O escritor e agitador cultural Marcelino Freire. Retrato: Zema Ribeiro
O escritor e agitador cultural Marcelino Freire. Retrato: Zema Ribeiro

Teresina/PI – Mesas redondas, saraus, shows, lançamentos de livros. A Balada Literária em Teresina teve dois dias intensos, semana passada (27 e 28 de agosto), no Completo Cultural Theatro 4 de Setembro, que abriga, além do espaço que lhe dá nome, na Praça Dom Pedro II, o Teatro Torquato Neto, a Galeria Osório Jr. e o Oxente Pub.

É o terceiro ano consecutivo em que a Balada Literária chega à capital piauiense – já são 14 em São Paulo e cinco em Salvador –, graças a parcerias fundamentais, como destaca seu idealizador, realizador e curador Marcelino Freire, escritor pernambucano radicado em São Paulo desde o início da década de 1990.

Autor de “Balé ralé”, “Angu de sangue”, “Contos negreiros”, “Amar é crime” e “Nossos ossos”, entre outros, Marcelino Freire é um dos maiores agitadores culturais do país, um devotado à palavra, um escritor que não se contenta em escrever, mas que precisa tirar autores e livros da estante e levá-los ao teatro, ao bar, à rua.

Entre os destaques da Balada teresinense estavam o poeta Sérgio Vaz, idealizador e organizador dos saraus da Cooperifa, que difunde literatura e poesia na periferia paulistana, a cantora maranhense Rita Benneditto, que fez o show de encerramento do evento, e o escritor português Valter Hugo Mãe, que participou de uma das mesas mais concorridas dos dois dias.

Este ano, a Balada Literária em Teresina foi realizada em parceria com o FestLuso, o Festival de Teatro Lusófono.

Marcelino Freire conversou com exclusividade com Farofafá – em mais uma parceria com o Radioletra (ouça aqui o episódio com sua participação) – no último dia da Balada Literária em Teresina, durante a passagem de som para Teófilo Lima, que se apresentaria antes de Rita Benneditto no encerramento do evento.

ENTREVISTA A ZEMA RIBEIRO

Marcelino Freire conversou com Farofafá no Theatro 4 de Setembro. Retrato: Zema Ribeiro
Marcelino Freire conversou com Farofafá no Theatro 4 de Setembro. Retrato: Zema Ribeiro

Zema Ribeiro – A Balada Literária é realizada desde 2006 em São Paulo, há cinco anos em Salvador e há três em Teresina. Nessa trajetória do evento o que, do início pra cá, ficou mais fácil e mais difícil em fazê-lo?
Marcelino Freire
– Eita! Deixa eu lhe dizer: são 14 anos da Balada Literária em São Paulo e cada ano é um mistério. A gente é movido pela paixão, essa paixão é cega, mas ela enxerga muito bem. Enxerga as possibilidades da teimosia, as possibilidades do homenageado, é uma paixão cega, mas que enxerga além. Paulo Freire, por exemplo, que é o homenageado [ouvem-se testes da passagem de som]. Isso faz parte da gravação. Se eu fosse você eu deixava esse áudio aí que é pra mostrar que a gente está em Teresina, aqui a gente está no Theatro 4 de Setembro, é um teatro tradicional, um teatro municipal aqui de Teresina, no Piauí, onde acontece a Balada pelo terceiro ano. A gente tem a foto ali na nossa frente do Paulo Freire, que eu estava falando do homenageado da 14ª. edição. O homenageado é anunciado um ano antes. Quando eu anunciei a homenagem a Paulo Freire eu estava movido por essa paixão cega e por essa raiva, até, que estava me cegando, de dizer que nós estamos do lado do Paulo Freire e queremos afirmar o legado dele. Isso desemboca de alguma forma num boom ao redor, um boom de proteção desse grande educador, desse grande pensador, eu fico tão feliz de fazer parte desse boom de pessoas teimosas, e não esse boom de bundões que não se levanta para fazer nada. A Balada é movida por isso e se viabiliza de qualquer jeito. As dificuldades são surpresas pra mim. É como que eu vou contornar as dificuldades de cada Balada. Cada Balada tem sua dificuldade financeira, cada Balada tem um rombo que deixa no final do evento, uma coisa que muitas vezes eu cubro a Balada Literária com palestras que eu dou pelo Brasil, então eu já guardo aquele dinheirinho por que eu digo, isso aqui vai cobrir a palestra de fulano, vai cobrir a banda tal para tocar. Os artistas me ajudam muito, todos que participam, quem eu tenho mais intimidade vem sem cachê, quem eu não tenho intimidade vem com um cachê que eles não costumam ganhar normalmente. O mistério é saber que forças afetivas eu junto. Como a força afetiva é transformadora, a gente acaba transformando e fazendo. Essa Balada do Paulo Freire, a 14ª., foi um pouco mais tranquila, no sentido de que ele está sendo tão odiado no Brasil que celebrá-lo fez com que outras pessoas dissessem “eu estou junto de você e a gente quer celebrar juntos, a gente não concorda com isso que estão fazendo com ele”. Então o apoio foi um pouco mais até antecipado, de dizer assim, “olha, eu te ajudo nas passagens aéreas, eu te ajudo no hotel, eu te ajudo no traslado”. Essas forças foram muito importantes. Talvez por essa filosofia que tomou conta um pouco de um tempo pra cá, que é essa coisa do “um segura na mão do outro”, e isso nesse sentido foi bem típico desse momento em que estamos vivendo. Eu podia falar de dificuldades outras, em outras Baladas, mas eu gosto de falar do que está realizado. Estou falando contigo agora, já foi realizada a Balada em Salvador, estamos no último dia da Balada em Teresina e já vamos para São Paulo de 4 a 8 [de setembro].

