Quebrando uma TV com os pés em Braddock, uma das piores séries do cinema de ação. Foi assim que Chuck Norris (1940-2026) conquistou a eternidade. A cena da TV despedaçada virou meme, revisitada na era das redes sociais com uma constância maior do que as reprises de Adam Sandler.

Pastiche de outros brutamontes famosos, Norris chegou aos cinemas sempre como um produto de segunda mão. Isso, que deveria ser sua ruína, acabou sendo o que lhe garantiu a sobrevida e faz com que tenhamos de falar de sua morte aos 86 anos, após vida de aposentado no Havaí. O primeiro Braddock só veio dois anos após Rambo, de Sylvester Stallone, com sua sanha revisionista em relação ao Vietnã, ao Camboja e outros teatros de guerra mal-sucedidos das Forças Armadas norte-americanas, das quais era egresso (foi soldado da Força Aérea). Seu rosto avermelhado de expressão única (e barba esfoliada) também apareceu já nos anos 1970, bem depois da consagrada máscara de chumbo de Charles Bronson em Era Uma Vez no Oeste (1968). Os filmes eram produções B, mal-ajambradas, com elenco histriônico. Steven Seagal talvez seja o único a equiparar-se em canastrice, mas Seagal teve a seu favor a vantagem de ser mais cara-de-pau nos espancamentos macarrônicos.

O que credenciou Chuck Norris a Bruto B do cinema ideológico é talvez sua maior qualidade: faixa-preta de karatê, ele era realmente um lutador de primeira linha quando na ativa. Essa intimidade com as artes marciais transpareciam nas cenas de luta, mas seus concorrentes mais diretos, como Jean-Claude Van Damme e Steven Seagal, também vinham dos tatames, o que anulava eventual vantagem. O primeiro filme a levar seu nome nos créditos mostra um enfrentamento antológico: ele encara o lendário Bruce Lee no inaudito cenário do Coliseu de Roma no filme O Voo do Dragão (1972), num duelo até um pouco desleal – tem os pelos do peito arrancados com as mãos por Lee, numa espécie de preconceito tonyramosiano pouco elegante.

Filmes ruins, como Comando Delta, Comando Delta 2 – Conexão Colômbia, Braddock 3 – O Resgate, Braddock – O Super Comando e Braddock 2 – O Início Da Missão, acabaram vencendo na imaginação do Terceiro Mundo pela quantidade. Tão presentes nas salas de cinema do interior, em desembarque maciço, que parecem ter se incorporado à própria ética das populações, essa moralidade armada que hoje suamos tanto para extinguir. De tudo, sobrou uma simpatia pela tosqueirice de Norris, um tipo de intimidade que até autoriza as piadas da despedida. Tão até dizendo que ele não morreu, foi só foi ali jantar o capeta na porrada e em três dias volta.

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