IMG_5624São 16 horas de domingo na Virada Cultural, e Valesca Popozuda ainda não chegou. Como convém a um popstar no auge, nossa Filósofa Contemporânea está levemente atrasada. Uma multidão se amassa pelo largo do Arouche afora.

Há aglomerações de fãs à espera na entrada de serviço do palco Arouche; de jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas e fãs no cercado de imprensa e convidados; de gente viva e feliz no Arouche inteiro. [email protected] queremos Valesca.

Rapidamente, o céu se torna carregado das nuvens de chumbo da senhora Iansã de Maria Bethânia. Quem chegará primeiro,? Valesca ou a chuva que não caiu na Cantareira, que não caiu durante a Virada inteira até agora?

Valesca chega primeiro – Valesca chega sempre primeiro, mesmo se estiver levemente atrasada.

Passam cerca de 20 minutos das 16 horas ela quando faz entrada apoteótica, secundada [email protected] [email protected] [email protected] na massa fina e fofa da diversidade sexual e racial, pelo próprio carisma e magnetismo, pelos versos matreiros e inteligentes de “late que eu tô passando” e “hoje eu tô solteira, ninguém vai me segurar”.

Mas, mal Valesca começou a cantar, o dilúvio despenca num jato de cólera pelo centro de São Paulo.

Talvez São Pedro ande com raiva de São Paulo, como já desconfiava São Itamar Assumpção no antigo ano de 1994. Decididamente, São Pedro anda bipolar. Às vezes seca tudo, às vezes molha tudo – e nem num dia nem no outro os políticos & a mídia de São Paulo conseguem escapulir da surra do santo que lava o chão do céu.

Talvez sejam os eflúvios sacros da micropasseata de cartazes em estilo “stop! in the name of Jesus” que circulava pelos fundos do palco de Valesca enquanto esperávamos por ela. Pois sangue de Deus tem poder contra a liberdade sexual e racial e feminina e racial, tem ou não tem?

Talvez, não, seja cativa da coletividade paulista de marra porque não gosta de funk, de funk carioca, de funkeiros, de cariocas – não somos racistas!!!

Talvez fosse menos mandinga do catolicismo e mais dos orixás, das ayabás, da Iansã de Bethânia, “tempo bom/ tempo ruim”, dos iconorixás que ornaram em neon a noite e o amanhecer da Virada no Parque da Luz.

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Talvez azinimigas de Valesca afinal tivessem mesmo aquele poder de ódio que ela tanto temia, aquele poder de rancor que nem beijinho no ombro consegue curar. Costura na boca do sapo tem poder, já cantava a velha fluminense interiorana Clementina de Jesus.

Talvez, nada disso, seja só a vida mesmo, em sua brutal normalidade e banalidade. Um dia chove, no outro bate sol. Um dia chove na Cantareira, outro dia chove na Billings. Um dia o Nordeste seca, no outro dia é o PSDB que esvazia as reservas.

Mas Valesca.

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Valesca enlouquece uma plateia preparada para o Arouche, para a lotação esgotada do megafestival democraticamente gratuito, para o vagão espremido do metrô e do trem metropolitano. Mas então chove como se não fosse haver amanhã – e quem diz que para a chuva estaríamos preparados nós, paulistas do fígado estuporado? Não estávamos.

Saímos todos correndo, apavorados – mas apavorados de quê? Da chuva? Dos granizos do tamanho de jacas (ok, estou exagerando um pouco) que batem nas nossas caras? Do frio que venta a Virada? Da chuva fria? Dos arrastões psicossociais na babel democrática paulista que é só a única coisa que a Folha de São Paulo consegue enxergar em São Paulo (e no Brasil) há 514 anos? Do sul-matogrossense Ney Matogrosso, que deu um vira-vira-lobisomem outro dia lá nas gringas, antes de voltar [email protected] para este após-calypsico pós-BraZil?

Seja quem for o bicho-papão, o céu atira pedras de granizo, de granito sobre nós, e nós fugimos apavorados para baixo da marquise. Daqui da marquise, não dá para ver o litoral sorumbático do paulistano Roger Moreira. É só chuva e pedra e vento e gente correndo e a plateia que agora há pouco estava apinhada de gente e agora é só deserto e chuva e pedra e gente correndo.

Mas, surpresa!, a voz de Valesca Popozuda continua a ecoar pelo Arouche adentro e afora, com granizo e tudo. Será que a mardita também saiu correndo e esqueceu de desligar o playback?

