Captura de Tela 2013-10-27 às 23.05.13É costume de muitos brasileiros ditos intelectualizados vilanizar Roberto Carlos em regra, por qualquer coisa que ele cante, fale ou faça. Na mesma medida, é costume entre essa mesma camada social eundeusar Chico Buarque na mesma medida e proporção.

São, ambas, atitudes bisonhas, irracionais, moldadas à base de torcida, e não à luz do mundo-como-ele-é, nem sequer do mundo-como-gostaríamos-que-ele-fosse.

No mesmo dia em que morreu o grande Lou Reed, Roberto Carlos veio a público, em sua própria casa (a Rede Globo), para se posicionar pela primeira vez sobre a corrosiva celeuma das biografias.

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Falando à repórter Renata Vasconcellos, demonstrando no semblante grave um leve e surpreendente traço de irritação, Roberto tergiversou em diversos momentos, como lhe é comum. Aqui e ali soou confuso, algo contraditório, como também estamos acostumados. Em resumo, foi ele mesmo – ainda que nos exaspere muitas vezes, é irracional de nossa parte exigir de Roberto Carlos que não seja Roberto Carlos.

No entanto, houve algo de muito especial no pronunciamento do “Rei”, comparável ao que ele fez, anos atrás, na mesma praça eletrônica das noites dominicais, quando falou a uma desconcertada Glória Maria sobre sofrer de TOC, transtorno obsessivo-compulsivo.

Captura de Tela 2013-10-27 às 23.10.341976 Rock and Roll HeartNa noite da sunday morning que levou Lou Reed, Roberto quebrou mais um tabu e homenageou a todos nós – a ele mesmo, quiçá até a Lou Reed, que tão pouco teve a ver com ele durante toda a vida, ou a Andy Warhol, padrinho artístico de Reed e da pop art (ou seja, de Roberto Carlos).

O artista brasileiro mais popular de todos os tempos quebrou um fortíssimo tabu (seria demais especular que o TOC ergue tabus internos às dezenas na vida de um ser humano?): falou sobre o acidente que sofreu ainda na infância e lhe tirou parte de uma das pernas, e que certamente marcou profundamente toda a sua existência.

Roberto disse mais ou menos assim, daquilo que a Globo (a casa dele) nos permitiu compartilhar:

Captura de Tela 2013-10-27 às 23.26.46“Pessoas têm dito que eu sou contra (as biografias não-autorizadas) por causa do meu acidente. Não é isso, não. Eu, quando escrever meu livro, eu vou contar do meu acidente. Ninguém poderá contar do meu acidente melhor que eu. Ninguém poderá dizer aquilo que aconteceu com todos os detalhes que eu posso. Porque ninguém poderá dizer o que eu senti e o que eu passei. Desculpa a rima, porque isso aí só eu sei“.

1972 Roberto CarlosNesse ponto, o grande Roberto Carlos (obrigado por estar vivo, Roberto!) está repleto de razão – e há de ser uma catarse coletiva, de todo o Brasil, quando soubermos que ele pode compartilhar conosco o que há de mais íntimo, particular e doloroso em suas lembranças.

Captura de Tela 2013-10-27 às 23.14.01Esperávamos por isso há décadas, Roberto.

Nossa história se confunde com a sua em tamanha intensidade que é preciso que você nos conte de suas dores para que nós possamos nos entender, entender as nossas próprias dores.

O Natal de todos nós (inclusive o seu, Roberto) será mais feliz e totalmente diferente, depois que isso tiver acontecido. A sua liberdade é a nossa liberdade, Roberto.

Por enquanto, acima de todas as coisas, e apesar dos (muitos) detalhes talvez pesados em que discordamos, há só isto para dizer: apenas o dia de hoje já foi bem emocionante. Obrigado por tudo, Roberto, ainda mais esta vez.

