Cena de Angels In America
Angels In America, peça em cartaz no Teatro Sergio Cardoso - Foto Mauro Kury

Uma peça apresentada pela primeira vez 27 anos atrás e tratando da epidemia da aids em meados dos anos 1980, em paralelo à ascensão da era Reagan, o ex-ator hollywoodiano que virou um dos mais neoliberais presidentes dos Estados Unidos. Angels in America, de Tony Kushner, é uma obra reconhecidamente histórica, mas pode soar datada nos dias de hoje ou distante da realidade brasileira. O que suscita uma questão: vale a pena encarar as suas mais de cinco horas de duração? Sim, mas a recomendação é vê-la em pedaços.

A montagem é estruturada em um díptico: O Milênio Se Aproxima, a primeira parte, e Perestroika, a segunda. Quem quiser, pode vê-la na íntegra, uma parte após a outra. Mas há vantagens em se espaçar as apresentações. Dá-se um tempo para assimilar a linguagem fragmentada do Armazém Companhia de Teatro, grupo formado em 1987, em Londrina, e com sede no Rio desde 1998. Além do texto denso, construído a partir de personagens com histórias paralelas, o Armazém fez com que Angels in America adicionasse uma camada adicional na dramaturgia. A pesquisa formal que se vê no cenário econômico e nos jogos de cenas dos atores rende reflexões que merecem ser processadas com mais vagar.

Angels in America gira em torno de Prior Walter (Jopa Moraes), um nova-iorquino escolhido por Deus para restabelecer a paz entre os homens. Mas ele tem aids, e cumprir uma missão religiosa não está entre as suas prioridades. Seu namorado Louis (Felipe Bustamante) não só o abandona, como conhece Joe (Ricardo Martins), um advogado mórmon e republicano. Este, casado com Harper (Lisa Eiras), reprimia sua homossexualidade. Joe é um submisso pupilo de Roy Cohn (Sérgio Machado), um famoso advogado, que também foi diagnosticado com aids e, pela primeira vez, descobre que não era tão poderoso quanto imaginava ser. O profeta Prior, solitário, recebe a ajuda de Belize (Zéza), um enfermeiro gay, negro e ex-drag queen. Patricia Selonk (mãe de Joe e o fantasma de Ethel Rosenberg) e Marcos Martins (O Anjo) completam o elenco.

Dirigido por Paulo de Moraes, Angels in America é uma alegoria sobre os trágicos anos 1980, mas que transpassa essa época ao tratar de temas tão universais quanto o preconceito e a homofobia, a vida e a morte, as religiões e a política, os afetos e as rejeições.

Angels in America. De Tony Kushner, com a Armazém Companhia de Teatro. No Teatro Sergio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153), até 16 de fevereiro. Aos sábados e domingos, O Milênio se Aproxima (140 minutos de duração) acontece às 17 horas e Perestroika (160 minutos), às 20 horas. Ingressos a partir de 40 reais.

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