Joyce, Aquelas Coisas Todas, MPB
Joyce, compositora entre compositores, nos anos 1980, com Maurício Tapajós, Paulinho da Viola, João Bosco e Sérgio Ricardo

Em 1997, a cantora e compositora carioca Joyce Moreno escreveu e lançou um modesto livro de memórias, batizado Fotografei Você na Minha Rolleyflex (MultiMais Editorial). O novo livro Aquelas Coisas Todas é a reedição ampliada daquele trabalho, mas é muito mais do que isso também. A segunda parte, Tudo É uma Canção, acrescenta 51 crônicas inéditas às 32 do volume inicial. Além de saborosas reminiscências pessoais, o conjunto funciona como um inventário de mais de 50 anos de música brasileira e dos gêneros musicais pelos quais a artista tem passeado, que incluem bossa nova, samba, samba-canção, samba-jazz, sambalanço, tropicália, clube da esquina, jazz etc.

Joyce começa relembrando o início como repórter no Jornal do Brasil, função logo interrompida pela classificação num dos festivais da canção dos anos 1960. Surgem, aos poucos, histórias e memórias pessoais sobre Vinicius de Moraes, Hermínio Bello de Carvalho, Jards Macalé, Chico Buarque, Luiz Eça, João Gilberto, Tutty Moreno (seu marido), Dori Caymmi, Edu Lobo, Sergio Mendes (não nomeado), Marcos Valle, Caetano Veloso, Tom Jobim, Elizeth Cardoso, Alaíde Costa, Leny Andrade, Elis Regina, além de dezenas de outros em passagens mais rápidas. “Não achei nada mau quando descobri que estavam me chamando de ‘Chico Buarque de saias’. Ora, saias! Saias por quê? Acho que o pessoal não sabia muito bem classificar uma mulher fazendo música, naqueles anos 1960”, escreve, mostrando em 1997 um tom feminista que já existia antes (no disco Feminina, de 1980, por exemplo) e aparece acentuado nas novas crônicas.

Há crônicas especialmente divertidas, como Turnê, que constrói um Manual de Sobrevivência em Turnê (MST), no qual a autora conta pequenos segredos de bastidor do mundo dos shows. Na parte inédita, Independência ou Morte (A Vida sem Gravadora) aprofunda-se nas desavenças com as multinacionais que mais de uma vez emperraram seu progresso profissional e nos boicotes decorrentes. Na seção Influência do Jazz, Joyce ironiza o “sonho americano” e conta experiências com Jon Hendricks, Gerry Mulligan, Gil Evans, Johnny Mandel, Michel Petrucciani e Claus Ogerman, esse último proprietário, até morrer e além, de um disco de Joyce gravado em 1977, mas jamais lançado. E somam-se personagens já mortos com quem a artista conviveu: Gonzaguinha, Zé Rodrix, Sivuca, Johnny Alf, Tenório Jr., Henri Salvador, Fernando Brant, Belchior. Sutilmente, as histórias sobre Roberto Carlos aparecem nessa região do livro.

Na seção final, Feminina, Menina, a cantora, aos 73 anos, aborda a condição feminina e aquilo que fez dela uma artista quase única em sua geração, porque ao mesmo tempo mulher, cantora e compositora. Lembrando a morte da atriz Leila Diniz, em 1972, ela escreve: “Meu bebê nasceu três dias depois, de parto normal, no dia 17 de junho. É hoje uma mulher livre, como todas as minhas filhas são. Elas nem fazem ideia do que era ser mulher na era pré-Leila Diniz. Mas certamente sabem do que pode vir a ser – que é onde mora o perigo”.

Aquelas Coisas Todas. Livro de Joyce Moreno. Numa Editora, 346 págs., 59 reais.

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