Preto Zezé é uma das muitas caras de um novo Brasil – de um Brasil que, como ele próprio, já botou o bloco na rua e tem cada vez mais a dizer. Zezé tem 35 anos, não é do Rio nem de São Paulo. Nasceu, cresceu e vive em Fortaleza, no Ceará. Foi lavador de carros. Hoje é presidente da Cufa, a Central Única das Favelas. Exerce a projeção que conquistou não a partir dos velhos centros de poder, e sim de sua própria terra.

Tomou posse no cargo em fevereiro passado, no tradicional Theatro José de Alencar de Fortaleza, “um desses grandes espaços não-nossos”, como define. Orgulha-se de ter testemunhado ali o encontro, numa mesma roda de conversa, entre o cantor e compositor cearense Raimundo Fagner, o mais importante rapper brasileiro, Mano Brown, e o todo-poderoso diretor de comunicação da Globo, Luiz Erlanger.

Zezé também é do rap. Como inúmeros garotos periféricos da geração dele, atribui ao gênero musical e à cultura a seu redor o clique para um sem-número de descobertas e, consequentemente, conquistas. A cultura hip-hop foi sua plataforma para a conscientização como cidadão negro (o codinome Preto Zezé é uma evidente e assumida provocação), para a participação social e política, para a Cufa, para a presidência da Cufa.

“O hip-hop é a linguagem da Cufa, mas a Cufa não é uma entidade hip-hopista”, demarca. Tampouco a Cufa é o movimento negro brasileiro ou se autodefine como uma instituição de luta contra o racismo. Sem precisar dizer nada disso, a Cufa é tudo isso – e Zezé, neste momento, substitui os cariocas Celso Athayde (ex-presidente da entidade) e MV Bill como a face à frente de todos esses símbolos e significados.

Numa noite de sábado de agosto, durante a 10a Feira da Música de Fortaleza, Zezé dirigiu-se ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, no bairro central de Iracema, em Fortaleza. Assistiu a um debate no auditório, interferiu na discussão, provocou os gestores públicos presentes. Alegrou-se ao notar a roda de break dos meninos de periferia formada num dos espaços ao ar livre do aparentemente democrático centro de lazer e cultura. E sentou-se com FAROFAFÁ num bar do calçadão, para conceder a entrevista que se segue.

Pedro Alexandre Sanches: O que significa ser presidente da Cufa?

Preto Zezé: Do ponto de vista externo, é um simbolismo muito grande, porque geralmente as entidades nacionais têm como referência o eixo Rio-São Paulo. A instituição da Cufa nasce na favela do Rio, e sua referência política passa a ser as regiões de Cuiabá (MT) e de Fortaleza (CE). Karina Santiago, que é a vice-presidente, é de Cuiabá. Não é somente o discurso contra a desigualdade, pela inclusão – é na prática, incluir e transformar, reconhecendo que há desigualdades regionais, de visibilidade, de espaço político, de participação. A gente fez a posse aqui no Ceará, no Theatro José de Alencar, um desses grandes espaços não-nossos.

PAS: Como a Cufa decide quem será o presidente, se não faz eleição?

PZ: É engraçado que no MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) também não tem eleição. Não tem corrente política dentro da Cufa. Tomamos alguns cuidados pra não reproduzir as disputas e lógicas que a gente acha desfavoráveis pros movimentos sociais. Tudo acaba virando guerra interna, que não garante poder efetivo, espaço real, visibilidade real. Criam secretaria de negros e de LGBT, e acabam legitimando um processo em que nós continuamos distantes de poder e decisão política. Não vou nem pegar o lado reacionário, atrasado: quantas lideranças mulheres existem em ambiente progressista, de esquerda, revolucionário, que quer acabar com as injustiças? As grandes referências de quem dirige espaço político ainda são homens e brancos. Nisso não se avançou, o que obriga estes setores a criarem suas alternativas. Daí nasce a Cufa. Eu fui de tudo quanto é treco, ajudei a criar dois partidos, participei de outro, fui assessor parlamentar, de movimento negro, de movimento de bairro.

PAS: Quem é o Preto Zezé? De onde veio?

PZ: Sou um cara-padrão, filho de uma doméstica e de um pintor, da comunidade das Quadra – a gente fala assim, “As Quadra”. Era uma favela de ocupação, aí urbanizaram e não colocaram nomes das ruas, então ficou quadra F, G, e acabou virando As Quadra. Fica na Aldeota, bairro nobre daqui de Fortaleza. Tive infância-padrão, aquela que você fica entre estudar e trabalhar, e é sempre a segunda opção que impera. Tem que sobreviver, e às vezes as notas azuis na escola não têm tanto significado quanto os trocados que você leva pra casa. Ao mesmo tempo, fui um cara que, apesar de ter vivido os conflitos da dificuldade da vida – criminalidade, droga, conflito com a polícia –, ainda consegui continuar estudando. E eu lavava carro na rua.