47 COMENTÁRIOS

  1. Confesso, caro Pedro: fiquei realmente tocado com a entrevista de Roberto Carlos – e com as suas palavras aqui nesse post. Até que enfim, e que assim seja, algo de bom aconteceu em meio a essa discussão cheia de caricaturas e conversas que silenciam diálogos. Apesar de todas as minhas diferenças e posicionamentos em relação a esse tema, cabe louvar a iniciativa de Roberto Carlos. Obrigado Roberto. Obrigado Pedro.

    • Pode crer, Rafael!

      Tem várias pessoas achando que o Roberto está meio mentindo na entrevista, e eu até concordo até certo ponto. Mas nunca, nunca, nunca vou concordar com os que atacam o cara como se a obra dele não fosse uma das mais importantes da nossa história. Esse papo de “Roberto Carlos não representa a MPB”, papo careta, reacionário e mentiroso…

  2. entendo que as biografias não autorizadas deveriam ser publicadas, bem como liberdade para as rádios populares, internet aberta, direito de cada qual ter seu portal gratuitamente e sem censura, resposta imediata no rodapé de cada noticia e a comentários de articulistas da grande imprensa, sem a obrigação de preencher questionário, cadastros, e ameaças de leis, e por aí vai ….

  3. De fato ninguém saberá de tantos detalhes da vida dele quanto o próprio, agora sobre não ser capaz de interpretar um conjunto de fatos da vida dele melhor do que ele próprio há controvérsias, exatamente porque há aspectos de sua vida pessoal cuja análise ou julgamento é turvada pela subjetividade pessoal. Do contrário, não haveria porque lançarmos mão da psicoterapia para nos auxiliar a resolver nossos problemas os quais nós conhecemos melhor do que ninguém. E parece que tanto tempo após ter sofrido o acidente, essa ainda é a indicação para ele.

    • Houve, como houve a rivalidade Chico x tropicália, que eles todos dão uma boiada para negar, né, Ademar?… Mas hoje, nossa, como estão parecidos ideologicamente o Chico e o Roberto…

    • Aliás, acho que ontem o Roberto deu uma bela resposta à arapuca armada contra ele por Chico Buarque e Geraldo Vandré, em 1967 (acho): se mostrou publicamente mais progressista do que o Chico!, hahaahhaahahahaha.

      O que é verdade tropical e o que é mentira tropical nisso tudo aí, difícil decifrar. Mas que tá cada dia mais divertido, tá.

      • Pedro, a matéria da Manchete que reuniu Chico, Roberto e Vandré é de dezembro de 1966 (“A Frente Ampla da MPB”). E ele, acuado, realmente se saiu bem. Abraços

    • Nossa, coitadinhos dos artistas, né, Leda?

      Quem sabe se eu tivesse um milésimo das fortunas deles eu também ia querer virar censor de mim mesmo (e dos outros)…

      • O problema é o dinheiro que eles tem? Isso não é motivo para ironias. Faltar com a verdade é mentira, e não “meio mentindo”. Ficar supondo e curtindo o barraco, é fofoca. Respeito e privacidade, acho que todos tem direito.

        • Poizé, Ricardo, mas dependendo do teu partido você não quer direito à privacidade pro José Dirceu ou pro José Sarney ou pro José Serra, né?

  4. Há uma coisa que ainda me intriga. No Saia Justa, o autor da tal biografia sobre o RC contou que, durante os 15 anos de pesquisa, tentou inúmeras vezes entrevistar o biografado, sem sucesso. Portanto, se o que o RC queria era uma versão DELE do que aconteceu no acidente, por que não aceitou ser entrevistado e contar ele mesmo a sua versão dos fatos?
    Na mesma entrevista o biógrafo comentou que chegou a oferecer todos os lucros sobre o livro ao RC em troca do fim do processo, mas o mesmo não aceitou. Estranho. Acho que são as coisas que o TOC faz.

    • Também acho, Nathália… Foi demais o comentário do Paulo Cesar no Saia Justa, né?…

      Outra coisa que me chamou muita atenção na entrevista de ontem: os segundos de silêncio que o Roberto leva antes de responder à pergunta sobre se aceitaria ver liberado o livro do PCA. O que será que significaria aquele silêncio?…

      • Acho que o silêncio não é nada além do RC escolhendo cuidadosamente as palavras, evitando qualquer contradição ou ambiguidade que pusesse ser usada contra ele depois. Não sei se o processo contra o Paulo Cesar ainda corre na Justiça, porque se estiver, qualquer coisa que ele dissesse na entrevista poderia ser usado contra ele.

