É uma ilusão imaginar que a periferia de Salvador, uma das capitais musicais do Brasil, está dividida entre Ivete Sangalo e Claudia Leitte ou entre Chiclete com Banana e Asa de Águia. A popularidade das cantoras e dos grupos de axé ainda é alta, mas o coração da periferia de Salvador também pulsa por outros dois nomes: Pablo, a voz romântica e representante mais popular do arrocha, e Igor Kanário, o “Principe do Gueto”, maior nome do pagode baiano.

Quem percorre as ruas de bairros populares como Periperi, Boca do Rio, Cajazeiras e Paripe vê a disputa estereofônica em altos decibéis de carros tocando o romântico arrocha de Pablo e seus agudos de causar inveja a Zezé di Camargo, ou o groove pesado com tambores frenéticos do pagode baiano de Igor Kanário e suas letras polêmicas.

Pablo do Arrocha - Foto Alex Gama
Pablo do Arrocha – Foto Alex Gama
Natural de Candeias, interior da Bahia, Pablo teve uma infância sofrida. Ao deixar a casa dos pais muito cedo, vendia picolés na rua para sustentar o sonho de seguir a carreira de cantor. Aos 15 anos, cantando no grupo Asas Livres, ficou famoso pelo bordão “arrocha”, como um incentivo para o público dançar mais juntinho. Foi o batismo do gênero que junta melosas melodias de teclados e batidas eletrônicas com letras extremamente românticas – sempre atravessadas por agudos de cortar o coração.

Com o grupo Asas Livres, Pablo chegou a vender um milhão de cópias e pavimentou seu caminho para o sucesso como “a voz romântica”. Ganhou fama e dinheiro nas principais casas de seresta do Nordeste. Entre seus maiores sucessos estão “Casa ao Lado”, “Casa Vazia” e a excelente “Na Hora H”.

A fama de Pablo do Arrocha, como também é conhecido, já alcançou o patamar de superstar na Bahia. No último carnaval, teve um trio elétrico próprio no circuito Barra-Ondina, e gravou com artistas como Claudia Leite, Aline Rosa e Daniela Mercury.

Já Igor Kanario é a voz dos jovens excluídos na periferia da quinta capital brasileira mais violenta e a 14ª mais violenta do mundo em cidades acima de 300 mil habitantes (a cidade mais violenta do Brasil é Simões Filho, que fica no conurbano da capital baiana).

A sobrevivência diária desses jovens aparece como manifesto nas letras de Kanário. “Dedo Calibrado”, um hino na periferia de Salvador, traduz esse sentimento de frustração e humilhação fruto da falta de perspectiva e uma indignação que busca a violência como forma de reação: “Tenho que viver/ me defender/ às vezes falta
 água pra beber/ comida pra comer
/ como é que dorme/ como que sonhar/ 
vida medonha de ilusão/ ilusão/ eu chorei a cada porta na cara/ família não liga/ família disfarça/ de te olhar com olhos da decepção/ decepção/ 
peço a Deus/ que livrai-me do mal/ me tira dessa vida de cão/ por isso quando eu desço/ é dedo calibrado/ é sangue no olho/ comigo é mais em baixo.”

Em outra música, chamada de “Cyclone”, uma marca de roupa muito usada pelos jovens baianos, mas que os fazem ficar rotulados como “suspeitos” pela polícia, Igor dá o recado: “Cyclone não é marca de ladrão/ é a moda do gueto/ mas com toda discriminação/ eu imponho respeito”. A música remete a uma fã declarada da banda, Kelly Cyclone, conhecida como a “Dama do Pó” de Salvador, assassinada em 2011.

Igor Kanário - Divulgação
Igor Kanário – Divulgação
Igor morou quase a vida toda no bairro humilde e violento da Liberdade. Começou muito cedo a cantar, quando teve que, no susto, substituir o vocalista que havia faltado da banda Produsamba. Depois disso cantou ainda na bandas Coisa do Samba, Patrulha do Samba e Swing do P. Ccriou a banda A Bronkka, com a qual alcançou o estrelato da periferia e acabou saindo para tentar carreira solo no final de 2012. O Príncipe do Gueto ocupa hoje o lugar de Ed City, outro fenômeno da periferia de Salvador. Como Pablo do Arrocha, saiu no último carnaval em trio elétrico próprio. Emplacou o sucesso “No Balanço da Viseira”:

A disputa sonora entre o arrocha e o pagode baiano, que permeia os becos e vielas das comunidades pobres de Salvador, revela um pouco da alma dos soteropolitanos. Ao mesmo tempo em que conservam a alegria, o romantismo e a disposição para fazer as festas mais animadas do Brasil, sofrem com a injustiça social que não abre horizontes para os mais necessitados.

Nesses bairros, a música bem que se esforça para ocultar a violência nua e crua que se revela dramaticamente com o crescimento dos esquadrões da morte. As vítimas: jovens negros da periferia, o mesmo público que idolatra Pablo e Igor Kanário.

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