E aí saiu o disco novo de Marisa Monte, “O Que Você Quer Saber de Verdade”, que ando ouvindo por aqui. Em linhas gerais, concordo à beça com o que disse no site da revista “Época” meu colega Luís Antônio Giron, num artigo denominado “Somos todos bregas”. É, “brega”, pode ser, sim…

Em linhas mais particulares, ouço e me sinto em qualquer um dos discos que Marisa tem lançado com parcimônia desde 1989. Mas me sinto, também, num brasileiríssimo (embora algo sisudo) parque de diversões. Tem maçã do amor, algodão doce, pipoca e pop brasileiro a valer no circo da Marisa.

“Nada Tudo”, por exemplo, soa aos meus ouvidos como música sertaneja, caipira, sertaneja universitária, caipira urbana.

“O Que Se Quer”, composta e cantada com o (ex-)Los Hermanos Rodrigo Amarante, é nordestina de tudo, com sanfona e tudo. Nessa e em outras faixas, como a alegre e circense “Hoje Eu Não Saio, Não”, quem toca sanfona é o forrozeiro cearense Waldonys. Tem baião, xote e xaxado? Tem, sim, senhor. Tem goiabada e Luiz Gonzaga? Tem, sim, senhora.

“Ainda Bem” parece ao mesmo tempo música cigana hispânica, balada latino-americana e canção “brega” brasileira dos anos 1970 ou 1980.

“Lencinho Branco” faz lembrar cantoras brasileiras de meados do século passado, como Dalva de Oliveira ou Angela Maria, e é a versão em português de um tango argentino, “El Pañuelito”.

“Descalço no Parque” passeia pelas ondas do samba-jazz, do sambalanço, da sambossa, do samba-rock. É um retorno de Marisa a Jorge Ben (hoje Ben Jor), uma canção que ele compôs e lançou em 1964, e que influenciou Mano Brown e os Racionais MC’s três décadas mais tarde. Faz pensar quão bacana seria um “Marisa Canta Jorge”…

“Aquela Velha Canção” lembra Odair José, e me fez pensar em “Quero Que Vá Tudo pro Inferno”, pop-rock-iê-iê-iê histórico que Roberto Carlos lançou em 1965 e, há décadas, baniu do próprio repertório (e do repertório de quem quer que sonhe regravá-la). “Quando eu te ligar cantando aquela canção/ pra te desnortear, te ferir com carinho/ é pra fazer doer no seu ouvido a nota melhor do nosso amor”, canta Marisa. “Confesso que fiquei magoado, eu fiquei zangado/ mas agora passou, esqueci/ não vou te mandar pro inferno porque eu não quero”, diz, virando de pontacabeç ao “quero que você me aqueça neste inverno/ e que tudo mais vá pro inferno” de Roberto e Erasmo Carlos.

Grande parte do disco prossegue na toada do projeto “Tribalistas”, que a carioca Marisa lançou em 2002, em trio com o baiano Carlinhos Brown e o paulista Arnaldo Antunes (como já é praxe, boa parte das canções de “O Que Você Quer Saber de Verdade” é composta por eles, com parceiros como Dadi Carvalho e Marcelo Jeneci).

Faz lembrar, nesse sentido, o espírito hippie rock-sambeiro dos velhos Novos Baianos. Mas essas canções são, como eram as do disco-manifesto “Tribalistas”, cerebrais demais para serem puramente hippies ou, vá lá, “bregas”.

Em sentido parecido, muitas das canções soam românticas e açucaradas, mas, como em “Tribalistas”, algumas delas contêm pulos de gato que certamente causariam orgulho no velho anárquico Raul Seixas. Já há algum tempo, Marisa é de lançar canções românticas sobre… o anti-romantismo.

É o caso de “Depois”, uma baladinha feita para celebrar… a separação de um casal. “Depois/ de sonhar tantos anos/ de fazer tantos planos/ de um futuro pra nós/ depois/ de tantos desenganos/ nós nos abandonamos/ como tantos casais”, começa, para chegar ao refrão: “Quero que você seja feliz/ hei de ser feliz também”. Consegue imaginar feras feridas como Maria Bethânia ou Fábio Jr. cantando algo assim?

É o caso, também, de “Amar Alguém”, outra baladinha triste, amorosa e romântica, dedicada a… combater a caretice do amor romântico/religioso. “Amar alguém só pode fazer bem/ não há como fazer mal a ninguém/ mesmo quando existe um outro alguém”, “amar alguém e outro alguém também/ é coisa que acontece sem razão”, canta Marisa, incluindo no merecimento do amor os bígamos, polígamos, bissexuais, homossexuais etc. Consegue imaginar Roberto Carlos ou Elis Regina cantando algo assim?

“O Que Você Quer Saber deVerdade” parece um colorido e “cafona” parque de diversões de cidade do interior. Mas em certos momentos o assunto fica sério, conversa de adulto. Quem dá conta?

 

 
* Texto publicado originalmente no blog Ultrapop, do Yahoo! Brasil

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