Pelo menos até a conclusão deste texto, São Paulo ainda era um dos eixos culturais do Brasil. Este é o país onde nos acostumamos a viver. Na política ou na economia, na cultura e na música do país em que nos acostumamos a viver, nada existe para a chamada “opinião pública” (ou melhor, publicada) sem antes passar, necessariamente, pelo filtro paulista e/ou carioca.

Tem sido assim, mas há quem acredite que um novo mundo é possível e que um novo Brasil já está em construção – FAROFAFÁ pertence a este grupo. Há tempos sabemos que muita informação – e cultura, e música – circula neste país continental sem precisar da mediação de velhos núcleos de poder: o eixo Rio-São Paulo, Brasília, a tradicional e antigamente “grande” mídia, as gravadoras de discos, e assim por diante.

FAROFAFÁ acredita que a discussão cultural no Brasil de hoje está polarizada em dois grandes e grosseiros batalhões: o dos que conhecem a realidade citada acima e os que não a conhecem (ou fingem que não). Acreditamos que quem resume sua compreensão de cultura aos ditames do eixo já perdeu o bonde da história e não sabe (ou será que já sabe?). Exatamente por isso, foi e é natural que nós fixássemos nossa atenção em algo que carrega no próprio nome o parâmetro “fora do eixo”.

FAROFAFÁ, por enquanto um projeto experimental na luta árdua pela própria sustentabilidade, já nasceu próximo do sistema Fora do Eixo (foi uma equipe de lá que desenvolveu o site, por exemplo). Passamos por todo o périplo de tentar entender quem é e o que pretende essa moçada, que conta com o entusiasmo irrestrito de Cláudio Prado, figura histórica que já esteve nos bastidores da formação de núcleos de malucos geniais como Mutantes e Novos Baianos.

Passamos por todos os sobressaltos que vemos reproduzidos todos os dias por aí: não entendemos que diacho era aquilo, depois entendemos, desconfiamos da lisura da moçada, deixamos de desconfiar, achamos que tinha jeito de seita, deixamos de achar… Demos de cara com a evidência de que, ainda que não fôssemos Fora do Eixo (com letras maiúsculas), indubitavelmente éramos, somos, fora do eixo (com letras minúsculas).

Pois bem, entremos no assunto propriamente dito: começa hoje, oficialmente, o IV Congesso Fora do Eixo. Ontem, viam-se congressistas chegarem às centenas, com suas malas de rodinhas, à Casa Fora do Eixo do bairro do Cambuci. Chegavam de todos os estados do Brasil, para um congresso que vai acontecer no cérebro do eixo, São Paulo – grande parte dele no cérebro do cérebro, a USP.

Percebe o pulo do gato? Os fora do eixo estão tomando posse do eixo, seja em sentido figurado ou concreto. Nós, FAROFAFÁ, já dissipamos bastante energia “defendendo” o FdoE sem ser FdoE – a partir de hoje, você, que trabalha numa redação confortável de São Paulo e desconfia da honestidade do FdoE, poderá chegar às próprias conclusões sobre que bicho de sete cabeças é este, pelos próprios neurônios. Basta querer, bata ir até os espaços de discussões e a extensa rodada de shows (ou, se a preguiça e a letargia forem demais, continuar acompanhando detalhes tão pequenos em FAROFAFÁ). Artiguinho de jornal metendo críticas “valentes” sem embasamento quase nenhum não vale mais, já caducou, tá?

Mas, então. A epopeia começa hoje (já começou, na verdade), com evento de apresentação num dos espaços mais nobres de São Paulo, o Auditório Ibirapuera. Segundo o FdoE, o evento conta com 70% de recursos próprios, mais dois patrocinadores. O principal é uma empresa privada, a Companhia Vale do Rio Doce. O segundo patrocinador é o governo (tucano) do estado de São Paulo, via Sabesp.

A abertura, às 19h, será peculiar desde o formato idealizado: 11 mulheres estarão juntas numa mesa de debate. Elas são, por ordem alfabética, Andreia Gama (Fundaçao Vale), Carol Tokuyo (Universidade da Cultura/FdoE), Cláudia Leitão (Ministério da Cultura), Eliane Costa (Petrobras), Gaby Amarantos, Ivana Bentes (UFRJ), Leandra Leal (Teatro Rival), Lenissa Lenza (Banco da Cultura/FdoE), Marielle Ramires (Partido da Cultura/FdoE), Maristela Fonseca (Conexão Vivo) e Sylvie Duran (FdoE Latino).

Em outras palavras: há de executiva de estatal a cantora-compositora de tecnobrega a executiva de empresa privada a militante fora do eixo a atriz de teatro. Nem tão comunista nem tão capitalista. Quando cai um muro de Berlim, ele cai para os dois lados.

Enfim, a jornada está começando, e FAROFAFÁ inicia hoje uma extensa cobertura do que vai acontecer por lá – mais que isso, estará participante e presente em mesas de discussão e rodas de debate. Antes que alguém nos pergunte: não estamos operando em reais com o FdoE – talvez alguns cards estejam envolvidos, por mais que isso escandalize nosso prezado China. (A propósito: por formidável que isso possa parecer, o Banco Itaú, mantenedor do Auditório Ibirapuera, cedeu o espaço para o evento de abertura em troca de cards, e não de reais.)

Será uma cobertura de parceiros, e você pode questionar quando, onde e como quiser se encontrar por aqui favoritismos, chapismos, complacências. Por seu próprio programa, FAROFAFÁ tem convicção de que jornalismo inteligente não é o que critica feroz e indiscriminadamente tudo que vê pela frente – jornalismo inteligente, para nós, é aquele que sabe identificar o que e por quê criticar, assim como é, também, o jornalismo que tem sabedoria de elogiar e celebrar, quando e se for o caso.

FAROFAFÁ pertence ao grupo dos que se esforçam por enxergar e compreender as profundas transformações culturais que o Brasil vive neste início de século XXI. Pertence, mais ainda, ao grupo que quer participar ativamente desses acontecimentos (“hoje é um novo dia/ de um novo tempo/ que começou nestes novos dias”, diria a Rede Globo). Estamos a partir de hoje a bordo desta barca grande, e convidamos você (músico, produtor, agente cultural, jornalista, consumidor, crítico etc. etc. etc.) a estar também.

 

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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