ZR –Paulo Freire está sendo muito odiado hoje no Brasil por uma galera que nunca leu um livro de Paulo Freire. E por outro lado é tido às vezes como influência apenas de educadores. Você que não é um educador no sentido clássico da palavra, mas que educa através desses eventos que você agita Brasil afora, qual foi a importância de Paulo Freire para tua formação?
MF
– Olha só, na verdade eu não fui um grande leitor de Paulo Freire. Eu era um grande admirador da filosofia de Paulo Freire, isso do conhecimento vindo da terra, do conhecimento vindo de cada quintal, dessa coisa, por exemplo, que eu valorizo muito, da cultura popular, da sabedoria nata. A minha mãe era uma figura que era quase analfabeta, sabia mal assinar o nome, ler uma letra ou outra, mas era inteligentíssima, era uma mulher de uma cultura muito grande e, sobretudo de uma honestidade, de alguém que trazia nela o respeito ao próximo, trazia nela uma sabedoria muito peculiar, uma ironia básica, um texto na ponta da língua, uma musicalidade, um coração sensível pras coisas, amava Luiz Gonzaga, amava esse canto da terra em que nasceu [novamente a passagem de som se impõe]. Agora vocês estão ouvindo alguém. Olha, eu falei em Luiz Gonzaga e ele deu sinal lá de cima. Eu me identifico muito com Paulo Freire, não sou conhecedor da didática dele, ou de tudo o que ele deixou de legado, mas o que eu reconheço nele é essa revolução de um ensino que não hierarquiza, um ensino que não é um sujeito falando para um objeto, é um sujeito falando para um outro sujeito, uma sujeita falando para uma outra sujeita, de igual pra igual, que ele pregava. Eu acho isso muito importante pra tudo. Eu agora vou gravar um audiolivro, “A pedagogia da autonomia”, me convidaram para gravar, e eu estou muito feliz, estou enveredando até para descobrir como era a fala, o raciocínio, de cada palavra, de cada frase do Paulo Freire. Estou gostando da experiência de gravar. O que eu reconheço nele é um coirmão de pensamento agregador.

ZR – Uma coisa que me chamou a atenção nestes dois dias de Balada Literária em Teresina é a qualidade das mesas. Você traz temas que a gente poderia chamar de polêmicos, nesse Brasil de hoje, do culto e da celebração da ignorância, e, ao contrário de muitas outras festas literárias que a gente acompanha Brasil afora, não tem uma mesa meia boca, você trouxe literatura LGBTQI+, literatura negra, a pedagogia do artista, a própria filosofia de Paulo Freire como tema de mesa. Como é que é montar essa programação, como é o teu diálogo com os curadores da Balada em Teresina, Salvador e São Paulo?
MF
Nelson Maca, em Salvador, a Balada Literária não seria possível sem esse agitador, esse poeta que agita a Bahia. É um querido amigo, professor por sinal, professor de literatura, ele já vai à Balada há uns 10 anos, a Balada em São Paulo. Aí ele disse: “vamos fazer lá em Salvador”, e vai lá e faz, e se junta, a gente conversa muito. E Wellington Soares, desde que eu conheci aqui, no Salão do Livro do Piauí, que a gente tem parceria em muitos projetos, já foi à Balada várias vezes, e desde que homenageamos Torquato Neto em 2017, que tivemos a ideia de abrir a Balada aqui em Teresina, e tem sido assim. A gente vem pra Teresina e continuará vindo por que eu quero muito estreitar esse laço com Teresina, São Luís, Macapá [novamente a passagem de som]. Olha aí, isso tudo é Balada Literária, tem alguém treinando o som ali para alguém cantar melhor. Isso é uma equipe toda. Nelson Maca resolve umas coisas, Wellington resolve outras, então é uma batalha muito coletiva. E desde o primeiro ano da Balada que eu tenho muita preocupação de ter a presença de mulheres, a presença de todos os gêneros literários e sexuais, eu gosto de misturar, fotógrafo, artista plástico, escritor, cineasta. E mesmo assim eu observo: você estava numa mesa anterior, que a discussão da mesa é que tinha pouca mulher na Balada. Eu fui contar, até para dizer quanto mais melhor, mas será que houve uma falha nesse sentido? Fui rever e contei 105 mulheres participando das três Baladas, se você juntar o número de mulheres é maior que o número de homens, por que eu não tenho 200 e tantos convidados reunidos. Eu me preocupo toda vez que sinaliza, por exemplo, hoje sinalizaram a presença da cultura quilombola. Eu vou estreitar isso aí mais a fundo. Claro que eu posso citar vários autores e artistas negros que participaram, mas vindo diretamente de um quilombo, salvo um grande engano, ainda não teve.