        Achei a entrevista do PCA no Saia Justa muito esclarecedora.

  5. Segundo essa esquisita ideia do Roberto Carlos abraçada pelo colunista, vamos acabar com o ofício de historiador e esperarmos apenas pelas autobiografias e pela história oficial. Colocar as questões profundas a serem discutidas em relação à liberdade de expressão, liberdade de ofício do historiador etc., apenas para o lado sentimental do drama de seu acidente é mais uma estratégia do rei, como as suas músicas românticas são piropos para as mulheres.

    • Essa ideia dele não foi abraçada por mim, não, Washington. Sou plenamente a favor das biografias não-autorizadas – e, por sinal, escrevi e publiquei uma semi-biografia não-autorizada sobre o… Roberto Carlos. Se chama “Como Dois e Dois São Cinco”.

  6. A unha do meu dedo mindinho pelo material bruto dessa entrevista. Cadê um Snowden nacional quando precisamos de algum vídeo ou mesmo áudio vazado?

    A entrevista inteira foi muito dúbia e acho que nem o Roberto sabe exatamente o que quer, além de lançar 3 livros com sua história, contada e escrita por si mesmo.

  7. Texto chapa-branca, hein, camarada?
    O Roberto fez uma das piores entrevistas que eu já tomei conhecimento, não disse nada com nada, não saiu do muro. Nisso Chico e Caetano são mais espertos, falam o que tem que falar, sem ficar querendo agradar todo mundo na frente das câmeras para depois dar uma bordoada por trás. A despeito da ótimas perguntas feita pela jornalista Renata Vasconcellos, que ia muito bem até chamá-lo de “rei (essa bajulação é irritante), o RC não sabia o que estava dizendo.

    Ainda vou entender isso: um censor de biografias, um produto da mídia e bonequinho da Rede Globo, um artista que não lança um disco minimamente razoável há décadas, e que vive no seu cobertor de estagnação graças a bajulação da mídia, ser tão paparicado. Ele não é atacado quando comparamos a um Chico Buarque da vida, pois se realmente a galera tivesse um senso crítico, esse título infame de “rei” já teria caído há muito tempo. Rei do quê, ora bolas?

    • Chapa-branca é o caralho, Bruno. Vem pra São Paulo, travalhar CONTRA os tucanos que dominam São Paulo já 513 anos, pra ver o que é ser ~chapa branca~. Falar é fácil, quero ver você fazer.

  8. Sinceramente não entendo porque saber das dores dos artistas famosos vai nos ajudar em alguma coisa, isto não me parece saudavel. O que importa é se a pessoa esta bem, privacidade todo mundo gosta mas quando chega a hora de espiar o sofrimento alheio tem muita gente que nem urubu., tem tanta coisa mais util do que cuidar da vida alheia, se quer cuidar ajude, ajude não destrua , não contrarie, apenas ajude, não falta gente precisando de ajuda.

  9. Perdão, mas jamais li tantas asneiras vindas de um único “ser”. O tal Bruno – decerto portador de acefalia -, em pouquíssimos caracteres, “cagou” no mundo.

    “Roberto Carlos não ficaria por tanto tempo no primeiro lugar da estima pública, com absoluta prioridade, se não houvesse entre ele e a alma lírica do seu povo uma comunicação natural de que nasce o encontro permanente dos gostos pela leveza, sinceridade e graça instintiva.” (Austregésilo de Athayde, que por 35 anos presidiu a Academia Brasileira de Letras)

  10. Pedro, meu caro. O seguinte: assim que li o seu livro (foi em meados de 2009) “Como Dois e Dois São Cinco”, fiquei a pensar como foi possível a publicação essa obra. Sem bajulações desnecessárias neste momento, acho um lindo trabalho – incluindo com seus excursos – sobre a Música Popular Brasileira. Daí, então, fica a minha dúvida e pergunta: o Roberto se manifestou a respeito do seu livro? Alguém lhe procurou para tirar satisfações? O livro em questão é, sem qualquer margem de exageros inúteis, é excelente. Não sei, ao certo, se foi muito lido e comentado – o que é, se for caso, lamentável. Belchior, para ficar em apenas um exemplo que está para além do RC como personagem principal, é apresentado com uma riqueza excepcional em sua obra e história.

