Guarda Civil Metropolitana, polícia a serviço de Ricardo Nunes, imobiliza artista do Contêiner em violenta tentativa de reintegração de posse de espaço cultural

A Guarda Civil Metropolitana (GCM), polícia subordinada à Prefeitura de São Paulo, promoveu na tarde desta terça-feira, 19, uma violenta tentativa de reintegração de posse do Teatro de Contêiner Mungunzá, complexo cultural e social independente localizado no centro da cidade de São Paulo. Nos últimos 9 anos, o Contêiner (instalado em um prédio anexo ao terreno em que ficava o muro que cercava a Cracolândia, na Luz) se converteu em um dos principais esforços de recuperação de uma área urbana degradada, com mais de 4 mil atividades artístico-sociais realizadas no período.

Primeiro, mantendo equipes e membros da ONG Tem Sentimento sitiados no local, impedindo o acesso aos objetos pessoais dos trabalhadores da cultura do espaço, e depois fazendo uso até de spray de pimenta, a polícia alegava cumprir ordem judicial. Os gestores do teatro rebatiam, mostrando que há um inquérito em curso no Ministério Público que visa responsabilizar autoridades e impedir a ação, que pode ser irreversível se levada a cabo. “Vocês não têm vergonha de se prestar a esse papel?”, afirmou uma atriz que a GCM tentava retirar do espaço. A prefeitura quer desapropriar a área com a justificativa de querer implantar ali um programa habitacional.

A ação da Prefeitura de São Paulo é a segunda movimentação truculenta contra espaços de artes cênicas da capital paulista. Em fevereiro, a administração municipal mandou demolir, de forma acintosa e ao arrepio da legislação de patrimônio, o tradicional Teatro Vento Forte e a escola de capoeira Angola Cruzeiro do Sul, no Parque do Povo, no Itaim Bibi. O ato violento de hoje se reveste de maior cinismo quando se nota que foi realizado exatamente quando se celebra o Dia do Artista de Teatro. Artistas, público e simpatizantes prometem manter uma ocupação permanente a partir dessa quarta-feira, 20, para impedir a demolição.

Após a demolição do Vento Forte, o secretário de Cultura do prefeito Ricardo Nunes, Totó Parente, chegou a se comprometer publicamente com a reconstrução do complexo do Parque do Povo. Até hoje, entretanto, nada avançou. Os gestores do Teatro do Contêiner desconfiam do mesmo intento em relação à ação desta terça – a maior preocupação que a prefeitura demonstra tem sido em atuar para satisfazer empreendimentos imobiliários privados e seus planos de investimentos nas áreas de usufruto coletivo e de promoção da cidadania. Não há registro, nem no auge da ditadura militar, de uma administração pública que tivesse investido com tal sanha destruidora contra espaços culturais.

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“O Teatro de Contêiner precisa ser replicado como política pública, e não aniquilado”, protestou o ator Mateus Solano. “A prefeitura de SP quer ‘revitalizar’ expulsando cultura! O despejo do Teatro de Contêiner Mungunzá é mais um ataque ao povo: em vez de somar moradia + cultura, escolhem o autoritarismo. A prefeitura prova que não sabe governar para gente, só para concreto”, afirmou o vereador Jilmar Tatto, da oposição a Ricardo Nunes.

Ainda esta noite, o Ministério da Cultura e a Funarte, organismos do governo federal, emitiram nota de repúdio à ação policial empreendida pela prefeitura de São Paulo. “Em ofício, até agora sem resposta, enviado ao prefeito Ricardo Nunes pela ministra da Cultura Margareth Menezes e pela presidenta da Funarte Maria Marighella, foi solicitada a ampliação do prazo dado pela Prefeitura para o despejo do coletivo artístico de sua sede, de modo a permitir que os entendimentos iniciados junto à Superintendência do Patrimônio da União para a busca de um novo terreno pudessem resultar positivamente”, diz a nota. “Lamentamos que o uso da força tenha substituído a continuidade do diálogo em prol da arte e da cultura, que cumprem papel relevante junto à comunidade do centro da capital paulista por meio da atuação do Teatro de Contêiner, da Cia Mungunzá e da ONG Tem Sentimento. Reforçamos nosso apelo para que o prazo seja ampliado e a negociação pacífica retomada com a maior brevidade possível”.

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