álbum de 1991 de Marina Lima (ao lado de “Acontecimentos”, dela e do irmão Antonio Cícero) e um dos hits nacionais do ano. O tédio juvenil começava a ser substituído por sensualidade e engenhosidade poética. “Eu não sei dançar/ tão devagar/ pra te acompanhar”, cantava Marina, contra-intuitiva, sexy e surpreendente, num momento em que a mais completa roqueira dos 1980 se abria para toques dançantes/eletrônicos e maior complexidade musical. “E tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar ou outra coisa pra lembrar”, prossegue Marina, cantando um tédio mais adulto que o do Capital Inicial e instigando a propensão do até então roqueiro aos baladões de atmosfera densa.
Só por “Eu Não Sei Dançar”, Alvin já cumpriria papel determinante na transição de som & imagem de Marina, mas em 1993 ela voltou à carga e gravou mais dois achados do autor, “Stromboli” (dele sozinho, mais um tirado do baú do Brasil Palace) e “Deve Ser Assim” (em trio com Marina e Cícero, “o céu deve ser assim/ o céu deve isso a mim”). “Stromboli” transita entre o extemporâneo, o exótico e o ferino: “O mundo se divide nos bons e nos maus/ e nos dez mais elegantes/ nos livros da estante/ e ela dançando à beira do abismo/ e ela dançando à beira do vulcão”. “Todos eles querem/ fama, poder, dinheiro e diamantes/ flashes excitantes”, prossegue “Stromboli”, num registro ambivalente entre a repulsa e o fascínio por fama, poder, dinheiro etc.
A associação com Marina prosperou em mais uma do tempo do Brasil Palace, “Casa e Jardim” (1995, “eu queria ficar triste/ mas não consigo parar de rir/ é como perder a cabeça/ e nunca mais achar/ ou como passar dos limites/ e ficar por lá”), e em uma versão sagaz para “Beautiful Red Shoes” (1989), da vanguardista Laurie Anderson, chamada “Vestidinho Vermelho” (2006, “um vestidinho vermelho/ que botei pra você ver/ um sapatinho novinho/ que combina com você/ 500 graus de febre/ e a maré só faz encher”).
Marina e Alvin também começaram a compor juntos, e daí surgiram “Arquivo II” e a classuda “Na Minha Mão” (1998); “Fala (Não Cala)” (em dueto com Alvin) e “Paris-Dakar” (2001); “Sugar” (“e a vida pode ser feliz/ mesmo por instantes/ mesmo por um triz”) e “A Não Ser Você” (2003, ambas também com vocais dele); “Motim” e “Kilimanjaro” (2021). “Um sujeito assim/ imprevisível/ que eu fui escolher pra gostar/ ah, ele vai de um ás de espadas ao oito de paus/ ah, que venha em paz/ descanse em caos”, canta “Kilimanjaro”, no estilo pansexual “você precisa de um homem pra chamar de seu mesmo que esse homem seja eu”. De quebra, o êxito inicial da associação Marina-Alvin gerou as condições para um voo (quase) solo de Alvin L, iniciado quando ele formou uma nova banda, em 1990.
Sex Beatles, road rock e “Automobília”
Se Alvin tinha composto “Chamando Todos os Carros” (1991) com o Capital Inicial, chamou-se Automobília (1994) o álbum de estreia de sua banda Sex Beatles, em óbvia referência cruzada entre o pop-rock dos Beatles e o punk rock dos Sex Pistols. Produzido por outro legião urbana, Dado Villa-Lobos, que pilotou o lançamento por seu selo independente Rockit!, Automobilia mostra-se mais Sex Pistols que Beatles e ilumina a outra cantora-compositora da banda, a gaúcha/alagoana Cris Braun. Mais declamando que cantando, Alvin mostra sua voz apenas na introdução de “Hemingway” e em “Escorpiões”, ferozmente crítico e autocrítico: “As palavras saem/ escorregando da sua boca/ carregam veneno/ nos pequenos detalhes/ caem na minha mão/ escorpiões pelo chão/ são meus escorpiões de estimação”).

Os temas de carros possantes da jovem guarda de Roberto Carlos são transtornados por Alvin nos road rocks “Automobília”, “Psicomotores”, “Na Direção” e “Hemingway” (todos assinados por Alvin, nos dois primeiros casos em dupla com outro integrante da banda, Vicente Tardin), de novo menos ligadas à juvenília que à vida adulta (e loka). “Pense depressa, eu me rendo se você me alcançar”, canta Cris em “Psicomotores”, em clave próxima à de “Eu Não Sei Dançar”, antes de proferir uma das declarações de princípios dos Sex Beatles: “Nós temos tempo/ só precisamos de nós/ ultrapassamos nossos próprios heróis”. “Minhas unhas derrapam no seu rosto/ vulgaridade também é uma arte/ e o seu erro foi achar/ que um sinal fechado podia me parar”, diz a faixa-título, que como de praxe na obra de Alvin se serve dos automóveis como metáfora, e não como paixão falocêntrica pela velocidade.