    Por fim, e desculpe-me pelo extenso comentário (desculpem-me todos que estão aqui a debater também), em seu post recente – “Você escolheu errado seu supervilão” – você escreveu sobre todos os interesses que estão em jogo na discussão sobre as biografias (autorizadas ou não). Achei muito oportuno e fundamental a sua perspectiva sobre o assunto – ainda mais agora em que acabo de assistir a entrevista do Paulo Cesar Araujo no Roda Viva da TV Cultura. Com todo respeito ao Paulo Cesar (que fez e faz um trabalho admirável de pesquisa e interpretação do MPB, que concordemos ou não com os seus escritos), me incomodou demais a VEJA, o Alberto Dines, a Folha, o Estadão e o representante mais PSDB paulista da TV Cultura estarem de mãos dadas para se utilizar de toda essa nossa rica discussão para falar mal do Caetano, Chico, Roberto Carlos e demais. Como tais artistas fossem um toscos. Deu para sentir nos sorrisos irônicos e comentários despropositados dos jornalistas-entrevistadores um certo ar de “bem feito, vocês se achavam puros e sempre se colocaram por cima, agora é nossa vingança”.

    Gostaria, de por favor, ouvir a sua opinião (e as dos demais aqui, é claro) sobre esses assuntos que abordei aqui. Obrigado.

    • Obrigado, Rafael, fico feliz de saber que você pensa isso tudo do meu livro.

      Na época, eu e a editora Boitempo mandamos exemplartes para todos os artistas protagonistas do livro – Roberto, Erasmo, Wanderléa, Rita Lee, Marcos Valle, Belcbior – Raul Seixas, Tim Maia e Wilson Simonal já tinham morrido, não dava mais.

      Troquei e-mails à época com o empresário (até hoje) do Roberto, Dody Sirena. Ele me disse, não sei se nestas palavras, que eles haviam cogitado me processar, mas que haviam decidido não fazê-lo para não dar ao meu livro publicidade que ele espontaneamente não tinha tido. Vieram a fazer a violência, dois anos mais tarde, com o Paulo Cesar de Araújo.

      Sou solidário com o PCA desde então, e tenho convicção de que, se meu livro tivesse sido um projeto “comercial”, eu teria passado por tudo que o PCA passou, e que é absolutamente terrível.

      Não sei se te respondi, se não tiver respondido pergunte mais! 🙂

  11. Deixem-me, com licença, realizar algumas correções (hoje o dia de trabalho foi extenso e arrasador e acabei escrevendo com alguns lapsos e erros que podem atrapalhar na compreensão do que eu busquei expressar no comentário anterior):

    1) quis dizer o seguinte – <>;

    2) Por achar o livro em questão excelente, surgiu a dúvida (ignorância minha, confesso) sobre o mesmo: foi muito lido, comentado – ou ficou um pouco restrito a comentários no momento de seu lançamento? Não seria, de fato, algo de extrema importância resgatar um pouco sobre o que está dito nele? E relembrar, também, a experiência de escrita sobre tal obra, personagem e tema?;

