
José Castilho Marques Neto, ex-secretário nacional do Livro e Leitura, reúne ensaios que colocam o livro e a leitura no centro das discussões políticas contemporâneas
Qual o poder das palavras e qual sua relação com os outros poderes? Esta é a quase pergunta que nos provoca a leitura de O Poder das Palavras e Outros Poderes – Leituras Compartilhadas (Selo Emília/Solisluna Editora), de José Castilho Marques Neto, ex-secretário nacional do Livro e Leitura no segundo governo Lula e um dos mais ativos militantes do livro no Brasil.
A obra de Castilho reúne uma seleção de textos publicados no jornal Rascunho, de Curitiba, dedicado à literatura. As colunas começaram a ser escritas durante a pandemia da covid-19 e, de lá para cá, não foram interrompidas. Filósofo de formação (professor da Unesp) e editor por vocação (seja na sua própria editora, a Kairós, nos anos 1980, seja à frente da Editora da Unesp, antes de ser diretor da Biblioteca Mario de Andrade na gestão Marta Suplicy e integrar o governo Lula), Castilho é um discreto agitador, que reúne em torno de suas ideias movimentos os mais diversos no mundo da leitura. Seu esforço militante resultou em leis e normas, das quais a mais importante é a do Plano Nacional de Leitura e Escrita.
Sob intensa mobilização, da qual o autor do livro participou e que muitas vezes dirigiu, nasceram leis nacionais, estaduais e municipais para o livro, tentando por algum sentindo nas ações do setor público brasileiro para a área.
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QUERO APOIARO livro transita por temas como a conquista e a perda de leitores, registrada pelas pesquisas Retratos da Leitura, e a defesa da cultura como um motor para quebrarmos a lógica neoliberal.
Como se trata de um livros de ensaios curtos, os temas são múltiplos e poderiam levar para uma simplificação excessiva, se fosse tratar de todos eles. Vou me prender, então, a dois. O terceiro, chamado “Hemorragia”, e o último, intitulado “Contra a cultura trapaça”.
“Hemorragia” parte de um fato importante na história da cultura médica: a publicação de De Motu Cordis, do médico inglês William Harvey. “Contradizendo a medicina tradicional que vigorava no século XVII”, Harvey demonstrou o funcionamento do sistema circulatório e o movimento do sangue pelo interior dos vasos sanguíneos. “Portanto, há quase quatro séculos que a medicina sabe o que significa a palavra hemorragia.”
Castilho parte, então, para o mundo da leitura, e classifica como hemorragia a piora nos indicadores de leitura da pesquisa Retratos da Leitura 6, mostrando que, com os governo Temer e Bolsonaro, de 2016 a 2022, tudo piorou. “Mesmo com a experiência acumulada por cinco edições anteriores e com a temperança que caracteriza a minha vida pessoal e profissional, o sentimento mais profundo que tive, assim como o dos colegas analistas, foi de indignação. Como uma grave hemorragia de uma tragédia sem surpresa para o observador da política nacional, o país perdeu, a partir de 2016, milhões de leitores/as, após obter o número de 16,5 milhões de novos leitores revelados pela mesma Retratos na sua quarta edição, de 2015.”
Embora não tenha diminuído em números absolutos, o Brasil passou de uma população de 56% de leitores em 2015 para uma população de apenas 47% de leitores em 2022 – de acordo com os critérios da pesquisa, que não mudaram no período. É uma perda de nove pontos percentuais, um desastre em termos demográficos.
Aliado a isso, o período Temer-Bolsonaro representou também uma queda no total de leitores entre os estudantes do Fundamental 1. Ou seja, passamos a matar a leitura no berço.
O último ensaio de Castilho no livro não trata de Brasil, mas da destruição representada pelo neoliberalismo a partir da década de 1990 e do poder que a cultura pode ter num processo de reconstrução da solidariedade internacional. A partir de duas entrevistas, uma de Alfred de Zayas, professor de direito na Escola de Diplomacia de Genebra, outra de Edimilson de Almeida Pereira, na aula inaugural de um curso, promovida pelo Instituto Emília.
Zayas aponta nos anos 1990, em especial no governo de Bill Clinton e no apoio da Europa a suas políticas, o fracasso na possibilidade de desarmamento aberta pelo fim da União Soviética. “Ao optar por aumentar a presença da Otan nas fronteiras russas, quebrando o acordo firmado, Clinton recusou a concordância da Rússia para o desarmamento. Segundo Zayas, o fez com apoio dos governos europeus, comprovando mais uma vez que, desde muito tempo (para não dizer sempre), somos governados por dirigentes desconectados das realidades”, escreve Castilho.
Pereira, por sua vez, explica Castilho, acredita que a ideia de “mediação que busca o consenso entre múltiplas concepções, iniciada nos 1990”, está perdida atualmente, e urge resgatá-la. “No mundo das desinformações e de divergências aparentemente irreconciliáveis, e tendo por base uma fina análise das diásporas africanas passadas e contemporâneas”, escreve Castilho, “Pereira nos apresenta uma outra perspectiva que escapa ao pensamento ocidental hegemônico e que se afasta dos raciocínios que impõem uma divisão antagônica entre duas partes que se opõem”.
No mundo de hoje, Castilho, aderindo à tese de Pereira, acredita que “negar a lógica dicotômica dos conquistadores abre a possibilidade de pensarmos a partir de uma ‘cultura global de errâncias (da Afrodiáspora)’ e da necessária absorção de uma multiplicidade de culturas dos territórios”.
Aí entram leitura e a literatura: “É a literatura e o processo literário que podem exprimir o real e um outro real imaginado, projetado, desafiando o pensamento lógico provindo do positivismo europeu que aponta o que é bem e mal”.
Os ensaios de Castilho colocam esse gesto de ler e escrever no centro do debate político não apenas como ideias, mas como ação prática de construção de alternativas. “As lutas por uma sociedade eticamente responsável e justa estão vivas e inacabadas. Não é possível desistir”, conclui.