Entre o espírito beatnik e a rebeldia punk, Alvin L expressa não só o desejo de ultrapassar os próprios heróis, mas também a angústia da influência resultante da existência dos ditos cujos (o que ficará transparente no segundo e último álbum dos Sex Beatles, Mondo Passionale, de 1995). Em meio às habituais metáforas (“acidentes de automóveis/ pneus cantando pra você e pra mim/ entre as ferragens rebeldes de terno/ revoluções em tergal e marfim”), “Hemingway” abre o jogo: “Hoje eu sei/ onde eu errei/ se houver outra vez/ quero ser Hemingway”.
Cris Braun é co-autora de apenas três das dez faixas do primeiro CD, “Más Companhias” (“ninguém é tão inocente com um corpo assim/ levante a saia, dispare os canhões/ sempre sorria com más intenções/ nove entre dez maus elementos/ preferem as más companhias”), “Na Trilha de Salinas” (“e ele adorando sentir mãos estranhas/ no meio das pernas”) e “…E Seu Namorado Também” (“isso é que dá/ querer quem já tem alguém/ se você estiver com ele não precisa vir… sem/ quero você/ e seu namorado também/ dizem que dois é bom/ mas três é demais/ se ele quiser ir na frente/ eu vou logo atrás”).
Seu papel principal, no entanto, é o de front woman, um pouco ao estilo da Debbie Harry à frente da banda new wave estadunidense Blondie, conferindo aos Sex Beatles uma tonalidade de banda feminista na automobília nada ingênua. “Quem ela pensa que é/ Marilyn no samba com um pé na corda bamba, mulher/ na direção”, coloca-se “Na Direção”, entre citações a Marilyn Monroe e à Mona Lisa. “Onde ela pensa que vai/ dirige com os dentes, conseguiu ficar de frente pra trás/ na direção/ nua com uma arma na mão”, conclui o rock de ornamentos feministas bem mais comuns hoje em dia que em 1994.
Sex Beatles, art pop-rock e “Mondo Passionale”

Também produzido por Dado Villa-Lobos em seu selo independente, o segundo álbum (tristemente indisponível nas plataformas de streaming) flagra os Sex Beatles em estado de graça. De novo, Alvin predomina na composição e Cris, nos vocais (a voz dele só é audível em coros nesse CD). Ouvida retroativamente, a faixa inicial, “Essa É a Sua Vida” (de Alvin com Leoni), parece antecipar as dificuldades que Alvin, Cris e os Sex Beatles teriam com a roda da engrenagem, perguntando (muito antes de Paulo Ricardo na abertura do Big Brother Brasil) “o que você faria por amor”, “o que você faria por dinheiro”, “o que você faria por prestígio”. “A vida é uma linha muito fina/ será que todo mundo tem seu preço/ o que você faria em desespero?”, indaga por fim “Essa É a Sua Vida”.
A mordacidade de Alvin L transborda de rocks cantados por Cris Braun como o punk “Péssima” (“eu nem preciso levar você pro mau caminho/ eu fico aqui, você vai sozinho/ se você pensa que eu já disse tudo/ você não viu nada, nada/ pode ser bem pior/ quando eu sou péssima/ eu sou muito melhor”), “Freiras Lésbicas Assassinas do Inferno” (lançada em versão punk no ano anterior por Dinho Ouro Preto, “lá vem a tropa de salto alto/ usando botas feitas/ de sangue e asfalto/ dobermans disfarçados/ de freiras assassinas/ busto 112/ viciadas em aspirina”) e “Eu Nunca Te Amei Idiota”. Essa última, regravada por Ana Carolina em 2001, adiciona cinismo ao romantismo de escárnio e maldizer dos trovadores de séculos passados: “Cinzeiros voando, livros rasgados/ discos quebrados no chão/ desta vez é pra sempre/ até alguém implorar por perdão/ eu escondi seu retrato/ embaixo do meu travesseiro/ vá embora, quebre a cara/ eu queimei seu dinheiro/ eu nunca te amei, idiota/ eu nunca te amei”.
Enquanto a regravação de “Stromboli” na voz de Cris Braun ganha uma levada mais roqueira, a faixa de encerramento, “Tudo Que Você Queria Saber Sobre Si Mesmo (E Tinha Medo de Perguntar)”, pertence à mesma linhagem de escárnio e auto-escárnio de “Eu Nunca Te Amei Idiota”: “Eu adoro seus defeitos/ são tantos que eu não sei por onde começar/ eu adoro seus problemas/ são tão grandes que eu não sei onde eles vão parar”.
