O comportamento da torcida brasileira nos Jogos Olímpicos é reprovável. Os torcedores vaiam e xingam a todo momento, desconcentram os atletas e não conseguem se controlar nem na hora do hino. Tudo isso já sabemos e agora o mundo também descobriu.

Mas é um erro tomar a parte pelo todo. O pobre não vaia atleta. O pobre, que forma a maioria do nosso povo, não tem dinheiro para assistir à Olimpíada em seu próprio país. Quem vaia e xinga é, de forma predominante, o torcedor rico que pagou algumas centenas de reais para assistir às competições.

“É o torcedor turista”, resumiu perfeitamente o ex-jogador Junior, comentarista da seleção brasileira. Segundo ele, o torcedor de campeonatos de futebol tem outro comportamento. Já Galvão Bueno, que voltou ao modo ufanista de ser, não cabia em si na quarta-feira 17 de agosto ao ver as pessoas das arquibancadas gritarem “Sai do chão”. É um grito que nunca falta em um show de axé da Ivete Sangalo.

 
O Brasil vencer Honduras por 6 a 0 e se classificar para a final olímpica é motivo de comemoração? É para o torcedor turista, que pagou caro pelo espetáculo. Pouco importa se Honduras é um time que teria dificuldades até para vencer a série B do Brasileirão.

No Maracanã, ecos de “O gigante acordou” foram ouvidos. É de arrepiar, porque esse grito lembra as várias manifestações convocadas por movimentos políticos de direita, como o Vem Pra Rua, desde junho de 2013.

RenaudE não satisfeito o torcedor brasileiro desses jogos olímpicos não só vaia como invade os perfis do atleta francês Renaud Lavillenie, duplamente vaiado no Engenhão depois de sua derrota para Thiago Braz, no salto com vara. Nas redes sociais, havia xingamentos em português, francês e inglês. O que esperar de uma torcida que na Copa do Mundo pagou caro pelo ingresso e xingou impiedosamente a presidente Dilma Rousseff?

Já nessas Olimpíadas, apesar de não haver mais restrições para a aparição de cartazes ou outras manifestações políticos, eles são tão poucos que viram notícia. No dia do ouro de Thiago Braz, um solitário manifestante exibia uma camiseta contra o presidente interino Michel Temer.

“No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio”
Nelson Rodrigues

Não se ensina em lugar algum do planeta regras de etiqueta e de bom comportamento para torcidas em estádios ou ginásios. Elas são massas e agem como tais. Na Europa, jogadores brasileiros são comparados a macacos. Um erro não justifica o outro, mas é bom começarmos a identificar quem está por trás desse comportamento de manada dos torcedores brasileiros.

A TV podia ocupar esse espaço, ensinando desde lá atrás na época dos preparativos, como respeitar os ideais olímpicos. Mas não. Em vez disso, a TV se ocupou de propagandear que alguns atletas são mitos. Estão no Olimpo. O nadador americano Michael Phelps e o velocista jamaicano Usain Bolt, dois dos mais celebrados pela mídia, estão nessa categoria. Bolt manda a torcida se calar e os brasileiros no Engenhão ficam caladinhos. Já os demais atletas mortais são inimigos. E no Brasil pré e pós-golpe os “inimigos” devem ser eliminados.

Não é de se estranhar que em competições de lutas, os torcedores tenham uivado e gritado coisas como “vai morrer” para os atletas adversários. Talvez isso caiba em uma luta de MMA. Talvez nem mesmo ali. Mas esse é o tal do legado olímpico que estamos deixando para nós mesmos.

 

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