“Era um subalterno numa sociedade que, ainda, em muitos meios, preservava uma mentalidade escravocrata”, escreve o protagonista da história. Não se trata de um camelô, mordomo ou operário de fábrica. “Os músicos, no mundo lá de fora, eram empregados, e nossa obrigação, aquilo para o que estávamos sendo pagos, era divertir nossos patrões. Era assim que eu seria tratado se fosse seguir a carreira profissional.”

Ele seguiu a carreira. Estamos falando de (e com) um dos mais respeitados músicos brasileiros em atividade, Cesar Camargo Mariano, que acaba de escrever e lançar um saboroso livro de memórias, Solo (LeYa, 496 págs., 55 reais). Radicado desde os anos 1980 nos Estados Unidos, ele usa a parte final do livro para relatar a emoção de um músico de origem pobre, nascido numa pensão na Praça da Sé de São Paulo, em ocupar com honras o palco do Carnegie Hall ou de receber massagens relaxantes das mãos do violoncelista clássico Yo-Yo Ma, durante um trabalho em dupla.

São etapas mais recentes da trajetória exemplar, tanto quanto discreta, de um artista hoje com 68 anos, cujos dotes ao piano surgiram inicialmente sob a rotulação “menino-prodígio”. “Sei que eu estava sendo exibido como alguma coisa fora do normal, mas naquela época fiquei satisfeito, ainda mais com o orgulho que meus pais sentiam de mim”, escreve a certa altura, sobre uma apresentação aos 13 anos num programa de rádio, gravada num disco de acetato e guardada por ele até hoje.

“Tive uma infância cheia de desejos e anseios, e zero de possibilidades. Isso quase acabou com a minha cabeça”, diz durante a entrevista, de passagem por São Paulo para lançar o livro. O contraste entre a privação e a fartura é uma das molas propulsoras de Solo, de Cesar, da música brasileira.

Eis aí um traço distintivo da narrativa de Cesar. Em muitas passagens do livro, ele vem despir o glamour da profissão e falar, sobre música, o que músicos geralmente preferem não falar em público. Em especial, vem demarcar, repetidas vezes, que a vida de um músico, mesmo o mais reconhecido deles, não raro se aproxima mais da senzala que do mar de rosas. “Sempre foi pesado. É pesado”, conclui, já ao final da entrevista.

“Momento muito difícil de lembrar e transpor para o papel é a montagem e desmontagem de Falso Brilhante”, exemplifica , referindo-se a um dos espetáculos históricos da cantora Elis Regina (1945-1982), com quem ele esteve casado por quase toda a década de 1970, e com quem teve os filhos hoje cantores Pedro Mariano e Maria Rita.

“Achei que não ia conseguir nunca escrever sobre a desmontagem, porque é difícil pra eu contar. Raramente conto. Mas resolvi contar, porque acho importante mostrar para as pessoas o que você sente. ‘Acabou o espetáculo, oba, que legal, vamos pra casa!’ Não tem o ‘oba’, rapaz! Não tem, o ‘oba’ é quando você vai começar. Acabar um espetáculo ou um disco é uma morte. O último dia de gravação de um disco é a morte. Existe aquela estúpida possibilidade de você nunca mais estar com aquelas pessoas com quem conviveu tão intensamente.”

A narrativa espanta na descrição dos apuros financeiros que o casal vivia para montar cada próximo espetáculo. O próprio Falso Brilhante (1976), afirma, foi financiado pela venda da casa onde moravam em São Paulo.

Elis ocupa cinco dos 31 capítulos de Solo. “Esbarrei com pessoas que já não estão mais aqui, dor, saudade, e isso foi terrível”, diz. “É dramático, sofrido, estupidamente gostoso, estupidamente pesado”, afirma, referindo-se não só à escrita, mas à própria vivência de mais de cinco décadas de profissão.

Saindo dos campos do glamour, Cesar transpira emoção ao falar dos tempos em que Elis combatia a prática arraigada de os contratadores e shows receberem a artista principal pela porta da frente e os demais músicos, negros ou brancos, pelos fundos. “As pessoas precisam saber que era assim. Músico não conseguia abrir crediário. Eu nunca consegui comprar a crédito. Profissão? Músico. ‘Hum, um instantinho que vou conversar com o gerente.’ Não-aprovado. Pra alugar apartamento precisava de três fiadores.”

O fundo racial da segregação não passa batido na reavaliação madura: “A grande mágoa do Wilson Simonal era essa. Jair Rodrigues nem tanto, mas também. E tem Agnaldo Timóteo, Francisco Egydio, pessoas que sofreram profundamente. No nível do glamour, no palco, está tudo certo. Acabou o show, ou antes de começar, ‘por favor, vá pela porta da cozinha’, não pode passar pela frente do teatro, ou da sala, ou da casa. Isso rolava direto. Músico nem precisava ser negro ou branco, músico não podia.”

