(…continuação do tópico anterior.)

Em breve o disco 3 d’O Teatro Mágico estará disponível via internet e, mais à moda antiga, em megastores tipo Fnac, Livraria Cultura e Saraiva, que comercializam sem mais intermediários os CDs do grupo. A fricção com o mundo velho reluz n’A Sociedade do Espetáculo, em faixas como “O Que Se Perde Enquanto os Olhos Piscam”, que o autor pensa em assinar como uma parceria entre Fernando Anitelli, twitteiras e twitteiros.

A canção foi concebida de fato via Twitter, ao vivo, com @Fanitelli solicitando que os seguidores enumerassem objetos que se perdem com facilidade, como guarda-chuvas, tampas de caneta etc., e partindo a seguir para sentimentos e situações mais abstratas que se perdem idem. “Pronde vai o solo que não foi escrito?/ (…) a culpa da cópia?/ pronde foi a versão original?/ (…) São Longuinho, São Longuinho/ pra onde foi a coragem do meu coração?”, pergunta-cutuca a letra.

Como de hábito, estão postos, nessas singelas provocações, dilemas mais fundos, que tensionam música, músicos, artistas, arte, cultura, Ministério da Cultura. De quem é a culpa da cópia? Para onde foi a versão original de tudo que se copia, transforma e recria? Para quem irão os direitos autorais de uma música assinada por “Fernando Anitelli, twitteiras e twitteiros”? O (co)autor não sabe responder, e rebate as provocações para o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição):

“É a contemporaneidade, hoje em dia é assim. O fã mais apaixonado vai no show, grita, canta, compra camiseta e CD na lojinha, chega em casa, bota no computador, chega no Facebook e diz ‘galera, ouve isso’, tum, acabou. Isso é crime? Claro que não, crime é outra coisa. Crime é o Ecad cobrar de todo mundo e repassar direitos autorais por amostragem. Fizeram acordo com o YouTube e não caiu nada na minha conta até agora, dos não sei quantos milhões de visualizações que tem d’O Teatro Mágico por aí. Pegam de todo mundo e repassam para os autores das músicas mais ouvidas. Mas quais são as mais ouvidas? São as que pagam jabá pra tocar no rádio.”

Ele reclama de, por exemplo, ter de assinar declaração abrindo mão de seus direitos quando produz o próprio show, para não ter de pagar ao Ecad parte da bilheteria arrecadada a título de direito autoral. “Pô, mas a música já é minha. ‘Não, mas a gente está cuidando da sua obra.’ Mas está protegendo a minha obra de quem? De mim? Se eu não abrir mão, o Ecad vai recolher 10% do valor das entradas e me voltar depois só uma porcentagem disso, uns 7% mais ou menos. Cinco por cento dos artistas vivem bem de direito autoral. Os outros 95%, cara, vão tocando a troco de suco de laranja e misto quente.”

Evidentemente, tem preços a pagar quem não se insere bovinamente no sistemão pré-estabelecido pelo conglomerado gravadora-editora-mídia. “De execução em rádio a gente ganha pouquíssimo, pouquíssimo. Porque não toca quase nada em rádio mesmo. Toca em rádio do interior, quando a gente vai fazer show no interior. Rádios comunitárias, por exemplo, são cobradas pelo Ecad, tocam O Teatro Mágico, e isso não vem pra gente.”

Fernando se embrenha na questão, mostrando saber exatamente o que está em jogo num tabuleiro em grande medida viciado: “O que a gente não tem é força na mídia tradicional. Tocar em rádio, entrar numa novela, tocar na TV. Não é que a gente não queira. A gente é contra o mau uso que se faz desses espaços que deveriam ser democráticos, só isso. A internet vem colaborar pra caramba pra isso, como uma puta ferramenta, que tira o atravessador cultural e põe você frente a frente com seu público.”