PAS: Ainda criança?

PZ: Isso, 15, 14 anos. Lavava carro na rua, num boliche que tinha perto da minha casa. E todo mundo falava de um deputado que ia ajudar as pessoas lá. Um dia encontrei o cara, falei: “Ó, arruma um emprego pra gente sair aqui da rua”. Ele mandou eu ir lá na Assembleia Legislativa. Eu fui 13 vezes, nunca deu pra ele me atender, nunca aconteceu porra nenhuma. Um dia fui tirar meus documentos no correio da Assembleia, quem eu vejo? Ele. Tirei uma onda: “Não tem jeito, deputado, político é tudo igual mesmo”. “Que conversa, rapaz, você está pronto pra trabalhar?”. “Eu tô.” Naquele dia fui ser lavador de carro na Assembleia.

PAS: Quem é o deputado?

PZ: Alexandre Figueiredo. É legal ele, era do PSDB. Hoje é professor da universidade. Eu lavava carro na Assembleia, e comecei a trabalhar dentro dos setores, como contínuo, serviços gerais, comunicação. Só não fui na diretoria, porque a disputa era venenosa lá. E aí  veio o rap, na década de 1990.

PAS: Antes de chegar no rap: como é o racismo aqui em Fortaleza, lavando carro, trabalhando na Assembleia?

PZ: Racismo em Fortaleza atua na base da imposição da invisibilidade. Um pretinho comum vem pro espaço público? Não vem, com medo de constrangimento da polícia, do olhar das pessoas, da marca da roupa que não convém pro ambiente. Então ele acaba ficando no seu lugar. Até há pouco tempo o governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), dizia que não tinha negro no Ceará. Ele fez um discurso dizendo que não tinha negro no Ceará. Foi legal que, depois, o outro governador publicou um documento, Negros no Ceará.

PAS: Tasso dizia isso com que intenção?

PZ: Dizia que não tinha negro, então não precisava fazer nada pro negro. É a invisibilidade. A construção do ideal de negro no Brasil foi sempre relacionada a tudo que é negativo. Dizem que o negro é o mais racista, mas é óbvio, ninguém vai querer assumir que é a imagem do cão, que sua cor dá azar, que tem cabelo de bombril, que é um brinquedo do diabo. Não tem por que assumir essa porra, motivo algum. Outra forma do racismo atuar é evitando esse debate publicamente, porque o debate vai gerando uma consciência, e tu começa a puxar a ponta do negócio. Ah, é assim? Quer dizer que não teve abolição? Foi um despejo? Não teve liberdade coisa nenhuma?

PAS: Ou seja, o discurso do Tasso era pra evitar o debate?

PZ: Também. Mas por ele achar que discutir negro é uma coisa negativa. Muitos negros também acham isso, e fogem, passam a ser “moreno”, “marrom”, “bronzeado”.

PAS: Você parece mestiço.

PZ: (Ri.) É índia com preto. Lembro que a Lilian Witte-Fibe estava entrevistando a Whoopi Goldberg e disse: “No Brasil não tem racismo violento como nos Estados Unidos”. A Whoopi falou: “Pelo pouco que vi no Brasil, o fato de ter a pele menos escura ou mais escura lhe dá vantagens e desvantagens”. Outra foi a Marilene Felinto entrevistando Spike Lee, ela falava também que no Brasil não existia ódio como nos Estados Unidos. Spike Lee falou: “Você acha que mais de 300 anos de escravidão não é ódio?”. Nem 1% de estudantes na universidade, você acha que é o quê? E todo mundo nega, porque nossa base de sociedade é Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre, a igualdade das raças, O Processo Civilizatório do Darcy Ribeiro, ponto. Avançar daí, não. Temos um dos maiores gênios, que recebeu um equivalente ao prêmio Nobel, o Milton Santos, e pouco se fala sobre ele. Ninguém nem conhece, em grande parte por ele ser neguinho que veio da Bahia e ganhou prêmio. Lógico, a referência tende a ser o que obtém visibilidade: a marca de roupa, a gangue, as armas passam a ser as referências pra furar o bloqueio da invisibilidade. Os invisíveis são aqueles que só a polícia vê. A única política pública que chega pra nós é o enquadro. No Brasil você não é “branco neve”, “branco gelo”. É branco, e pronto. Preto, não, preto é “moreno”, “marrom”, “bombom”… Quando alguém quer criar orgulho gay, os caras vêm com “orgulho hétero”, é ridículo, é tipo “100% branco”. Não tem sentido, ainda é a afirmação da estupidez. O curioso é que, quando você vai no cotidiano das relações sociais, o negro existe.