Não, crianças, Valesca não se esqueceu de desligar o playback. Valesca se esqueceu foi de sair do palco, mesmo expulsa à porrada pelos granizos, pela chuva, pelo frio, pelos choques elétricos ao microfone molhado. Nem por Iansã, por São Pedro, pela Universal do Reino de Deus, pelo Universo em Desencanto ou pela macumba dazinimigas. Nem pela plateia de açúcar que fugimos para debaixo da marquise.

Valesca prosseguiu o espetáculo, numa atitude de autoconsagração que terminaria com ela ajoelhada, agradecendo a Deus(a) por ser quem ela é.

Não há juízo de valores por aqui. A maioria dos shows de encerramento foi justificadamente cancelada pelo dilúvio de um São Pedro bipolar surtado à beira de um ataque de fúria. A paraibana Roberta Miranda não pôde cantar no Arouche eletrificado pós-Valesca. A amapaense Fernanda Takai do mineiro Pato Fu nos conta que os brinquedos da música de brinquedo da Viradinha ficaram avariados pela tempestade princesa. Pelo que conta diretamente da produção do megafestival o querido Rodrigo de Araujo, o grupo gaúcho Apanhador Só se tornou o ato de encerramento da Virada Chovida, num show acústico cumprido na raça, no asfalto, no gogó, neném.

E a carioquíssima Valesca.

Valesca não é melhor nem pior que ninguém (muito menos é igual a ninguém), mas o que a separa de artistas que ameaçaram não subir no palco pela falta de um microfone quando ainda nem chovia é o que separa os artistas “de verdade” dos meninos mimados, os brasileiros dos braZileiros, a mídia sem pauta pronta da Folha e da Globo, o Brasil que quer crescer do Brasil que está contente em se conservar escravo.

O Brasil tem mudado profundamente nos últimos anos, e não era de se esperar que a arte, a cultura e música do Brasil não acompanhassem o movimento. Valesca é a cara da mudança na música brasileira, é o Brasil novo que se desgarra feito um continente de uma ilha de artistas (e cidadãos) acomodados, resmungões, politicamente desinformados e cultuadores da própria ignorância e preguiça.

Como sublinhou a nova baiana niteroiense Baby do Brasil na noite anterior, quando ainda não chovia na Cantareira do Arouche, Valesca é o Brasil que vem de sim – porque quem vem de não não chega, não.

De volta ao desembarque dos bichos no dia do dilúvio. Numa corrida da marquise para um toldo de hotel, a partir de um outro ângulo, entendi de repente por que diabos Valesca  continuava a cantar mesmo sem público: ela NÃO ESTAVA sem público.

Coladinha ao palco, uma massa compacta cantava e pulava e tomava chuva e pedra e pedrada e porrada e choque elétrico com ela debaixo do toró.

O profissionalismo e o agradecimento embevecido da Filósofa Contemporânea a seus pares (igualmente filósofos e contemporâneos) no asfalto é o que separa o Brasil que está nascendo (todo dia) do BraZil que não para de morrer um pouco por dia.

A Virada Cultural, que não irritava tanto quando era (era?) tucana, irrita muito agora que virou (virou?) petista, porque é preciso combater o avanço do Brasil sobre o BraZil. E, sobretudo porque a Vi(ra)da, adaptada para tempos de ruptura dos diques culturais e sociais, é a vida como ela é.

Na vida como ela é, não há maquiagem possível para os índices de violência – e a Polícia Militar passa zunindo, histérica, em furgões e motos hollywoodianas nababescas por entre os (não-)paulistas e os (não-)paulistanos a pé.

Na vida como ela é, um jornal é um blog e uma rede de TV é um encontro de blogueiros.

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Na vida como ela é, misturamos-nos os pretos e os brancos e os homens e as mulheres e os pobres e os ricos e os indígenas e os europeus e os ciganos e todos os seus intermédios. E os ingressos são de graça.

Na vida como ela é, Valesca Popozuda É o Brasil, [email protected] para começar o espetáculo e conduzi-lo lindamente até a apoteose. Os tambores já estão rufando.

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(As fotos e o vídeo que acompanham este texto são do goiano interiorano Giovanni Reis. Itamar Assumpção é paulista do interior, Maria Bethânia é baiana do interior e o autor deste texto sou paranaense do interior.)

(P.S. em 20 de maio: o paulistano Giuliano Scandiuzzi avisa, na caixa de comentários, que a linda obra dos Iconorixás é de autoria dele próprio, o VJ Scan. Legal, Giuliano!, só falta agora você contar onde nasceu, pra seguir o padrão do resto do texto…)

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