“Você me ensinou a amar”.
A inscrição, em uma lápide embranquecida no Cemitério São João Batista, no Rio, adorna o túmulo de Adalgisa Eliana Rios de Magalhães, nascida em Muzambinho, Minas, em 13 de julho de 1945, e morta no Rio, em 7 de junho de 2007, aos 61 anos.
Embora o nome possa soar à maioria dos leitores como absolutamente desconhecido, Adalgisa teve um papel crucial na construção da mitologia do rock brasileiro. Tamanho médio, 1m67 de altura, cabelos castanhos, artista gráfica, estudante de arquitetura, ela estava em sua casa no dia 28 de maio de 1974, no apartamento 54 da Rua Voluntários da Pátria, 402, quando a polícia política da ditadura entrou e a levou para “averiguações” na sede do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Os agentes da repressão também apreenderam em sua casa cerca de 5 mil cópias do folheto ilustrado que acompanhava o disco Krig-Ha-Bandolo (Philips, 1973), clássico inaugural da carreira solo de Raul Seixas, desenhado por Gisa, como era chamada.
Namorado de Adalgisa, o compositor Paulo Coelho, parceiro de Raul no clássico disco, tinha sido preso algumas horas antes e foi ele que, sob tortura, disse à polícia onde encontraria Gisa e os agentes o levaram consigo para buscá-la. Em seu depoimento à repressão, Paulo explicou da seguinte forma a existência do folheto, que a polícia considerou “subversivo”:
“(…) a origem do folheto Krig-Ha-Bandolo prende-se ao fato de uma necessidade da divulgação do disco de Raul Seixas, e sua ideia surgiu numa reunião na gravadora Philips, aprovada por produtores e pelos artistas citados; que então, copiando-se vários trechos de vários livros diferentes, começou-se a montar o folheto, que deveria ser confuso e que fizesse menção a uma possível explicação dos textos nas músicas do disco sugerido a ser comprado”. O folheto foi desenvolvido em janeiro de 1973. Entre as referências usadas, além de personagens de HQs (Hulk, Fantasma, Mandrake, Homem-Aranha) está a saudação inicial, baseada em editorial de Aristides Miranda de Albuquerque publicado na revista Imortal.
A desenhista Adalgisa já estava sob a mira da polícia política havia alguns meses. Ficha de controle do DOPS de dezembro de 1973 dizia dela o seguinte: “Militante do PC d B, foi citada nas declarações de Douglas Alberto Milne Jones (Geraldo) como tendo abandonado o partido em 1970. Em julho de 1973, seu nome apareceu como desenhista do panfleto intitulado A Fundação de Krig-Ha, que foi distribuido clandestinamente, contendo propaganda subversiva com mensagens justapostas e subliminares”.
A repressão sequestrou Adalgisa acreditando que, sob tortura, a convenceria a entregar suas prováveis relações políticas e fornecer endereços para a consequente prisão de militantes políticos. No dia 30 de maio de 1974, Adalgisa foi interrogada durante três horas por um policial identificado como agente Araújo. Foi fichada como integrante da AP e do PC do B. Em seu depoimento, ela mencionou o próprio irmão, professor José Reinaldo Rios de Magalhães, e integrantes de um grupo de estudos políticos do PC do B (Marcos Paraguassu de Arruda Câmara, Douglas Milne-Jones e Demetre Basilis Anastasakis). Ela ainda citou Beatriz Vallandro Valle e diversas outras pessoas, mas sem dar sobrenomes – a polícia queria que ela nominasses suas relações com os partidos de esquerda e com o MR8 e a AP.
O depoimento, obtido no cativeiro, mostra a fragilidade das acusações dos agentes da repressão. Adalgisa conta platitudes à polícia, como o dia em que alguém lhe deu um exemplar do jornal Voz Operária, ou que outro alguém lhe deu um exemplar do jornal Proletário, e denotava que suas relações políticas não iam além das reuniões corriqueiras de uma vida de proximidade com o movimento estudantil.
“Que começou a ter contato com o marxismo e o movimento estudantil na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UERJ em 1965, quando cursava o 1º ano da mesma. Que em 1965 houve uma greve de 40 dias dirigida pelo presidente do diretório acadêmico da época, Jacques de Tal. Que naquela época os diretórios eram muito agitadores e havia a facilidade em se discutir marxismo, leninismo etc, nas salas de aula e salões de ping-pong. Que as pessoas que mais de destacavam na época eram: Jacques de Tal, Sylvia Goyanna, Edith Vargas, Emidio de Tal, Adir Gama, Ben Kauss, Beatriz Vallandro Valle e Rui Veloso. Que em 1965 foi convidada pelos membros do diretório para fazer parte de um grupo de estudos que se reunia na sala do diretório, que durou poucos dias, pois Jacques de Tal transferiu-a para outro grupo de estudos marxistas, que se reunia na casa de Sylvia Goyanna. Que neste grupo de estudos a depoente não se entrosou, preferindo outro dado por Mauro Malin na casa do mesmo, onde compareciam também: Milton Machado, João Vicente do Amaral Mello, Luciano de Tal (de Niterói), Edith Vargas, Rui Veloso e mais um elemento não identificado”.
Adalgisa Rios presenciou de maneira privilegiada a formação de uma das mais prolíficas células criativas da música brasileira, a parceria entre Raul Seixas e Paulo Coelho. À polícia, ela foi obrigada a identificar os namorados que teve antes de conhecer Paulo Coelho, em setembro de 1972: Hamilton José Barreto de Faria (que era da AP) e Marcos Paraguassu de Almeida Câmara (PC do B). Paulo lhe fora apresentado por um certo Rubens, amigo comum, que trabalhava com Adalgisa no BNH. Iniciado o romance, a ilustradora levou Paulo para sua casa (vivia então na Praia do Flamengo, 711, apartamento 122, em companhia de outro irmão, Luis Fernando). Após três meses de namoro, Adalgisa resolveu viver somente com Paulo, pedindo ao irmão para deixar seu apartamento. Em abril, mudaram-se para um apartamento comprado por Paulo na Voluntários da Pátria, onde a polícia a prendeu.
Num dos folhetos de Krig-Ha Bandolo recolhidos pela polícia política na casa de Adalgisa, há um bilhete dela para Paulo Coelho escrito à caneta (veja ao final deste texto) em uma das 23 páginas do encarte:
“Paulo, querido, aí vai a revistinha do R.S. (Raul Seixas). Leia com atenção, mais de uma vez, pois tem coisas que você só saca depois de já ter lido uma ou duas vezes. Guarda ela com você, porque ela é preciosa, tá? Se emprestar pra alguém, empresta com a certeza de que vão devolver, falou? Pensando bem, não existe essa de guardar, mantenha ela à vista. Ela tem é que ser lida por muita gente, para semear o mundo de ideias e imaginação, o conteúdo dela é que tem que ficar guardado na mente das pessoas”.
Paulo Coelho e Adalgisa se distanciaram definitivamente após o episódio. Durante sua prisão, foram torturados – Paulo na “geladeira”, cela mantida em baixa temperatura em que o preso permanecia nu. Ele chegou a ouvir um pedido de ajuda de Adalgisa, mas não respondeu ao apelo. Ela não o perdoou por isso, segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade. Após ser libertado, o escritor ligou duas vezes para a ex-namorada, mas não foi atendido. Destroçada pela violência política da ditadura, Adalgisa Rios sumiu da vida artística e pública em seguida. Não ganhou uma canção, como Edith, Gloria ou Cecilia, mas sua memória ainda ressoa nas esquinas da história.






