
Um dos artistas mais inventivos e consistentes da geração 2010-2020 do pop brasileiro, o cantor, compositor e ator piauiense de Teresina Getúlio Abelha desliza por uma pista muito particular e, em geral, desabitada pela música brasileira. Ele concilia e/ou confronta o forró nordestino tradicional alçado aos céus pelo pernambucano Luiz Gonzaga com o forró eletrônico/universitário dos anos 1990-2000, o tecnobrega/eletrobrega paraense, o pop perfeito de qualquer lugar e o mais desbragado orgulho gay, lésbico, bissexual, trans, travesti, queer etc.
Se Gonzagão estilizava o cangaço à moda de Lampião em forma musical, Getúlio Abelha acrescenta ao rico cenário nacional atual a figura da “bicha cangaceira”, como ele se autodefiniu no forró transgressor “Aquenda“, de 2019. Enquanto o forró heterossexual dos 1990 tomava forma sob atos e nomes como os do grupo sergipano Calcinha Preta, com elementos de ataque predatório ao sexo feminino, Getúlio veste ele mesmo a calcinha preta, como declarou no mesmo “Aquenda”: “Prefiro usar calcinha, prefiro usar calcinha/ ela aquenda a minha neca/ e valoriza a minha bundinha”.
É com essa bagagem que ele chega ao álbum Autópsia+ (prefaciado em 2025 no formato EP, com apenas cinco faixas), sucessor de Marmota (2021). Desde 2017, quando, radicado em Fortaleza, no Ceará, iniciou-se na pista musical, foram só dois álbuns, cercados por um punhado inspiradíssimo de singles/clipes subversivos e endiabrados, tipo “Laricado” (2017, “mas é que eu tô com fome, eu vou enlouquecer/ se eu não comer comida eu vou comer você/ você vai me comer, eu vou comer você/ você vai me comer e a gente vai se devorar”), “Tamanco de Fogo” (2018, “eu não tenho uma buceta, nem por isso eu não vou dar/ ela tem uma buceta e nem por isso vai te dar/ ele tem uma buceta e nem por isso não vai dar/ ela não tem uma buceta e nem por isso vai te dar/ eu não tenho uma buceta, nem por isso eu não vou dar”) e “Vá Se Lascar!” (2020, “é que eu sou maluca e eu sou doidão/ eu quero aproveitar/ não gostou, vá se lascar/ algum dia eu vou morrer/ achou ruim, vá se fuder””). Truncado pela pandemia em 2020, Getúlio nem lançou ainda seu grande álbum, mas o futuro é promissor.
Dançante por excelência (como o próprio autor, que faz das divertidas coreografias um dos pontos altos de seus shows), “Vá Se Lascar!” é uma das várias canções de Getúlio que imprimem humor e irreverência ao eletroforró (uma vanguarda forrozeira piauiense-cearense?), listando lugares onde o narrador já dançou: mercado, trabalho, velório, avenida, busão, farmácia, igreja, inferno, pracinha, metrô, motel, banheiro, padaria, calçada, meio do mato e… na Terra plana (hahaha).
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QUERO APOIARA bordo de figurinos e cabelos sempre surpreendentes (e não raro inspirados nas personas ficcionais ruivas de David Bowie), Getúlio Abelha fermentou, assou e fez crescer seu bolo musical libertário e contestador durante a escalada fascista brasileira de 2013-2022 (e, em particular, no intervalo 2018-2022). Formou uma massa crítica de dissidentes sexuais em embate frontal com o protofascismo bolsoglobista, com uma pequena multidão de outros cantores gays (Daniel Peixoto, Thiago Pethit, Johnny Hooker, Rico Dalasam, Silva, Almério…), lésbicas (Ellen Oléria, Maria Beraldo, Lia Sophia, Aíla, Anavitória, Bia Ferreira, Doralyce, Mahmundi, Ludmilla…), drag (Pabllo Vittar, Gloria Groove, Aretuza Lovi, Lia Clark…), trans/travestis (MC Xuxu, MC Trans, Linn da Quebrada, Jup do Bairro, Catto, Assucena Assucena, Raquel Virgínia, Urias, Potyguara Bardo…).
Autópsia+ demonstra que o momento de máxima irreverência dos singles iniciais e de Marmota já passou. É vez de dar passagem para tons ora mais sombrios, ora mais adultos, às vezes ainda irreverentes, ora tudo isso ao mesmo tempo. O tom vampiresco denso de algumas das novas composições faz pensar, inevitavelmente, no conterrâneo piauiense Torquato Neto, tropicalista e soturno como esse bisneto pós-tudo atualmente radicado em São Paulo.
