O Manifesto do Nada na Terra do Nunca é o percurso patafísico de Lobão. Só com o conhecimento das verdades absurdas e ridículas pode-se explicar algo tão “psicodélico” e “esquizofrênico”. Só a patafísica pode explicar um texto daqueles.

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Cena de montagem de 1965 de “Ubu Rei” (1888), de Alfred Jarry, criador da patafísica

Ele escreveu um ensaio cheio de pretensões acadêmicas. Lobão cita fontes, mas deixa subentendido que leu e acompanha as polêmicas da direita: o artigo de Walter Navarro em O Tempo, debochando do genocídio dos guarani-kaiowá (o que Lobão também faz); os ataques do “filósofo” Pondé ao cartunista Laerte, a quem chamou indiretamente de “frouxo” e “traveco bolchevique”. E, finalmente, a metafísica fascista de Olavo de Carvalho em seu Imbecil Coletivo.

Em sua transmutação da esquerda festiva para o anarcocapitalismo, Lobão parece ter feito uma recuperação da fina flor do pensamento de direita, que ele mistura a delírios paranoicos a respeito de comunistas. Velhos tempos em que quem o perseguia eram as canções de Herbert Vianna!

Assim, “o carola estatizado” de Olavo de Carvalho encontra um equivalente em seu “imbecil coletivo”. Sobrenadam também, nessa geleia geral, Nelson Rodrigues e Paulo Francis elevados a sacerdotes de ideologia.

Outro elemento presente é a reescrita da história de um ponto de vista de extrema-direita fascista, ao estilo de Leandro Narloch.  Por fim, Lobão resolve criticar Oswald de Andrade, cobrando dele lógica, racionalidade, eficiência e ética do trabalho, como um bom colunista de Veja faria. Lobão acusa Oswald de Andrade ao mesmo tempo de nacionalismo ressentido e de copiador de tudo que é estrangeiro.

Preso por uso de drogas, ele cobra racionalidade da prosa brilhante de Oswald (que profetizou a contracultura) e pensa que isso é original. Mas não cobra esse mesmo racionalismo de sua interpretação da história. Quando foi que Fidel Castro condecorou John Lennon, como escreve Lobão? Oswald de Andrade provavelmente riria muito de um roqueiro que defende a mãe dos Gracos, Cornélia, mas que vive contando que a mulher o enganou, entrando à sua revelia na Lei Roaunet!

Bob RobertsAs análises de Lobão submetem toda a história da humanidade a seu ego mimado. Para entender o próprio percurso de forma não-patafísica seriam necessários conceitos como indústria cultural e capitalismo, conceitos que faltam totalmente a esse niilista que chafurda na decadência ideológica da burguesia e no irracionalismo. O objetivo de toda essa fúria lupina é apenas tentar reassumir um protagonismo na indústria cultural que, devido ao corpo que não serve mais de modelo de roupas, é impossível de ser resgatado.

O grande tema que subjaz a seus livros é outro, não dito: a decadência deselegante e o apodrecimento ideológico de um popstar pretensamente intelectual do Terceiro Mundo. Lobão virou o nosso Bob Roberts, o roqueiro retrógrado do filme homônimo de Tim Robbins.

 

Lúcio Jr. é professor de filosofia e mestre em estudos literários na UFMG.

 

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