PAS: Por exemplo, na Assembleia Legislativa, lavando carro.

PZ: Há uns 12 anos eu adotei o nome Preto Zezé. Até hoje gera constrangimento. O cara diz: “É o Pedro?”. Ele se sente mal em falar “Preto”. Qual estratégia eu aprendi na Cufa? A gente tinha muito isso do enfrentamento, da denúncia, e os pretos de favela fugiram do movimento negro. É muito difícil romper essa fita. Na festa da quadrilha junina tu não era o noivo. No baile ninguém chamava você pra dançar. A meninazinha lavava a pele com Kiboa porque achava que ia ficar mais clara. O cabelo nunca era bonito, era sempre “bombril”, “feio”, “queimado”. Você não tem referência positiva, como vai se afirmar? Afirmar o quê, pô? Se puxasse essa fita, o movimento negro abria logo a tampa do inferno, e os pretinhos corriam: “Não, não sou isso, não”. Era muita briga, ao invés de fazer um processo de transformar esse estigma em carisma. Hoje o cara fala “Preto Zezé”, “ó o Preto!”, o Preto vira sobrenome. Cheguei em Brasília pra um evento e o motorista estava me esperando: “Sr. Preto Zezé” (ri). Botei no meu Twitter: o estigma virou sobrenome. A minha figura é isso, de uma maneira não neurótica, sem essa de “os brancos são filhos da puta”. Acaba trazendo o debate pra um nível mais civilizado, de mudança, pedagógico, que é onde a gente avança mais. Aí muda o preto e muda o branco.

PAS: Não sei se é bem isto que você está dizendo: a Cufa é o movimento negro, mas não precisa dizer que é?

PZ: Precisa dizer que o cavalo de Napoleão é branco? Que cor é o cavalo branco de Napoleão? E na Cufa nós fizemos mais. Como o “100% branco” já existe, a tendência é a Cufa se transformar numa ONG de brancos, como é a maioria das ONGs. O que fizemos? Estabelecemos uma cota de 10% pros brancos (ri), pra garantir que não vai virar uma entidade de brancos. É uma forma de, pedagogicamente, ir discutindo alguns temas que a sociedade não consegue discutir tranquilamente. Imagina fazer esse debate lá na Ponte Espraiada, pro pessoal da classe média de São Paulo. Na esquerda e na direita nós estamos excluídos. “Esse cara é de direita” ou “é de esquerda” não é uma pauta. Cheguei na África e perguntei pelo movimento negro, o cara falou: “Zezé, não tem movimento negro, todos somos negros”. A perspectiva não é de revanchismo. Seria um desenvolvimento melhor e mais justo no Brasil se os negros tivessem acesso à educação, à saúde. Seria um país realmente diverso, exercitaria a democracia e a diversidade cultural de que tanto se fala. É bom ter essa diversidade, mas na hora de incluir uma oportunidade ninguém quer discutir diversidade. Todo mundo é contra cota, contra qualquer porra que reflita a diversidade.

PAS: Ninguém gosta do personagem do Lázaro Ramos na novela.

PZ: Chego na Suécia, tem mais preto na televisão e na publicidade que no Brasil, eu não entendo porra nenhuma! Tomei um choque vendo os pretos apresentando programa de TV num país nórdico. Um monte de preto na TV, em propaganda de banco, cargos públicos de influência, num país dos brancos. Aí você chega na Bahia ou no Maranhão, que é o estado mais preto do Brasil, e os pretos nunca foram direção de poder em nada.

PAS: Você ia falar do rap, eu não deixei, agora vamos.

PZ: Aí veio o rap, nessa época de deslumbramento com a malandragem, com as roupas, início da década de 1990. Aí, bicho, tem duas músicas que acabam comigo. Uma era “Homens da Lei”, que lançaram numa coletânea, Cultura de Rua (o disco é de 1988, e a faixa é de Thaíde & DJ Hum). Tinha vários caras da antiga, MC Jack, Código 13. O cara desce o pau na polícia! Eu fiquei em choque, porque até então no cotidiano da juventude na favela a violência policial era parte do nosso cotidiano, era naturalizada. Aí vem um maluco fazendo uma música, gravando um disco, descendo o pau!  Aí conheço o rap, fico empolgado, hip-hop, e vem a minha descoberta de preto, com “Negro Limitado” (1992), dos Racionais MC’s. Aí acabou comigo. Até falei pro Mano Brown quando conheci ele: “Cara, você fez aquela música pra mim”. O cara falava pro preto, que o preto não escutava, chamava ele de otário. Aí, pronto, foi o transtorno, aí vem Malcolm X, o interesse pela leitura.

PAS: “Negro Limitado” representava uma quebra da invisibilidade?

