Com mais de 29 milhões de seguidores no Instagram, 25 milhões de ouvintes mensais no Spotify e 6 bilhões de streams, o DJ Alok é a estrela do Carnaval 2026 da pequena Vigia de Nazaré, cidade de 50 mil habitantes no Pará, contratado por 950 mil reais pela prefeitura local. O prefeito é Job Júnior, do MDB. Uns 150 quilômetros mais adiante, em São Miguel do Guamá, também no Pará, a banda Calcinha Preta vai animar o Carnaval 2026 por 600 mil reais. O prefeito é Eduardo Pio X, também do MDB. Outro Carnaval animadaço é o de Marituba, também no Pará (Grande Belém), 130 quilômetros à frente, que contratou o cantor pernambucano Henry Freitas por 750 mil reais para a festa. E o grupo Os Caras do Arrocha vão tocar 250 quilômetros adiante, em Breves (PA), por 400 mil reais. O prefeito de Breves é Xarão Leão, também do MDB.
O governo do Pará é do mesmo partido, MDB, mas o fenômeno da multiplicação dos cachês não é só paraense. Em Tutoia, no Maranhão, os artistas Solange Almeida (ex-Aviões do Forró) e Vitor Fernandes foram contratados por 420 mil e 350 mil, respectivamente, para se apresentarem no Carnaval 2026 da cidade. Há casos no interior de Minas e São Paulo também. Todas essas contratações dispensam licitação, obviamente. Um dos motivos para que municípios de receita modesta consigam fazer contratações milionárias de artistas de renome, em claro descompasso com os números de desenvolvimento daquelas cidades, são as emendas parlamentares. Sem controle de racionalidade, sem fiscalização, turbinam interesses políticos (e outros mais pragmáticos) de políticos regionais. No orçamento do Congresso, as transferências especiais, as chamadas “emendas Pix” (recursos destinados diretamente às prefeituras) girarão em torno de R$ 7 bilhões em 2026, segundo a Agência Câmara de Notícias.
Para os políticos, a visibilidade e o retorno público garantidos por um grande evento como as festas de rodeio e o Carnaval são inegáveis. O DJ Alok, por exemplo, foi confirmado como estrela do próximo Rock in Rio Lisboa no dia 20 de junho. A apresentação marcará os dez anos desde a estreia de Alok no festival. Seu cachê é realmente alto – a Caixa Econômica Federal, por exemplo, está patrocinando o Carnaval 2026 do grupo de afro rock BaianaSystem com 700 mil reais. A questão é o descompasso entre o que um município arrecada e destina para educação, saúde ou infraestrutura e o que está pagando por um show de duas horas.
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