ZR – São Paulo, Salvador, Teresina. Outra cidade que queira integrar esse circuito de Balada Literária, o que deve fazer?
MF
– Quem vier junto tem que ser muito louco ou muito louca. Eu recebo muitas propostas. “Por que você não faz a Balada em Vitória?”. Não é por que você não faz, é alguém que vai chegar lá e vai dizer: “vamos fazer esse negócio aí!”. Tem que ser um louco. Wellington é um louco, e Nelson Maca um louco, eu também um louco, três loucos. Aliás, três homens, estamos precisando de uma mulher que venha dizer assim: “vamos fazer essa Balada em Macapá”. Agora é o seguinte: muita gente diz “venha fazer uma Balada em Porto Alegre”. Eu não vou fazer Balada em Porto Alegre, por que Porto Alegre já tem a FestiPoA, maravilhosa, não que Teresina não tenha outros festivais, Teresina tem o Salipi, mas eu quero estreitar a conversa com Macapá, quero estreitar a conversa com Porto Velho, eu tenho umas prioridades assim, Palmas. São Luís já tem muita feira e tal, mas São Luís é bem pertinho de Teresina, vamos fazer. Você está topando? Tope, se você é o louco de lá, vamos fazer junto. Zema e Suzana [Santos, produtora e apresentadora do Radioletra], vamos fazer a Balada Literária em São Luís o ano que vem, que tal?

ZR – Boa pedida!
MF
– Mas você não respondeu minha pergunta.

ZR – [risos] Nós somos os loucos. E você como agitador cultural, idealizador, organizador, realizador da Balada Literária, mas você também é escritor, tem uma obra consolidada, super interessante, em prosa sobretudo, como é conciliar essas funções de agitador e de escritor?
MF
– [novamente a passagem de som] Olhe, já tem um ê, ê, já tem ali o nosso Teófilo Lima, é um artista de Parnaíba, está ali passando o som, som, a, voz. Então, rapaz, eu acho que uma coisa não se separa da outra, no sentido de que eu não seria muito feliz nem completo se eu só escrevesse meus livros e achasse que já tinha resolvido tudo. Não resolvi nada. Num país que se lê muito pouco eu gosto dessa articulação, dessa palavra que tira a bunda da cadeira e vai fazer alguma coisa pela própria palavra. A Balada Literária é política, eu me sinto mais político fazendo uma Balada Literária do que escrevendo. Agora, eu gosto muito de escrever, tenho pouco tempo para escrever, também tenho preguiça de escrever. Eu tenho preguiça de fazer a Balada também, por isso que eu faço [risos]. Sou tão preguiçoso que se eu não fizer, eu só fico dormindo o ano todo. Adoro dormir! Eu faço a Balada Literária para não dormir. E escrevo para acordar.