PZ: Não, ela quebrava o cativeiro mental. Vem “Negro Limitado” e diz pro cara que ele se acha porque está no crime, as roupas caras, as etiquetas: “Mas veja só você, não sabe nem sequer dizer o número de cor do próprio RG, príncipe dos burros, limitados”. Pô, isso chocou, foi pesado. Aí fui conhecer literatura negra, a fita voltou total, e eu nunca mais fui o mesmo. Vem o boom da revolta, e o rap acaba sendo o canal. O rap é mais do que música nesse momento. Criei até um projeto com usuários de droga e chamamos de Rapterapia. Como um ritmo que no Brasil não é viável economicamente, que só vive criticando, cresce pra caralho à deriva do sucesso, da fama, do mercado, sem dar dinheiro nenhum e sem ter uma cultura de interpretação como os outros estilos musicais? Nossos intelectuais do povo estão escrevendo, fazendo a sociologia da rua fora dos bancos da universidade. É a rapterapia através da fala!

PAS: E você foi fazer rap também?

PZ: Fui, foi legal pra caralho. Montamos um grupo, Comunidade da Rima. Fizemos a primeira coletânea, Favela por Conta Própria, que era toda uma discussão acerca de autogestão, de construir os próprios instrumentos. Era 2002. Em 2004 lançamos nosso próprio disco.

PAS: Tenho que confessar que não conheço…

PZ: A gente não divulgou, não botou na rua. Botamos na rua, mas não teve grande repercussão, primeiro porque estava fora do eixo Rio-São Paulo, e segundo porque, na nossa lógica – hoje vejo equivocada, mas pra época foi importante –, não era interessante nós forjarmos um mercado. A gente tinha vergonha dessa conversa. Hoje é o oposto, né?, todo mundo fala de dinheiro no rap.

PAS: Como era a cena de rap aqui no começo?

PZ: A turma do rap do Nordeste surgiu como uma referência politizada. No surgimento, as instituições de rap foram todas formadas por gente que vinha de movimento social e por gente de rua. O discurso político do rap juntou com a vivência de rua, que foi o meu caso. Vim da rua pro rap. Foi foda, porque pra muitos de nós gerou um acúmulo de informação, conhecimento, formação, entendimento, uma visão de mundo muito avançada. A gente passou, sem perceber, a fazer da produção cultural do hip-hop um aparelhamento dos grupos partidários.

PAS: Hoje tem gente do movimento hip-hop aqui no Dragão do Mar…

PZ: Faz tempo que os moleques do break dançam aqui. No Nordeste acontecem os primeiros seminários regionais sobre o hip-hop enquanto movimento social. Era uma tentativa de produzir um movimento social em que o hip-hop fosse a linguagem e o carro-chefe. Na nossa cabeça a gente imaginava que o Mano Brown seria o João Pedro Stédile da periferia. Só que isso era uma incubação da esquerda e da universidade. Na verdade o Brown nunca quis ser essa porra, não se entende como tal e nem quer. Aquela entrevista dele no Roda Viva foi engraçada, porque foi um choque em tudo que a esquerda e a academia sempre discursaram sobre os Racionais (ri). E a gente acabou não conseguindo se organizar, porque se reproduziu a lógica da esquerda na nossa cabeça, aquela luta interna, as correntes se matando. Cada um foi pro seu lado. Em 2003, veio o encontro com o Lula, que muda tudo. Ele disse: “Eu quero conversar com vocês, mas criem uma instituição, pô”. Lá em Brasília o Lula nos recebeu. Foi a primeira vez que um presidente nos recebeu.

PAS: Foi ele que falou pra vocês criarem uma instituição? A Cufa não existia ainda?

PZ: A Cufa existia só no Rio. Nesse encontro estávamos o MV Bill, o pessoal do Maranhão, nós, GOG, Edi Rock, KL-Jay, as representatividades nacionais. Nessa época eu já vivia nos questionamentos a respeito. Eu era o crítico número um do Celso Athayde (primeiro presidente da Cufa), talvez por uma necessidade de controlar o que estava sendo feito, que é da cultura nossa de esquerda – quem não está na nossa linha é inimigo, naquela lógica fratricida.

PAS: Você fazia rap, ainda trabalhava na Assembleia, via a Cufa se formando e criticava a iniciativa?

PZ: Criticava o Celso, no Rio. Ele era produtor de shows dos Racionais, e eu fazia shows dos Racionais aqui também. Resultado: quando começamos a conversar mais, a aproximar, vimos que as nossas críticas em relação ao hip-hop eram muito parecidas. E acabou que decidimos montar um núcleo da Cufa a partir daí. A Cufa aqui vai nascer depois da discussão com Lula. Eu queria montar uma rede nacional, com Racionais, mas eles nunca quiseram.

PAS: Você entende por que nunca quiseram?