    3) Por fim, disse o seguinte: <>. Disse e reafirmo, mas não para ficar defendendo uma absurda perspectiva de que eles (Chico e Caetano principalmente) são intocáveis e monstros sagrados que não podem e devem ser questionados. O imbróglio ou polêmica em torno do artigo de Roberto Schwarz (alguém aí, nesses tempos de assuntos que passam rapidamente pelas timelines, se lembra?) sobre o livro Verdade Tropical foi um indício de como os cadernos culturais estão pouco dispostos a discussões profundas e relevantes – e demonstrou também a falta de vontade do Caetano Veloso para com uma crítica inteligentíssima e rica sobre o seu livro. Por esse motivo, o meu incômodo não foi com a crítica em relação aos artistas. Foi, isso sim, com o fato de o PCA e outros progressistas não perceberem que essas empresas citadas estão com seus interesses em jogo e por isso querem fazer prevalecer a sua perspectiva. Pode-se dizer o mesmo dos artistas. Mas, então, que seja dito isso também sobre as empresas – algo que não citado por aí, a ser pelo post do Pedro que citei acima. Ou seja, não existem apenas dois lados nessa história. Ou, então, ficaremos com a pobre versão de que os “artistas antes censurados agora querem censurar jornalistas” – o que, digamos, é muito raso para entender todos os meandros do debate que está agora em cena.

    Abraços.

    • A grande imprensa, Rafael, seja Folha, Globo, Estado ou quem seja, jamais teve um pingo sequer de consideração, nem com meu livro nem com o do PCA. Se hoje há uma coligação de interesses entre o PCA e, por exemplo, o Roda Viva é porque PCA entrou na esfera do grande comércio que nutre a Globo, a Folha, o Estado, a TV Cultura. Ele está certíssimo (eu soube que ele citou meu trabalho no Roda Viva e fiquei feliz – é a primeira vez que alguém faz isso no contexto da “grande” mídia) em jogar esse jogo. Eu torço por ele e espero que ele torça por mim. Quando a porteira da liberdade se escancarar, TODO MUNDO vai passar – o PCA, eu, você, o Roberto Carlos, o Chico Buarque, TODO MUNDO.

      Hoje eu estava no evento da CartaCapital de que a Dilma Rousseff participou, e ela disse: só quem sabe o que é o autoritarismo sabe o valor de viver sem autoritarismo. Os Procure Saber sabem, e estão hipnotizados pelo poder babaca deles, mas tenho muita convicção de que eles vão acordar. O Roberto Carlos, o mais reacionário deles todos, já deu pistas disso no Fantástico de ontem. O que vem à frente vai ser bonito, tenho (quase) certeza.

      Obrigado pela sua generosidade, Rafael!

  12. O Roda Viva, em poucos meses, levou a sua cadeira central o Movimento Passe Livre, a Mídia Ninja Ie com ela o Movimento Fora do Eixo) e, agora, o biógrafo censurado de Roberto Carlos, Paulo Cesar de Araújo.

    Mesmo pilotado por gente da extrema direita, o Roda Viva é o arauto, na velha mídia, da evidência de que a situação vigente é INSUSTENTÁVEL, e de que o novo está bombando por aí.

    Viveremos MUITAS emoções nos próximos tempos, e o que faz questão de ser velho vai dar com a fuça no barro. Até a TV Cultura já se tocou disso.

    Viva o futuro.

  13. Sempre tenho a impressão, quando vejo uma entrevista do RC, que a coisa é combinada, negócio ensaiado. Às vezes parece faltar naturalidade quando o Roberto abre a boca. Liga-se e ele fala. E fala uma fita que foi previamente gravada. Há anos, alguém escreveu um artigo perguntando se o Cid Moreira existia de verdade. É mais ou menos a impressão que tenho do Roberto Carlos, embora a fase áurea dele (e não a atual) seja uma das mais maravilhosas da música brasileira, muito além dos detalhes no consciente coletivo. Mas gostaria de ler uma biografia “oficial” e confrontar com uma “paralela” e descobrir, de fato, quem é esse cara, o Roberto Carlos.