ZR – Você vem de Sertânia em Pernambuco e te radica em São Paulo em 1991 e desde então literatura, seja escrevendo ou agitando. Quando é que você desperta para a literatura, quando é que você percebe que vai ser escritor?
MF
– Quando eu percebo? Eu acho que foi quando eu abandonei o teatro, eu achava que eu ia ser um cara de teatro. Aliás, agradecer FestLuso, viu? Esse Francisco Pellé, que organiza o FestLuso, que foi nosso parceiro aqui na Balada Literária, um festival que se juntou ao nosso para realizarmos juntos este ano, ele é um louco também. Muito obrigado, Francisco Pellé! Mas por quê que eu tava falando isso? Ah, por que eu sou um cara de teatro e o FestLuso é um festival de teatro. Eu achava que eu ia ser ator. Aí, pelo profundo fracasso de não ter me tornado ator eu me tornei escritor, eu acho, por que meu texto, do jeito que ele é hoje, ele nasceu no teatro, eu escrevo pensando em teatro, eu escrevo com a palavra ali no gatilho, sabe? Uma palavra sendo oferecida para o outro. Eu gosto do teatro, o ator pega essa palavra que está em seu estado mais morto, mais inanimado, e dá vida, e oferece essa palavra para o outro. Eu acho tão lindo esse gesto solidário do teatro. E o escritor é um pouco isso. Se eu não for um escritor que comunique, que estenda essa voz, que abrace o outro com o que eu escrevo, que compactue com o outro, eu não consigo ser o escritor que eu gostaria de ser. Isso eu aprendi no teatro, o ator entrega a palavra para o outro e nunca assiste ao que está fazendo. Um ator nunca assiste ao que está fazendo. O escritor é um ato solitário, quando eu estou escrevendo não tem ninguém perto de mim, nem pode ter por que eu tenho que escrever sozinho mesmo, meu ato é um ato solitário de escrita, a entrega tem que ser solidária, o teatro me ensinou isso. Acho que a Balada Literária é algo que eu devolvo, também com esse gesto solidário. As pessoas entendem isso e são solidárias comigo também, me ajudam.

ZR – Depois de Salvador e encerrando hoje Teresina, vem a Balada Literária em São Paulo, de 4 a 8 de setembro. O que você destacaria da programação?
MF
– Eu vou te dizer uma coisa, uma coisa muito boa que vai acontecer na Balada em homenagem ao Paulo Freire lá em São Paulo é a presença de vários mediadores e mediadoras de leitura que vêm do Brasil todo. Vai ter mediadores de leitura de comunidades quilombolas, de comunidades indígenas, pessoas que trabalham ali na frente da leitura, trabalhando a leitura com jovens, crianças, adolescentes, eles vão ser os anfitriões da Balada Literária, cada um vai apresentar a atração. Mas a gente vai ter a Lia de Itamaracá falando de seus mestres e mestras. O convite a Lia de Itamaracá foi para dizer quem são os mestres e mestras da Lia de Itamaracá, a conversa vai ser nesse sentido. A gente vai ter também o Valter Hugo Mãe, que já vem passeando com a gente desde Salvador, desembocou aqui em Teresina. Tem muita coisa boa. Eu gosto muito também dum formato que são as aulas. Tem autores e autoras que vão dar uma aula, em vez de ter um bate-papo, vai ter o Ricardo Aleixo, que vai dar uma aula, vai ter a Mara Moira, que vai dar uma aula, a Patrícia Portela, uma escritora portuguesa que vai dar uma aula. A gente vai ter à volta da Mercearia São Pedro, reduto boêmio, participando da Balada Literária em conversas ali num happy hour às cinco da tarde, tomando cerveja e conversando, vamos ter a volta do Miró da Muribeca, esse poeta de rua que vai ser homenageado na Biblioteca Mário de Andrade. Agora uma coisa que eu queria muito ressaltar é que as pessoas veem a perseguição que está sendo feita a Paulo Freire, curtem a nossa mobilização para afirmação da obra dele, agora, eles precisam aparecer no evento. Você pode ver, algumas mesas de Teresina tinha pouca gente, como também em Salvador. Claro que na do Valter Hugo Mãe lotou, é um cara muito conhecido, à noite é mais fácil, por que é um dia de trabalho para um monte de gente, mas tem muita gente também que pode vir. Então uma coisa que eu digo é que em São Paulo as pessoas apareçam para abraçar a viúva do Paulo Freire, que vai estar lá presente, a Anita Freire. Vamos abraçar a viúva do Paulo Freire, que tem sofrido ofensas, até trotes de gente perseguindo o marido dela e todo o legado do Paulo Freire, então vamos deixar de ser a revolução do dedinho clicando e curtindo para ser efetivamente uma afirmação do Paulo Freire, uma afirmação de que lado que nós estamos. Essa afirmação já foi feita em Salvador muito lindamente, aqui em Teresina está acabando hoje, mas é preciso que mais pessoas apareçam e compareçam pra gente não se sentir tão sozinho. Que a gente afirme politicamente de que lado que nós estamos. Então, é uma coisa que eu digo mesmo, por que a gente faz essa Balada toda para irmanar todo mundo, e ainda mais agora que a gente tem que se irmanar. Homenagem, eu estou vendo a foto ali do Élio Ferreira, dizer do nosso homenageado aqui em Teresina, esse poeta e professor Élio Ferreira, que foi abraçado por todos daqui e está indo pra São Paulo com a gente. E a Dona Sissi, uma contadora de histórias lá de Salvador que foi homenageada. Então vamos estar todo mundo junto, é um momento de a gente ficar junto. Venha você de São Luís! Pega o ônibus!

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