PZ: São quatro pessoas, é muito difícil ter unidade ali. E o Brown nunca quis ser líder de porra nenhuma. Quer fazer a música e pronto, acha que essa é a contribuição dele. Passei a respeitar isso também. Mas ele acha que é importante ter caras como nós. Tem uma visão muito democrática, muito realista. Veio aqui pra minha posse, foi legal juntar ele, Luiz Erlanger, que é diretor da Globo, e Fagner (ri). Eles conversaram, as fotos estão no Facebook. Caralho, ó quem eu consegui trazer pro mesmo espaço. Ao invés de ser pautado por um partido ou grupo político, nós pautamos todos os vários que existem com a nossa pauta. E garantimos credibilidade e respeito, a ponto de chamar dirigentes de tudo que é partido e instituição, juntar cara do MST com cara da Globo, povo da minha comunidade com empresários da construção civil, governador, prefeito. Caralho, olha onde nós chegamos.

E por que fez a avaliação de formar a Cufa? A gente viu os limites do hip-hop. Foi muito importante, salvou a minha vida num dado momento, mas chegou num ponto que não tinha mais nada a dizer. Não é que morreu, é que perde a causa. O rap pregava uma revolução, mas na prática ninguém fazia nada pra essa revolução acontecer. Começamos a perceber a diversidade musical que é na comunidade, a rejeição que o rap tem na favela. Ao mesmo tempo não podíamos abandonar o rap, que era nossa origem, nossa alma. O hip-hop passa a ser a linguagem da Cufa, mas a Cufa não é uma entidade hip-hopista.

PAS: Existe uma rejeição ao rap nas comunidades aqui?

PZ: Aqui, não, no Brasil todo. Você faz uma festa de rap, só vai gente do rap. Tem dificuldade, por ser um ritmo de crítica. Aqui também se ouve rap, mas não é música de massa. Tem um grupo de massa, que é Racionais, que pega cara de classe média, branco, preto, mulher, playboy, bandido, vai todo mundo. É um grupo de massa, mas não é a realidade do rap.

PAS: A massa aqui é do forró? Ouvi bastante funk nas ruas.

PZ: Também, o funk sempre teve espaço. E aqui os bailes foram proibidos – é inconstitucional, está proibido. A gente alertou as indústrias, os donos de baile. Os caras, ideológicos, com ódio da elite, diziam que o funk era o sistema explorando a juventude. Nem era, era cara de barraco, de favela, que começou a botar umas caixas de som, a juntar gente, e virou. Teve uma reunião no palácio do governo, o secretário de segurança falou que ia acabar com os bailes: “O hip-hop é consciente, esse negócio quer alienar”. Queriam nossa ajuda, nos intimidar pra fechar o baile funk. Eu disse: “Sou contra”. A galera mais ideológica queria fechar. Pra fechar um sistema está sendo aliado de outro sistema pior, a polícia? Acabou não tendo acordo, foi um estresse. Fecharam o baile funk. Aí sabe o que aconteceu? A violência nos bairros foi pra dentro de torcida de futebol.

PAS: Quando e por que você saiu da Assembleia, e dos empregos mais subalternos?

PZ: Porque ficou num nível de demanda que não consegui conciliar o trabalho e essa militância. Com o hip-hop já fui me afastando aos poucos, e quando vem a Cufa…. Também fui pra militância político-partidária.

PAS: Qual partido?

PZ: O PT. Fui PT de 1990 a 1994. Saí pra criar o PSTU. E depois pra ajudar a criar o PSOL. E depois saí de tudinho também (ri). Hoje sou do PNI: Partido dos Nossos Interesses. Veio me questionar um amigo meu em São Paulo, o deputado Ivan Valente: “Pô, está negociando com José Serra? Estão flertando muito com o PSDB”. São os nossos interesses, amigo. O PSDB é gestor público do processo, tem que ter clareza, né? A nossa política de esquerda sempre foi dos meninos bem-nascidos, educados, dizendo pra nós como fazia revolução, só que com herança, com pai e mãe. Muitos de nós não tinham nem pai. No livro sobre o crack falo sobre isso.

PAS: Não conheço seu livro também.

PZ: Estou terminando. Falo um pouco da formação da favela, vai chamar Selva de Pedra – A Fortaleza Noiada. Tem uma média de 25 mil usuários de crack só em Fortaleza. É dado da coordenadoria de juventude da prefeitura, de 2007, deve ter mais hoje.

PAS: Quando foi aberta a Cufa Ceará?

PZ: Politicamente em 2004, e oficialmente, com CNPJ e tudo, em 2005. A Cufa segue uma lógica: cada CNPJ é de quem criar. Por quê? O trabalho que estou fazendo pela Cufa não é um favor pro Celso Athayde, ele nunca interferiu em nada. Estou construindo a minha Cufa aqui, e essa é a lógica de desenvolvimento e revolução da Cufa: empoderamento real. Celso me chamou: “Tá na hora”. Era eu, Celso, Linha Dura e mais uns quatro só. Hoje tem núcleo nos bairros, agora tem uma porrada de maluco.