  14. Da minha parte, eu gostaria de saber qual a relação do Roberto com a Ditadura Militar. Textos coerentes e bem encadeados têm pipocado na Net sobre uma suposta ligação do RC com a Censura atribuindo a ele muito mais culpa e entrega do que teria feito o Simonal à época o liquidando. Pode ser tudo mera invencionice de gente da esquerda, mas que detesta o Roberto por ele não se alinhar à Resistência como fez Chico, Caetano e outros. De qualquer forma, gostaria de uma versão embasada tanto da parte dele como de outras fontes. Dizer “Isso é absurdo, coisa de comunista” ou “Roberto é um fantoche da Globo e dos Sistema” é rasteiro demais. Mas que as músicas do Roberto eram, sim, usadas pra atenuar fúrias, isso é inquestionável.

  15. Acabei de assistir à entrevista e, para despeito de minha melancolia, não tive crises românticas com nenhuma das declarações. Continuo achando RC mimado e desavisado. Sei lidar tranquilamente com a separação da arte e do artista. Seis minutos de entrevista em que nada foi dito! Constrangedor. É óbvio que ele é a pessoa com mais propriedade no universo para narrar sobre sua vida, ninguém o impediu disso, tampouco questionou. Estamos esperando, aliás. O que se discute – e talvez não tenham informado ao Roberto – é o direito de se estudar/observar/pesquisar e produzir conteúdo sobre o que bem entender. Sem, no entanto, invadir domicílios ou apontar arma à cabeça de alguém, claro. PCA não fez isso, fez?

    RC é o Rei; é tudo o que reconhecidamente o fazem saber que é, mas, também é controverso, incoerente e desinformado. Donos de pandarias não costumam ser biografados tão facilmente! Curioso, não? Pobre e inocente RC…

    Acho tudo isso um imenso deboche com os autores deste país! Quem sabe até um auto-deboche por parte de alguns deles – e eu não quero acreditar na senilidade de Chico e Caetano, por exemplo. Quem me fez ficar emocionado, Pedro, foi o PCA, ao declarar no Saia Justa que, em meio aos processos impetrados por RC, tentou um acordo para que RC recebesse todos os direitos autorais do livro, mas permitisse a distribuição/venda. Sei lá, eu ainda acredito em ideologias para se viver. Altruísmo não se encontra em toda esquina, afinal. É preciso esmiuçar muito esse mundo véio doido. Talvez RC não respeite o PCA justamente por desconhecer e estranhar esse sentimento (e eu sei pouquíssimo do PCA, mas acredito, com possível romantismo, no que tem dito durante essas discussões).

    Sem tentar vaticínios, mas, infelizmente, acredito que RC jamais entenderá que muito pode ser muito, muito pouco (Moska®) para quem não tem a pretensão de possuir o pleno controle da orbe. Entretanto – sem nenhum interesse em acompanhar -, eu espero que ele entenda!

  16. Acabaram de divulgar um vídeo alguma-coisa-algo Propaganda Eleitoral do Procure Saber, estrelado por Gil, Roberto Carlos (com uma dramaticidade cênica maravilhosa), Erasmo e Teleprompter! Parei de assistir aos 2min e poquim, porque, na boa, que vexame. Desgraçadamente torpe! :'(

  17. Boa noite.

    Pedro, li seu livro em 2010 e acho que se não a melhor uma das melhores obras sobre música publicada no Brasil. A ideia de rascunhar a vida do Roberto, Erasmo e Wanderléa a partir dos seus discos e contextualizar tudo com a história do Brasil foi sensacional e muito bem realizada. Nessa entrevista do Roda viva, uma coisa me chamou a atenção, fiquei impressionado com o ódio do Alberto Dines em relação ao Roberto Carlos. Ele chamou o Roberto de idiota, artista medíocre, música de elevador etc. O que você achou?

    PS: Teve um momento que o PC ia responder e confrontar a opinião do Dines, porém foi cortado.

    PS 2 (a missão): Indiquei e emprestei seu livro para um monte de amigos que curtem música e política. Isso gerou uma série de reflexões sobre o tema. Você publicará mais algum livro em breve?

    Sou professor de história (RJ) entre uma bomba de efeito moral(?) e um spray de pimenta.

    Abraço.

    • Oi, Cristiano, obrigado pelos elogios espetaculares!!!!

      Eu não vi o Roda Viva, estava fora de casa naquela noite. Já separei aqui pra assistir, mas ainda não deu tempo. Quando assistir volto aqui pra te responder!