Em Mondo Passionale, a angústia de influência goteja do baladão climático “Cary Grant” (“o mundo devia ter inveja de mim/ e não sabe/ ninguém pode ver o que eu vejo/ do meu lado de olhos fechados/ ele parece Cary Grant/ enquanto dorme”) e do road pop-rock mais brilhante e resplandecente gravado pelos Sex Beatles, “Viva Miami”. Entre Blondie e Andy Warhol, é uma canção art pop rock transparente na fixação de uma figura feminina (decadente) idealizada sobre fragmentos de Debbie Harry, Rita Lee, Baby do Brasil, Sonia Braga e Mata Hari. “Dizem que era loura, alta e meio violenta, tem 27 desde 1970/ mudou de endereço e nome/ se chama Viva Miami/ e agora mora na sua cama”, canta Cris, na única faixa do disco em que aparece como coautora, “dizem que posou prum Portinari/ falsificado, acabou chorare/ num sítio hippie fumando no futebol/ dizem que dançava sem sapatos/ quase nua no Studio 54/ fingiu não ver a foto no jornal/ dizem que era ruiva, magra/ e meio sardenta/ faz dry martinis com querosene e água benta”.
Por baixo da angústia de influência debochada da faixa-título assinada solitariamente por Alvin (“hey, Doris Day, cadê o final feliz?”, “hey, Baudelaire, cadê o amor eterno?”), vem à tona uma realidade mais dura e melancólica, talvez de marcha à ré a uma juvenília existencialista, tipo rebelde sem causa: “E eu aponto um revólver imaginário pra mim mesmo/ toda vez que eu me lembro das coisas que eu já fiz”. Com ou sem os demais Sex Beatles nas composições, é peculiar o modo como Alvin L idealizava o discreto charme da figura feminina – que poderia ser cis, trans, drag, travesti etc. Marina Lima, mais uma vez, se encaixa à perfeição na figura de musa altiva desenhada pelo poeta pop.
Folk rock, enfim solo
Os Sex Beatles não se tornaram célebres a despeito (ou talvez por causa) das qualidades que tinha e se dissolveu depois de Mondo Passionale. Em seguida, Alvin L e Cris Braun iniciaram carreiras solo por pistas paralelas, que talvez fossem se cruzar no infinito. Ela lançou Cuidado com Pessoas Como Eu (1998), pelo efêmero selo Fullgás, criado por Marina dentro da gravadora PolyGram, no qual incluiu uma composição de Alvin, o baladão de dor de cotovelo “Dry Martini Drama”: “Era só o meio da tarde/ era só um vale de lágrimas/ um dry martini era só/ só tempestade”. Antes disso, em 1997, ele assumiu a condição de cantor em Alvin, com respaldo da também multinacional BMG/Ariola, sob produção do então estrelado Liminha e sonoridade suave de folk-rock eletroacústico (mas como sempre forrado de solos afiados de guitarra.

Com 13 canções autorais compostas quase sempre solitariamente e uma regravação (a festiva, maliciosa e afro-folkeada “Iko Iko”, um créole rhythm’n’blues tradicional de Nova Orleans), Alvin começa bem, pelo folk rock ritmado “24 Dias por Hora”, entre a automobília juvenil e a dor de cotovelo: “Já não se fazem mais carros como se fazia/ já não se realizam desejos como quem deseja gostaria/ ouvindo a grama crescer, eu devia saber ir embora/ e não deixar você ver meu corpo tremer de vontade/ 24 dias por hora”. O blues conduz várias faixas, em especial “Praia dos Cocos”.
O álbum passeia por melodias inspiradas e letras tomadas pela fossa, de “Setembro” (“agora é setembro/ e não adianta afogar as minhas mágoas/ depois que elas aprendem a nadar”), “Inverno” (“se não chover todos verão/ o inverno no seu corpo coberto”), “Alguma Prova” (parceria com Marina mais tarde também gravada por ela, “em todo lugar existe alguém/ querendo o que não tem/ toda hora alguém perde a cabeça/ esqueça”), “Ele” (“eu rolo escada abaixo/ ele fala em mulheres”). A angústia de influência, sempre ela, aparece na ótima balada “Aprender”, que cita (“um pesadelo com”) Brigitte Bardot, Frank Sinatra e o “lado B” do Ziggy Stardust. Pela primeira e única vez fica nítida a forte influência de David Bowie sobre Alvin, tão maciça quanto a de Debbie Harry sobre Cris Braun.
