Manu Chao em show no Ceará
O cantor franco-espanhol Manu Chao durante show em Sobral (CE), no sábado, 25 (Foto: Dan Seixas)

Estrela francesa, Manu Chao, que já está há três anos sem dar entrevistas, faz um show-surpresa em Sobral, no Ceará, para delírio dos sobralenses

No último sábado, 25, em Sobral, no Ceará, cerca de 4 mil pessoas se acotovelaram na praça São João (que recentemente ganhou uma estátua de seu filho mais célebre, Belchior) para ver um show no mínimo inusitado: uma das maiores estrelas da música multicultural do mundo, munida apenas de dois violões e um bongô, desfiava um repertório de canções indicadas ao Grammy, com sucessos estelares, emendando com canções de Pinduca, astro do carimbó paraense. O artista no palco era o franco-espanhol Manu Chao, que já ocupou o palco principal de festivais como o antigo Free Jazz Festival brasileiro e o Austin City Limits norte-americano, entre dezenas de outros pelo mundo todo.

De bermudão, chinelo, camiseta e boné, sem qualquer produção, Manu Chao tornou-se um curioso caso de um artista que rema deliberadamente contra todas as correntes. “Onde queres revólver, sou coqueiro/ e onde queres dinheiro, sou paixão”, como cantou Caetano Veloso. Ele só toca quando quer, onde quer, no momento que achar adequado. Em outubro estava na Sérvia, em novembro em Mercedes, na Argentina. Está há três anos sem dar entrevistas. As casas de show de São Paulo e Rio fariam loucuras para tê-lo em sua programação de verão, pelo caráter dionisíaco de sua música, muito embasada pelo reggae, mas Manu não se move pelos cachês, é outra energia que o alimenta. Burila e pesquisa sons enquanto se movimenta pela América Latina, um dos seus destinos prediletos – o Brasil em particular, a guitarrada do Pará em especial, a música dita brega como um condimento extra. Todo começo do ano, Manu Chao passa pelo Ceará (onde tem um filho, também músico, que o acompanhou no show de Sobral).

Em Fortaleza, Manu Chao já passou pelo estúdio de Yuri Kalil, produtor, engenheiro de som e baterista da banda Cidadão Instigado (e que já produziu trabalhos de Arnaldo Antunes, Pitty, Marcelo Jeneci, Mariana Aydar e Otto, entre outros). Não tinha intenção alguma a não ser travar conversas musicais, mas acabou deixando duas canções para serem trabalhadas por Kalil, criadas em ritmo de jam session. Ninguém sabe se ele tem intenção de reuni-las em um álbum, ou mesmo se tem planos de fazer algum disco.

A militância anti-establishment de Manu Chao, obviamente, tornou-se mais fácil após o sucesso planetário de discos como Clandestino, lançado há 22 anos e que vendeu mais de 3 milhões de cópias. A partir daquele ponto, Manu, que é filho do escritor espanhol Ramon Chao, começou a equilibrar as pretensões artísticas com sua própria inquietação política e existencial, atividade musical regular e desaparições criativas – nas quais era visto “nos bares do Rio ou Tijuana, experimentando peyote na Cidade do México ou brincando com filhos de zapatistas em Chiapas, no México”, como descreveu o jornal britânico The Guardian. Não há mais como fazer de Manu Chao um personagem teleguiado da corrida do êxito e do fracasso, mas ainda é possível ter a sorte de ele ter marcado um show-surpresa na sua cidade numa noite de sábado.

 

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