      E puxa, claro que penso em escrever mais, mas os últimos anos não deram chance para nada – e agora, vendo a polêmica das biografias, vejo que a escassez de livros sobre música brasileira nos últimos anos (a não ser os do Nelson Motta) tem muito a ver, ainda que indiretamente, com as posturas atuais dos Procure Saber em relação com o que se possa ou não escrever sobre eles. Estão intimidando todo mundo, mesmo que seja do jeito manso deles…

      E você, não tem vontade de escrever uns textos pro Farofafá, não?! 😉

  18. Caro, Pedro, nunca ouvi falar de vc na vida. Ou seja, pra mim vc não é famoso. Esta semana descobrí o farofafa no fb. Foi uma delícia conhecer suas idéias e palavras. Me irmanei a vc na hora. É bom achar alguém que escreve em nossa língua. A arrogância de nossos ídolos já deu no saco. Ídolo já é difícil, arrogância então. Agora, a arrrogância carioca é enervante. O Rio talvez seja a cidade mais bonita do planeta, Ipanema, Leblon,etc é de humilhar nós caipiras q vivemos no rico interior paulista. É tão chic tudo que humilha a gente. Tenho 63 anos, fiz 18 em 68. Na minha juventude aqui em Campinas, depois de ouvir muita bossa-nova no Fino da Bossa na quarta a noite e o rei na Jovem Guarda de domingo à tarde eu sonhava em ser carioca e morar no Arpoador, encontrar a patota do Pasquim na praia, fumar um e ver o por do sol ao lado de Nara Leão, Danuza Leão e todos os leões de então. Agora é tarde. Nara morreu, Danuza tá véia. O rei virou qualquer coisa.com. Chico não tem mais vinte anos, nem eu. Agora o Brasil é outro, eu também. O Rio de Janeiro que eu tanto adoro, adorava e adorarei também mudou. Trânsito, barulho e superpopulação enlouquecedora. Só que continua muito linda. Agora, o Brasil tá bem melhor: tem gente da sua qualidade escrevendo divinamente como vc faz. Tem jovens na rua. Tem ídolos se estilhaçando em praça pública. Tem lei. Tem justiça com precariedades, mas tem. Tem internet que é o máximo e eu jamais poderia imaginar que existiria. Eu posso escrever e pensar o q me der na telha. Vc quer melhor que isso? Sempre pude eu acho. Fui hippie e a ditadura não me incomodava muito. Só fui preso e fiquei 100(cem) dias enjaulado com 25 travestís do Estácio no Rio em 1972, por carregar 4 inocentes baseados no bolso em Ipanema. Esta prisão me ensinou muito sobre o ser humano e portanto sobre mim mesmo. Nós brasileiros somos todos cariocas quando sonhamos em ser felizes e paulistanos quando acordamos de manhã. Mesmo gaúchos, matogrossenses ou nordestinos acho que são assim. Sonhamos em ser cariocas e imitamos os paulistanos à partir
    das sete da manhã. A vida é assim. Um imita e inveja o outro. Caim invejava Abel. Agora, velho, acho que chegou a hora de parar de pagá pau pra nossos velhos ídolos. É a hora da verdade. O rei está nu. O rei está nu. Pior, mostrando sua triste prótese de ouro numa perna. Todos sabiam desta dourada prótese. Só ele que achava que ninguém sabia. Coisa de rei. É triste descobrir que seu pai não é o super-man. Que seu rei é aleijado. Que seu ídolo é de barro. Que você vai morrer um dia. Que o cancêr existe. O mal também existe. Mas é tão bom poder escrever toda esta merda sem nenhum filho da puta qualquer exigir uma autorização, isto é muito bom. É o bom da vida. Melhor que isto, só dançar chapado ao som de ODARA nas dunas da gal ao por do sol ou chorar um pouquinho (meio escondido e bêbado) cantarolar EMOÇÕES do rei. Um grande beijo querido. Virei seu fã meu novo e jovem ídolo.

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