PAS: Tem uma sede?

PZ: Tem, um escritório lá na Aldeota, quinto andar. Quando a gente foi pedir pra alugar e levou o estatuto, o cara pensava que era associação de moradores, falou: “Central Única das Favelas? Não, não quero aqui no meu prédio, não”. Aldeota é bairro rico, os Jardins daqui.

PAS: A sede não fica numa comunidade?

PZ: Não, comecei a Cufa com a base na minha comunidade, numa casa alugada, só que o bagulho cresceu. A Cufa tem um perfil meio de empresa social. A gente é um movimento de favela com mentalidade de branco gerente de banco do asfalto. É isso, cara.

PAS: E o dono do prédio não queria deixar?

PZ: Não quis, o dono da imobiliária. Mas o advogado deles é advogado da Cufa, um negão que tem escritório lá, várias salas. Foi fazer a mediação, falou que assinava embaixo. Quando passaram três, quatro meses, que começou a ver repercussão na mídia, a me ver por lá, o cara falou: “Poxa, Preto Zezé, quero pedir um milhão de desculpas pra você, sou seu fã, cara”. Vamos indo assim, no constrangimento pedagógico.

PAS: Dói quando acontece, não dói?

PZ: O tempo todo. Se você não tomar cuidado, fica neurótico. Toda hora é uma paulada. Quando assisti Malcolm X saí transtornado do cinema. O cara do Alabama, 1965, criminoso, de favela, preto, droga, arma, putaria, e nós no Brasil, 1994, a mesma porra. Não é fácil. O rap foi a música responsável por fazer os pretos descobrirem que eram pretos no Brasil. É inexplicável, um grupo que tem nome de preto e nunca fala de preto: Raça Negra. Não tem uma letra que fale. O único pagode que vai falar de preto é “Marrom Bombom”.

PAS: Mas já é uma coisa positiva ter o nome Raça Negra, não?

PZ: Não estou dizendo que não é legal, estou dizendo que não pode falar publicamente, e isso só confirma a tese. É um mal-estar pra botar assunto de preto. Você tem que cuidar pra não virar realmente um ser antissocial, achar que todo mundo que divergiu comigo é “playboy branco”. Estou fora. Na Cufa a gente mantém a essência de preto, mas não é o xingamento do sistema que vai mudar. Não, é agora, o empoderamento real dos pretos.

PAS: Como a comunidade aqui se relaciona com a Cufa?

PZ: Agora está todo mundo querendo ser a Cufa, porque a gente tem um nível de pressão e mediação junto ao poder que repercutiu muito. O problema de uma gestão de esquerda, como é aqui, é que as lideranças dos movimentos sociais todas vão pro governo, e o movimento fica sem cabeça na rua. Aí, pra fazer um outro Zezé é mais 15, 20 anos. Por isso as igrejas crescem.

PAS: E o candomblé?

PZ: Bombando. Mas sem querer fazer interferência política, quer só agregar. Os evangélicos estão avançando. Minha mãe é macumbeira, na nossa época invadiam terreiro, quebrando porta, dizendo que era do demônio. Eu batia tambor lá.

PAS: Você tem religião?

PZ: Não, não tenho. Fico dialogando com todo mundo. Até porque não dá, minha mãe ia nos tambores, depois foi pra igreja evangélica, aí voltou, saiu, foi pros tambores de novo. No Brasil o cara vai pra igreja na quinta, no sábado vai pro terreiro, bate tambor e volta, aí come uma hóstia no domingo de manhã. Brasil é muito bom, cara. Esta semana minha mãe me ligou dizendo: “Sonhei tal coisa, tem que bater uns tambores”. Eu sempre considero os sonhos dela, né?

PAS: O escritório ser em bairro rico afasta você da comunidade?

PZ: Não moro mais com minha mãe, moro do outro lado da cidade. Não moro em comunidade, hoje moro em condomínio. Eu e MV Bill ficamos debatendo isso durante anos: se for morar num predinho ali perto da favela vai estar traindo, não vai… O sonho de todo moleque da favela é comprar uma casa boa pra mãe dele. Não vamos estar traindo, vamos trair se perdermos a referência da favela. Continuo com a mesma conduta, frequentando. É só você não se afastar do cotidiano, isso ajuda a gente a não se alienar, a não achar que somos parte porque estamos famosos, transitando. Nós não somos. Nós estamos lá pra garantir nossa pauta.

PAS: Mas também são uma parte dessa mudança que vocês mesmos estão construindo, e que merece um lugar na Aldeota, por que não?

