(Entrevista originalmente publicada no iG, no dia 30 de junho de 2011, aquiaqui.)

 

Dussek com Ney na gravação do DVD - Foto Divulgação

O homem de fraque e cueca samba-canção conta piadas que fazem o público se torcer de rir. Está sentado ao piano e, entre uma blague e outra, canta músicas também divertidas. Poderia ser um show desses que estão na moda, de stand-up comedy (embora o humorista esteja sentado), mas não é.

Trata-se do carioca de Copacabana Eduardo Dussek, que inventou um formato peculiar de piada-piano-canção há mais de 30 anos e está de volta neste 2011, diante de uma plateia lotada do teatro Oi Casa Grande, no Rio. Dussek (ex-Dusek, modificado por causa de pronúncia e numerologia) grava ali o primeiro DVD de sua carreira, que conterá piadas, mas retomará, entre elas, versões piano-voz para hits pop-rock dos anos 80, como os satíricos “Nostradamus”, “Barrados no Baile”, “Rock da Cachorra” e “Doméstica” ou as ternas baladas “Eu Velejava em Você, “Cabelos Negros” e “Aventura”.

Numa coisa Dussek é diametralmente oposto aos comediantes stand-up de hoje (um deles, Rafael Cortez, está presente no show, trabalhando pelo “CQC” e aproveitando para entregar um CD em que toca violão clássico para o pessoal da atual gravadora de Dussek, a Deckdisc). Em vez de fazer graça à custa dos dissabores de pobres, gays, negros, mulheres estupradas etc., Dussek elege a si próprio como principal alvo de um humor sarcástico, autocruel.

Até há uma ou outra piada de português, mas a autodepreciação é a chave do show deste que é tão tio do stand-up quanto foi, nos anos 70, sobrinho do teatro besteirol. Em entrevista, ele segue falando mal de si próprio: “Fiz um CD que foi horrível, eu mesmo achei uma merda”. Refere-se ao disco “Contrastes” (1991) e ao chá de sumiço que tomou dali em diante, até voltar investindo em outra vertente que acalentou desde o início, das picarescas marchinhas de carnaval.

Entre uma e outra auto-avacalhação, é obrigado a se elogiar, ainda que indiretamente, ao relembrar sua participação constante na cena cultural brasileira, nos adventos do besteirol, da androginia à moda de Secos & Molhados e Dzi Croquetes e, mais adiante, da geração pop-rock dos anos 80.

Pedro Alexandre Sanches: Você se sente um precursor da febre de stand-up comedy?

Eduardo Dussek: Não puxo essas brasas pra minha sardinha, porque acho automarketing uma coisa muito chata. Eu simplesmente faço. Quanto mais existe esvaziamento cultural, mais a comédia preenche. Vira um gênero de primeira necessidade.

PAS: O humor é uma das suas origens? Ou apareceu depois?

ED: É uma das origens, porque comecei com o teatro besteirol, que é a base do stand-up comedy de hoje em dia. Eu era pianista e ator ao mesmo tempo. Acabei me unindo com o besteirol e acabei percebendo que as músicas que eu fazia tinham o mesmo estofo, o mesmo recheio que tinham Vicente Pereira, Miguel Falabella, Mauro Rasi, que curiosamente trabalhavam muito em São Paulo nos anos 70. A primeira vez que vi foi em São Paulo, mas com gente carioca que foi morar em São Paulo. Morei várias vezes em São Paulo, desde 1973. Mas fui assumir isso em 1977, quando comecei a ver os textos de Luiz Carlos Góes e disse: “O que você escreve parece com o que eu escrevo, vamos fazer música juntos?”. Ele dizia que não era compositor, mas tinha pai músico, adorava música, era fã de Rita Lee e Raul Seixas como eu. Esses são dois debochados nonsense, né?

PAS: Marília Pêra fazia parte dessa turma?

ED: Sim, começou na peça “Ladies na Madrugada” (1974), que tinha Patrício Bisso, uma turma bem underground de São Paulo. Foi quando conheci eles todos, era produzido pelo Ney Matogrosso, que tinha acabado de estourar com os Secos & Molhados. Depois Marília encomendou “Síndica, Qual É a Tua?”, que era do Luiz Carlos Góes e foi um sucesso do teatro besteirol. Ela foi a primeira estrela que acreditou. Em São Paulo começaram a acontecer também grupos musicais como Premeditando o Breque, Joelho de Porco, Rumo…. Rumo não era tão besteirol, era humor mais intelectualizado. Era um primo paulista.

PAS: Por que aconteceu tudo aquilo ao mesmo tempo?

ED: Por causa do esvaziamento cultural e, nesse caso, da pressão do governo militar. Os compositores de elite, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gonzaguinha, todos estavam impedidos de falar, tudo que faziam era censurado. Tinha um sofrimento excessivo, tipo MPB 4. A gente tava a fim de se divertir, não tinha jeito mesmo. Acabou sendo uma válvula de escape, que aparentemente era inconsequente, mas não era, na verdade. Tinha um porquê. Era altamente intelectualizado, pra pessoa entender besteirol tinha que ter cultura.

PAS: Qual foi a primeira vez que alguém gravou uma música sua?

ED: Foi a Marília Pêra, “Alô, Alô, Brasil”.

PAS: Era no espetáculo “Feiticeira”, onde começou também o grupo Vímana. Então ali estavam Lulu Santos, Lobão, Ritchie e Eduardo Dusek?

