A nova secretária de Cultura do município de São Paulo, Aline Torres

O nome da nova secretária de Cultura da cidade de São Paulo, Aline Torres, foi anunciado na semana passada (substituindo o demissionário Alê Youssef) com certa surpresa e expectativa ao mesmo tempo. Mulher, negra, originária de Pirituba, na periferia da zona norte de São Paulo, ligada ao samba: tudo parecia confluir para uma agradável saudação e boa receptividade dos movimentos culturais. Um nome bom para as questões da representatividade (Aline tem efetivamente lugar de fala) e, em tese, ainda não contaminado pelas artimanhas mais sórdidas da política.

Mas, alguns dias depois, começam a surgir as contestações. Um grupo de b-boys e b-girls (dançarinos de break) de São Paulo acusa a nova secretária de intransigência, intolerância e perseguição, além de pouco tato na forma de lidar com as bases da cultura. O motivo é o seguinte: em 15 de setembro de 2017, Aline Torres dirigia o Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso (CCJ), de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, e chamou a Guarda Civil Metropolitana (GCM) para retirar, sob a acusação de depredação do local, um grupo de b-boys que ensaiava passos de break na pista do centro cultural.

Os dançarinos argumentam que Aline os expulsou do local em retaliação a uma desavença pessoal com um dos líderes do movimento, o dançarino Cleber Silva de Oliveira, que militava então ao lado dela na Juventude do PSDB (atualmente, ela é ligada ao MDB). Na delegacia, a polícia tentou convencer Aline a tratar o caso apenas na esfera administrativa, mas ela não concordou. No final, o caso não prosperou, a polícia não prosseguiu com o inquérito.

Agora, os b-boys e b-girls recuperaram o vídeo de sua expulsão e estão publicando em redes sociais. Cleber Silva de Oliveira conta que a secretária não somente o expulsou daquele treino livre de 2017, mas o proibiu de participar de toda a programação do CCJ (ele organizava havia 13 anos um evento ali). Oliveira, que começou a dançar há 18 anos no local, só voltou a treinar após a saída dela do cargo. Ele reuniu testemunhos de três funcionários do CCJ que foram exonerados logo após terem saído em sua defesa, e denuncia a ação da secretária como um caso de perseguição política e censura.

Aline Nascimento Barrozo Torres assumiu a Secretaria Municipal de Cultura no lugar de Alê Youssef, que se demitiu na semana passada. Youssef, além da rota de colisão com o prefeito Ricardo Nunes (que era vice e assumiu após a morte de Bruno Covas, não sendo o responsável pela nomeação de Youssef), apontou falta de comprometimento do prefeito com a área cultural. FAROFAFÁ pediu entrevista com ela no dia de sua confirmação, sem resposta. Também a consultou sobre a denúncia dos dançarinos de break, mas igualmente não obteve resposta.

“É, foi bem tensa mesmo a situação. Mas vamos lembrar disso sempre que pudermos”, afirmou Rodrigo Chicano Santos, que estava presente no dia da expulsão, em sua rede social. “Alguns têm a memória fraca, especialmente quando convém”, escreveu Nivea Souza. “Lembro desse dia e de outros feitos dela nesse espaço; se no centro cultural ela pintou e bordou como fosse extensão do quintal da casa dela, imagine agora”, afirmou Diego Fernandes.

Aline Torres, que foi candidata a vereadora pelo MDB nas eleições municipais recentes (teve 4.197 votos, com um investimento estimado em 3,6 milhões de reais), tem 35 anos e é formada em relações públicas. Chegou à gestão pública da cultura com as credenciais de “pesquisadora da transformação cultural do racismo e de atuação em coletivos de juventude negra”. Num momento em que o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, é denunciado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) por assédio moral, o caso da secretária de Cultura de São Paulo parece se inserir no debate em torno das estratégias de absorção e neutralização, pela política, das bandeiras afirmativas.

 

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