PZ: Entendeu? Vou ter prédio na Aldeota, os caras chegam: “Onde é a sede da Cufa? Na Aldeota? No prédio do Bradesco?” É. “Nossa, que é isso? Essa Cufa está rica.” Eu digo: “Ainda bem”. Tem que ficar fodido lá no gueto? Isso faz parte do pensamento da casa-grande e senzala. A favela não gosta de ser a senzala. Mas nós, pelo fato de deixarmos de ser senzala na condição social, não podemos nos comportar e achar que somos a casa-grande. Nós somos um quilombo melhorado.

PAS: Senão é outra contradição, o cara do rap que passa a viver de outro jeito, mas continua fazendo o mesmo discurso de antes.

PZ: Aí o cara da galera olha pra tu e diz: “Porra, legal a tua música, mas tá do mesmo jeito, fodido”. Por que as referências na comunidade são os caras do crime? Porque é o cara que mais progrediu, tem as roupas mais massa, a mulher mais gostosa, as armas, os carros, as casas mais bonitas. Nem é muita coisa, como quiseram mostrar naquela casa que invadiram no morro, com piscina, TV LCD. Todo mundo quer aquilo, cara. “Ah, é castelo.” Castelo de quê, caralho?

PAS: A mídia fez as reportagens mais preconceituosas do mundo sobre aquela casa.

PZ: Puta que pariu, que matéria ridícula, eu até falei pro Erlanger: “Erlanger, ridículo. Por que vocês não fazem isso quando descobrem cara do governo roubando, a casa do cara no bairro rico, a fazenda dele?”.

PAS: A Cufa é o MST da cidade, e o MST é a Cufa do campo?

PZ: Guardando as devidas proporções… O Stédile me chamou: “Zezé, você tem que ir lá conversar com os meninos”. Pra falar de questão sexual, que tem uma porrada de menino gay, negada fumando maconha e acordada até tarde depois do horário que tinha que dormir. Quando Stédile me chama, reconhece que nossa prática tem uma legitimidade, senão não tinha diálogo. Um amigo meu de sindicato disse: “Agora a Cufa vai pra esquerda, você é o presidente”. Ele diz que a Cufa é pelegona. Não, tem que ver o lugar comum de onde parte a sua militância. Nossa militância não é modelo passeata, grito, fora do eixo. Isso é legal, bacana, importante, mas é pra um público de classe média que já tem outros problemas resolvidos.

PAS: Mas não seria legal a Cufa entrar nesses movimentos?

PZ: Só que tem problemas antes. O cara está discutindo Creative Commons, a gente não tem nem computador. O cara fica discutindo economia criativa, o outro não tem nem emprego.

PAS: É por isso que as comunidades não vão nas manifestações?

PZ: São atores diferentes em lugares diferentes. O amigo do sindicado queria que a Cufa assinasse uma nota com pautas comuns da nossa luta social contra as empresas empregadoras. Queriam ampliar direito dos trabalhadores, ônibus, transporte. Altamente justa a pauta, altamente correta, função do sindicato, coerente. Só que ele estava partindo do pressuposto de uma categoria que já tem sua carteira assinada e vai ampliar os seus direitos. Eu parto de uma base social que não tem nem emprego ainda. Como eu levo mil pessoas do nosso público pra rua hoje? Como levo pra um auditório um cara com sono e com fome, ou sem dinheiro pro ônibus?

PAS: Você é o primeiro cara da Cufa que fala aberta e publicamente que gosta do Lula. Celso e Bill são mais reticentes, elogiam, mas sempre colocam alguma crítica junto.

PZ: Mas isso é quanto ao governo, não a figura pessoal do Lula. Eles falam também. Nós somos amigos do Lula pra caralho, temos foto com ele, a gente fala bem dele toda hora. Eu falo mais pra provocar debate, inclusive com o próprio PT.

PAS: É mais uma diferença entre o Sudeste e o Nordeste, que assume muito mais o Lula.

PZ: É, tem também isso. Falei pro Stédile: “Ó, a cidade é diferente, não tem dinâmica de direita e esquerda”. Os caras ficavam reproduzindo que nós éramos um braço da CUT dentro das favelas, eu lembro. Com o tempo se diferenciou, nós somos um braço autônomo da favela. “Vocês são de direita ou de esquerda?” Não, somos da favela.

PAS: Quais são suas metas na presidência da Cufa?

PZ: A gente tem que ampliar as Cufas do Nordeste. Vou me dedicar ao fortalecimento delas, que são mais fragilizadas, têm menos abertura, uma juventude economicamente sem acesso. É só ler os dados, a desgraça está aqui. Em todos os dados oficiais, IBGE, os pretos estão fodidos. Esse debate não é resolvido, não vai ser superado enquanto os pretos não forem protagonistas do processo.