Uma consciência aguda das diversas modalidades de preconceito emerge das páginas de Solo, desde as relações escravistas dentro da profissão até as divisões entre a música “popular” e a “sofisticada” (como se fossem extremos que não se tocam), os instrumentistas e os cantores (chamados pelos primeiros, pejorativamente de “canários”), e assim por diante. Não escapam do radar de Cesar o preconceito do sindicato, que a certa altura combatia os músicos que optassem pelos teclados sintetizados (como aconteceu com ele a partir dos anos 1980), ou a rejeição inicial de Elis pelos compositores de jingles publicitários (e Cesar foi compor jingles), ou as dificuldades vividas por um maquiador travesti durante determinada temporada de Simonal.

É por esse viés que o leitor vai, devagar, compreendendo a posição ímpar do autor no tecido retalhado da música brasileira. Detalhes surpreeendentes aparecem: um dos precursores da bossa nova, Johnny Alf (1929-2010), morou por oito anos na casa dos Mariano, quando Cesar era garoto. Negro carioca que viveu sua bossa qual exilado em São Paulo, Johnny era tratado como filho mais velho pela mãe de Cesar. Este veio integrar a geração da pretensa sofisticação e escolarização da música brasileira, futura MPB universitária. Autodidata, nunca aprendeu a ler música. Nele, o processo geral de elitização se manifestou afastando-o do samba e até mesmo da bossa, rumo ao jazz. São especialmente suculentos os relatos sobre o disco-encontro Elis & Tom, de 1974, em que o jovem arranjador teve de se defrontar – e confrontar – com a sumidade bossa-novista Antonio Carlos Jobim, em pessoa.

Ele escreve, retrospectivamente, sobre as tensões no xadrez da música dos anos 1960: “Tratava-se da intolerância por parte do pessoal da bossa nova com a música tradicional brasileira. A maioria achava o samba tradicional pobre em harmonia, sem estética, e, para eles, justamente a bossa nova teria vindo sanar a MPB. Sempre achei essa postura arrogante e sentia que o pessoal da velha guarda, com seus músicos, compositores e músicas fantásticas, puras, ficava encabulado, se sentindo de certa forma inferiorizado”.

Não é comum surgirem tais informações num livro: os sambistas se sentiam “encabulados” diante de seus pretensos “superiores”, da bossa ou da MPB, relações subalternas entre não-patrões.

O músico que surgiu como jazzista radical, nas noites paulistanas da Baiuca e do Juão Sebastião Bar, logo aprendeu o prazer de acompanhar “canários”, primeiro Claudette Soares e Marisa Gata Mansa (sua primeira esposa), depois Elis Regina, mais tarde Nana Caymmi e Leny Andrade. Mas a universidade musical de Cesar aconteceria entre as fases de convívio com Johnny Alf e com Elis Regina, e atenderia pelo nome-homem-show Wilson Simonal.

Jazzista já mais ou menos radical, Cesar foi integrar e dirigir o Som Três, trio de acompanhamento do negro carioca não-sambista Simonal, o maior showman da música brasileira na segunda metade dos anos 1960.

O apreço pelo jazz e pela sofisticação unia Cesar e Simonal. O encontro, no entanto, resultou na música mais popular e comunicativa daqueles tempos, logo batizada-estigmatizada como “pilantragem”.

“No ambiente artístico, foi um momento de grande valorização do músico, por incrível que pareça”, ele avalia. “As pessoas começaram a prestar atenção na banda que estava acompanhando o cara. O preconceito em cima da cor dele era camuflado, porque o som era bacana, pagavam qualquer grana para posar do lado do Simonal.” A ascensão e queda do rei da pilantragem terminou do modo sabido por todos, ele adquirindo “fama” eterna de dedo-duro da ditadura. Cesar havia rompido pouco antes com Simonal, e estava indo trabalhar com Elis.

Ele foge dos lugares-comuns sobre a pilantragem, e avalia o movimento como momento de grande inventividade e inovação na MPB (um lugar que a tropicália ocuparia rapidamente, e até hoje). “Artisticamente falando, foi um desenvolvimento musical pós-bossa nova muito interessante, muito rico. Aquilo era iê-iê-iê, era rock’n’roll misturado com funk, tango, bolero, valsinha, sei lá. Não importa o que era. Era uma evolução, uma progressão interessante na música, na arte, no modo de mostrar a arte.”

Ele próprio não poderia ter levado adiante o ideário musical da pilantragem? “Com Elis? Era outro gênero, não poderia, por mais que eu quisesse, e por mais que talvez ela quisesse. Porque Elis gravou ‘Sá Marina’, fez arranjos com Erlon Chaves na levada pilantragem”, deixa no ar. “Era bom, era legal, todo mundo gostava, os artistas gostavam. Quem não gostava era porque não sabia fazer, estava com dor de cotovelo. Mas Simonal saiu, foi embora, acabou.”

Ainda que soterrado instantes depois, o momento foi, também, aquele no qual o branco da bossa e o negro do samba se misturaram de fato e de direito. Era uma experiência intuitiva que Cesar trazia da infância passada perto do piano de Johnny Alf. Embora seu livro se chame Solo, existe para revelar o real lugar desse artista na música de seu país e do mundo. Cesar Camargo Mariano é o misturador, aquele que coloca para ferver num mesmo panelão ingredientes musicais que, até um minuto atrás, acreditávamos incompatíveis.

* Versão estendida de texto publicado na CartaCapital 667, de 12 de outubro de 2011

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