Entre as inéditas, Alvin constrói (boas) versões de autor para composições lançadas por Capital Inicial (“Alguém Como Eu”), Marina (“Eu Não Sei Dançar”) e Sex Beatles (“Hemingway”, “Tudo Que Você Queria Saber Sobre…”). Apesar da adesão momentânea da indústria fonográfica, a carreira solo de Alvin L não decolou, e não se ouviu mais a voz dele de 1998 para cá (exceto por lapsos como “Kilimanjaro”, com Marina, em 2021). Cris, por sua vez, seguiu compondo e gravando, em geral, um repertório mais introspectivo que as canções da juvenília sex beatle. Marina Lima e Capital Inicial à parte, Alvin e Cris foram integrar o pelotão volumoso dos antes chamados lados B do maquinário musical. Fica latente a resposta às perguntas de “Essa É a Sua Vida”: não fariam qualquer coisa por fama, dinheiro, poder – e é exatamente isso que os manteve e mantém no lado menos iluminado da Lua.
A maior agitação em torno do nome de Alvin L aconteceu no período pós-“Eu Não Sei Dançar”. O foco de luz jogado por Marina atraiu um enxame de outras intérpretes, e ele compôs canções sólidas (embora obscuras) para Vânia Abreu (“No Meio da Noite”, 1995), Clara Moreno (“Podia Ser Você”, 1996), o trio soul-pop Sublimes e Belô Velloso (ambas gravaram “Menos Carnaval”, parceria com Cris Braun, em 1997), Leila Pinheiro (“Pra Dizer a Verdade” e a bela “Pra Nos Lembrar”, ambas fossas novas de 1998, a segunda uma parceria inédita Marina-Alvin, de versos rotundos como “eu conheço todos os seus medos/ parece que são meus/ deve ser como ter dois pés esquerdos/ e falar com Deus”), Ana Carolina (“Perder Tempo com Você”, 1999), Katia B (“Framboesas”, 1999), até os improváveis Sandy e Junior (“Alguém Como Você”, 2007). Com Ana Carolina, Alvin compôs a emblemática “Eu Comi a Madona” (2006): “Ela tava demais, peito nu com cinco ou seis colares/ me fez levitar em meio aos sete mares e me pediu que lhe batesse, lhe arrombasse, lhe chamasse de cafona, marafona, bandidona/ fui eu quem bebi, comi a Madonna“.
No front masculino, Alvin virou favorito de sua geração e firmou parcerias (mas não hits, via de regra) com Humberto Effe, Lulu Santos, 14 Bis, Toni Platão, Ira!, Frejat, Ritchie, George Israel, Leo Jaime, Leoni. Rock-símbolo desse pelotão é “Homem Não Chora” (2001), por Frejat, esboço/rascunho de uma figura masculina menos frágil e mais autoconfiante que a média dos anos 1980 e 1990: “Meu rosto vermelho e molhado/ é só dos olhos pra fora/ todo mundo sabe que homem não chora/ não chora, não”, canta Frejat no blues-rock “Homem Não Chora” (2001). Em menor escala, a geração 1990 aderiu aos serviços de compositor de Alvin L em parcerias com LS Jack, O Salto e Autoramas.
“Eu Não Sei Dançar”, em particular, cruzou fronteiras geográficas (em 1993, foi gravada solenemente pela portuguesa Eugénia Melo e Castro) e furou barreiras entre o rock e a MPB, ao ser regravada por Milton Nascimento no álbum Crooner (1999).
Mais uma vez Sex Beatles: sim, eu me arrependo de tudo

Desaparecido como artista de frente e desacelerado como compositor nestes anos 2020, Alvin L deixa como canto de cisne um single de 2022, com duas músicas inéditas marcando a volta infelizmente efêmera dos Sex Beatles. “Oui Je Regrette Tout” e “Dance Comigo” são, ambas, composições solitárias de Alvin L, cantadas pela voz de Cris Braun, hoje bem mais grave e curtida em tonel de carvalho.
“Oui Je Regrette Tout”, totalmente em francês, zoa a hegemonia do culto à diversidade nos século XXI: “Vive la indifférence”. Vem acompanhada de divertidíssimo videoclipe, que soma à caveira pop da capa de Mondo Passionale os esqueletinhos dançantes encimados pelas cabeças dos velhos Sex Beatles, e inverte a máxima de Édith Piaf (a angústia da influência, sempre ela) edificando um libelo de (in)conformismo mascado em pop bubble gum: “É a vida/ é assim/ sim, eu me arrependo de tudo”.
Longinquamente aparentado de “Eu Não Sei Dançar”, o exuberante rock “Dance Comigo” critica as redes antissociais, evoca o tédio (não mais juvenil) de sempre e emparelha Dostoiévski, Proust e Renato Russo, combinando inspiração e nostalgia: “Dance comigo/ crime e castigo/ dance comigo/ em busca do tempo perdido”. Agora não temos mais o tempo, que passou. A relativa invisibilidade de Alvin L, Cris Braun e tantos outros é o furo na matriz que confirma a eficácia da engrenagem.