PAS: Pelo fato de você estar aqui, a Cufa está menos visível para a chamada grande mídia?

PZ: Não está, não, pelo contrário. Em nível nacional a gente conseguiu imprimir uma visibilidade própria da Cufa, que acaba pautando inclusive a Globo muitas vezes. Hoje a visão da Globo sobre o rap é outra.

PAS: Continua não mostrando rap.

PZ: Lógico, nunca mostrou. Mas também não bombardeia. Tinha tudo pra bombardear. Como a Globo não é nossa patroa nem nossa empregada, e vice-versa, tem momentos que temos pontos em comum e outros que divergimos. No debate do CCBB, o Erlanger era contra as cotas e o Celso era a favor, o pau comeu. Nós trucidamos o Erlanger no plenário (ri)!

PAS: E ele continua contra?

PZ: Continua, lógico. Muitos pretos também são contra. Eu também sou contra, só que não tem nada melhor. O cara quer que o pretinho fique esperando, até melhorarem a educação no Brasil? Para com isso! Qual é a universidade menos racista do Brasil? A universidade privada, porque o preto que trabalha vai lá pagar e estuda à noite. Como é que o Lula ia botar os pretos na universidade? Não tinha jeito, cara, no Brasil não tinha jeito. Ah, o ideal seria fortalecer a educação pública – quantos anos ia demorar isso?

PAS: E está funcionando?

PZ: Os pretos estão todos assim (ergue a cabeça em sinal de orgulho). Preto antes se escondia, porque tudo que referendava preto era negativo. Aí você começa a mudar a face do Brasil que não se assume, que tem problema.

PAS: A gente tinha uma tradição de ninguém se assumir, identidade nenhuma: preto, índio, gay, mulher, nordestino…, ninguém se aceitava bem.

PZ: E está melhorando! Por quê? Porque um filho lá do Nordeste que não estudou porra nenhuma decidiu olhar para os pobres… Não fez nada demais o Lula. Imagina se o José Serra ganha, eu tinha ido embora pra Suécia. Segura aí que vou pra aí lavar prato. Não dá. O pensamento reacionário estava com o Serra.

PAS: Dilma Rousseff tem quase o mesmo tempo de mandato que você. Qual é sua avaliação sobre ela?

PZ: O que se demonstra na Dilma é a continuação que precisamos avançar. O Lula fez uma união no país, o que a social-democracia não fez na Europa e aí a direita foi, avançou e ganhou. A Europa não quis promover um pacto, a direita ganhou. Lula pegou o presidente da Sadia e pôs dentro do governo. Promoveu um pacto, acabou, liquidou, fez injunção política, fez avanços no Brasil compondo com a direita brasileira, com setores industriais. E Dilma é a continuidade, agora é começar a limpar o bonde. O que me preocupa é que, durante o governo do Lula, como os movimentos sociais tinham muito trânsito e diálogo, eles se sentiram quase em casa, quase que o governo era o movimento e o movimento era o governo. E no governo da Dilma, nós vamos precisar de mobilização da sociedade pra garantir algumas coisas que não está tendo. E aí não adianta vir no movimento de condenação, crise na cultura, vamos varrer. É ministra da Dilma, meu amigo. Faz o debate na sociedade, mobiliza gente, faz fórum, referenda, ganha o debate na sociedade e impõe agenda pro governo. Os movimentos estão muito acostumados com o Lula, boa praça, amigão. Dilma não é o Lula, ela é ela.

PAS: O que o Zezé, cidadão, gosta de ouvir de música?

PZ: No momento estou ouvindo Sam Cooke, cara. Fazia tempo que não ouvia. E estava ouvindo muita Amy Winehouse.

PAS: E brasileiros?

PZ: Brasileiro? Estou ouvindo muito Fagner, muita música do Nordeste, porque vou fazer um disco dialogando com os músicos do nordeste. Vou fazer um com o Comunidade da Rima, com rap bem tradicional, e um meu, que eu sempre quis fazer. Quero o rap dialogando com todo mundo. Vou chamar de Diálogos. Vai ter música com Fagner, um disco de RPB, ritmo popular brasileiro.

PAS: E você vai cantar?

PZ: Lógico. Eu canto e escrevo. Vou botar livro e filme na rua. Vou fazer um filme agora, O Jeito Favela de Ser Feliz. Todo domingo, milhares de pessoas se movimentam nas periferias. Entra todo mundo no ônibus, e vai pra um outro bairro jogar futebol, tomar cerveja, conhecer, namorar, dar porrada às vezes. Todo final de semana o pessoal pega uma casinha na periferia e monta um forrozinho lá, uma radiola, uma sinuca, um lugar com churrasquinho de gato. A favela vai se virando, como ela faz pra ser feliz: O Jeito Favela de Ser Feliz.

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