Vejamos um exemplo de efeitos da ausência de mediação tradicional, via gravadora, rádio, TV etc. De Geraldo Vandré para cá, tornou-se voz corrente, reproduzida quase sempre sem qualquer reflexão ou espírito crítico, afirmar e repetir que “música de protesto é chata”. Desde os Racionais MC’s, a porta dos fundos da “grande” indústria fonográfica vem sendo arrombada nesse flanco – o rap é música de protesto, milhões o consomem nas periferias, mocinho e mocinha apaixonados pelos janelões da “grande” mídia seguem repetindo jargões como “protesto é datado”, feito papagaios pendurados no ombro do Capitão Gancho.

De repente, uma pequena multidão se enamora pelas canções de amor, mas também pelos protestos d’O Teatro Mágico. Em 2010, Fernando vai ao palco “ecossustentável” do festival SWU com camiseta do Movimento Sem-Terra por baixo da fantasia, exibe-a durante o show, e nem por isso desperta hostilidade da organização do festival, menos ainda antipatia do público que urra à sua frente. Jornalistas “indie” elogiam o flerte do Rage Against the Machine (“Raiva Contra o Sistema”, preciso traduzir?) com o MST, mas se calam sobre o namoro bem mais sério TM-MST.

Fernando avança nas provocações: “É um festival que se diz ecossustentável, se autoafirma politizado. Cheguei lá, parecia um parque de diversão da Coca-Cola. Era como entrar numa festa do vegetarianismo promovida pelo McDonald’s. Entramos lá porque o SWU fez uma votação na internet sobre que banda estava faltando, e deu Teatro Mágico.”

O fogo engajado aparecerá em A Sociedade do Espetáculo em canções como a lírica “Terra”, de Pedro Munhoz. “Ele é um trovador lá do Rio Grande do Sul, tem uma participação muito grande dentro do MST. A batida era mais regional, de guarânia, a gente quebrou”, explica Fernando. O produtor Daniel Santiago queria preservar a identidade original, mas foi voto vencido. “É a música que você não gosta, Daniel”, brinca Fernando. “Eu tinha feito um arranjo mais regional, de chacarera, mas eles não curtiram”, retruca Daniel.

O viés engajado percorre todo o CD, provavelmente mais que nos dois álbuns anteriores. “Amanhã… Será?” versa sobre os movimentos de massa que vêm acontecendo no Oriente Médio, na Espanha, no Brasil. “Transição” denuncia a “hetero-intolerância branca” e critica, sem nominá-las, as corporações produtoras de sementes transgênicas. “Fiz uma Canção pra Ela” fala de amor, mas sob uma perspectiva de “igualdade” e “autonomia” feminina.

Pareça bobagem, ou pareça “chato”, “datado” ou o quê, mas… Quantas canções dessas espécimes encontram lugar ao sol sob o sol da “grande” mídia?

“O Outro Testamento” provoca por outra via, usando batida de funk carioca, gênero por sinal tão predisposto ao protesto como o rap. “Queremos repensar a maneira de ver certas coisas, esse preconceito de proibirem manifestações sociais como o baile funk. Recriminar um ritmo não faz sentido”, explica Fernando, enquanto ouve a canção. “Ao vivo, a gente faz o Bonde do TM. O que é legal é que o próprio público do Teatro Mágico que diz ‘ai, funk não’, essa galerinha de classe média, agora está engolindo o funk que a gente está trazendo.”

Outra tema complexo chega agora à mesa, servido por Fernando em pessoa: quem é o público d’O Teatro Mágico? Trata-se de um grupo devotado à famigerada classe média, a camadas escolarizadas equivalentes às que consomem “forró universitário”, “sertanejo universitário”, “(preencha-você-mesmo) universitário”? Que mundos habita O Teatro Mágico, entre a lona do circo e a tela da TV, entre a “Terra” caipira e rural e a urbanidade “moderna” do pop e da MPB?

(…continua.)

Fernando Anitelli caracterizado como o palhaço d'O Teatro Mágico

 

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