Os modos de forró moderno ainda prevalecem em “Brincadeira do Ossinho” (“o bagulho ficou frágil, não vai dá pra sustentar / pra botar ele pra cima algo vai ter que mudar “), “Toda Semana” (“sou opulência e solidão/ meu corpo é um corrimão”) e “Armação” (“minha cabeça agora é perturbação”). O brega nordestino de beira de rodovia ecoa nas faixas “Zezo” (um brega-rock de fossa, lírico à moda de Raul Seixas, mas, segundo ensina o parceiro maranhense Zema Ribeiro, batizado em honra ao vozeirão do ídolo potiguar de forró, bolero e brega Zezo, “o príncipe dos teclados”) e “Ranço” (lançada em single em 2023 e composta por Igor Bruno, sobre versos de dor de cotovelo como “e agora, quando sinto o seu gosto, existe um certo ranço”). Não por acaso, todas essas canções (exceto “Ranço”) integraram a versão EP de Autópsia, sem fazer suspeitar os ares mais soturnos que vinham pela frente.
Mais contida em Autópsia+, a irreverência é marca principal de “Engulo ou Cuspo“, entre o forró e o tecnobrega paraense (“fiquei bem cheirosim, saí de casa/ marquei com um boyzinho de Belém”), com participação encapetada do trio paulistano Katy da Voz & As Abusadas: “Cheguei numa festinha, o meu boy me dispensou/ eu não fiquei tristinho, fui tocar o meu terror/ eu tava animado, doido para relaxar/ encontrei uma gatinha que chegou para flertar/ falei pra ela: gata, eu tô doido pra beijar/ mas se você quiser eu posso me ajoelhar/ a gata animada começou a me abaixar/ passou alguns segundos e eu tive que pensar/ se eu engulo ou cuspo”. A “gata” em questão são as três travestis agrupadas no Grajaú paulistano: “Depois da Katy tem as abusadas/ olha só que sorte, são três mamadas/ em dose tripla é mais gostoso/ só mais uma jatada de gozo”.
O clima muda noutras faixas, como “Zé Pinguelo”, bem nordestina, mas entre jazz e o discurso e as sonoridades conterrâneas cearenses da banda Cidadão Instigado: além de remeter a “O Pobre dos Dentes de Ouro”, “Zé Pinguelo” cita nominalmente “Os Urubus Só Pensam em Te Comer”, ambas do álbum O Método Túfo de Experiências (2005), obra-prima da banda liderada por Fernando Catatau (coincidentemente, o Cidadão Instigado acaba de lançar seu primeiro álbum em 11 anos, mas esse é um outro assunto).

A morte, insinuada no título e na capa de Autópsia+, esvoaça sobre a faixa de abertura, “O Corte”, e a de encerramento, “A Cova” (depois dessa, seguem-se ainda, como bônus, a já citada “Ranço” e “Caranguejeira Satanista”, recolhida da versão em LP de Marmota). Frequentemente em sintonia com o antepassado baiano Raul Seixas de “A Mosca” (1973) e “Canto para Minha Morte” (1976), Getúlio Abelha especula em “O Corte“: “Depois que eu morrer/ eu não vou saber/ o que vão postar/ lá no meu altar”. “A Cova” funde as vertentes de fossa amorosa e morbidez até terminar numa sonzeira tipo Pink Floyd: “Vai passar, disse o ceifador/ o tempo vai curar toda minha dor/ (…) não era o que eu queria/ a cova fria/ (…) você está morto agora e eu não sei o que fazer/ deixando o breu entrar, posso abrir a porta pro ceifeiro descansar”.
Nos dois momentos maiores de Autópsia+, por fim, Getúlio Abelha aponta para direções futuras mais amplas e não necessariamente atreladas ao forró nordestino. A lírica emocional de “Espantalho“, com a brilhante Alice Caymmi entre os coautores, segue parâmetros musicais já exibidos pelo artista em “Sinal Fechado” (2020) e “Ranço”. É um baladão climático de melodia ondulante, que aborda temas mais graves que os usuais do universo gótico getuliano de moscas, larvas, baratas, aranhas caranguejeiras, múmias, morcegos e vampiros. Revelando um narrador atormentado por baixo de todo humor, “Espantalho” deslinda uma autópsia sombria: “Um espantalho, uma carranca/ o pesadelo de uma criança/ eu nunca fui isso, o que houve de errado?/ fera ferida, enjaulada/ toda uma vida desperdiçada/ não sei o que faço, preciso de ajuda”. Lírica e grave, a balada “Espantalho” deixa Getúlio mais próximo do piauiense Torquato Neto de “Deus Vos Salve Esta Casa Santa” (1968) que do cearense Falcão de “I’m Not Dog No” (1991): “Eu não me lembro de mais nada/ a minha imagem estilhaçada/ eu não era assim, eu era bonito/ no escuro gelado do quarto desarrumado/ encontro palavras e gritos abafados/ a mesa não posta, os pratos não lavados/ desespero velado, veludo lacrado”.
O outro grande momento do álbum é “Freak“, pop-forrock de grande energia, efeitos caribenhos, retoques flamencos, palavras misteriosas (“amoelequeleto”, “prululúcia”, “sarabim sarablá”…), refrão pop reluzente em inglês (“in my mind I’m not a freak”) e gravidade temática entre a abelha e a aranha: “Minha vida é uma distorção/ a atmosfera é meu chão/ e independente de onde eu esteja a dor sempre vai ser a mesma “. Aos 33 anos, Getúlio Abelha se prova, a cada novo passo, um artista brasileiro contemporâneo a ser ouvido com cuidado e atenção.