ED: Eles tocavam na “Feiticeira”, né? É isso mesmo, eu tinha esquecido. Era 1975, fizemos a música pra ela. Na verdade, tínhamos feito anos antes. Luiz Fernando Guimarães, que depois virou grande comediante, dividia um apartamento em Botafogo em quatro, um era artista plástico, outro era diretor de teatro – meu parceiro Luiz Antônio de Cássio –, e ele, e eu. A gente fazia teatro em casa, as pessoas frequentavam, o apartamento bombava sexta, sábado e domingo. Gilberto Gil foi numa dessas. Era um grupo absolutamente desconhecido, mas absolutamente punk, punk mesmo, de sair fantasiados, andar em bando de 15. Um dia a gente foi no cinema, e a Marília Pêra estava na fila. A gente começou a mexer com ela, porque era fã, começamos a fazer palhaçada em volta, como se fosse escada pra ela brilhar. Ela adorou, morreu de ri, e a gente saiu do cinema e compôs “Alô, Alô, Brasil”. Aí corta pra três anos depois, (o produtor musical) Nelson Motta já me conhecendo, marido de Marília, me perguntou: “Você não tem música pra Marília?”. “Olha, tenho uma que a gente fez baseado nela”. Ela lembrou da cena, e gravou, e foi minha primeira gravação.

PAS: E já ia na linha da marchinha, de Carmen Miranda.

ED: Na verdade, eu sempre fiz marchinha de carnaval. A primeira foi aos 8 anos. Eu era roqueiro por opção de fã, escutava Rolling Stones, Beatles, Led Zeppelin. Mas na hora de compor pra teatro, compunha samba, marchinha, blues, que era o que o teatro pedia. Teatro não tinha rock, nem gostava. Eu fazia marchinha pra ganhar dinheiro, e pra debochar das pessoas também.

PAS: Depois Rita Lee foi nessa onda, com “Lança Perfume” (1980),  “Banho de Espuma” (1982)…

ED: Entrou, foi bem legal. Marchinha tem muito a ver com rock’n’roll. Não é óbvio, mas se você for ver bem o rock usa duas vertentes básicas que a marchinha usa também: ou é a irreverência política e social ou é a irreverência romântica. Marchinha ou é irreverente ou é pra você cantar uma pessoa, e rock também. E tanto no rock como na marchinha, você tem que resolver o assunto na primeira estrofe. Não dá pra desenvolver muito. Depois é que Renato Russo fez aqueles rocks quilométricos, mas rock’n’roll basicamente resolve a letra em duas estrofes, três no máximo. E tem que ser popular, a pessoa tem que ouvir e sair cantando.

PAS: Tem algo no seu passado que explique o interesse pelas marchinhas? Quais são suas origens?

ED: Sou húngaro e tcheco. Tenho a família Gabor, da (atriz) Zsa Zsa Gabor. A mãe dela é prima em segundo ou terceiro grau da minha avó. Até Greta Garbo foi tirada de Gabor, ninguém conseguia falar Gabor e preferiram botar Garbo. Tinha uns príncipes meio fajutos na Hungria, que tinham comprado os títulos ali em 1700 e poucos. Minha família tinha árvore genealógica, tudo comprado. E a família paterna é tcheca, mais dura. Fui criado em Copacabana, renegando já esse europeísmo. Minha formação foi muito europeia, e você sempre sai pela culatra, né? Eu gostava de samba, de bossa nova, ou de rock’n’roll, blues. Eu gostava de coisa negra, na comida, na música.

PAS: Ironicamente, depois você vai participar da criação do pop-rock brasileiro dos anos 80, que também renegava o samba, a bossa, a MPB.

ED: Mas é engraçado que eu não reneguei, porque já sabia que rock tinha a ver com marchinha de carnaval. Originalmente, Leo Jaime e João Penca & Seus Miquinhos Amestrados queriam abrir meu show, mas eu falei: “Se vocês quiserem trabalhar comigo vamos trabalhar juntos. Estou interessado em rock’n’roll, com o saco cheio de música popular brasieira. Quero fazer rock”.  Eu tinha trabalhado com um grupo chamado Coisas Nossas, que só cantava Noel Rosa, radicalissíssimo. Conheci eles na escola de música, torceram o nariz, “quem é esse gringo?”, mas depois me chamaram pra trabalhar com eles. Na faculdade, eu estava preparando teses sobre os arranjos da época de ouro da música popular brasileira, Radamés Gnattali, Simon Butman, Pixinguinha. Nesse grupo com Luiz Fernando Guimarães a gente ouvia muito Lamartine Babo, Angela Maria, Noel Rosa. Aracy de Almeida era deusa pra gente, deusa, deusa. A gente ia pra São Paulo de trem, parava ela na Central do Brasil, pedia autógrafo. A gente já gostava de Elis Regina e Gal Costa também, mas gostava das referências da música popular brasileira antigona mesmo, Aracy, Carmen Miranda. Só não suporto muita reverência, pra mim é tudo igual, gente como a gente que fazia música numa certa época. Nunca endeusei ninguém. Detesto, até porque a barra de artista é tão pesada, e você sabe a barra pesada que eles passaram também.

PAS: Você pareceu reverente ao Ney Matogrosso quando ele entrou para participar do seu show.

ED: Aí é diferente. Ele me domina, me domina totalmente, como se fosse um pai. É uma coisa filial, basta ele olhar pra mim. A gente é muito amigo, mas ele tem um poder naquele olhar, e um poder artístico, que abre a boca e eu fico pianinho, que nem uma onça e um ratinho. Tanto que a música que cantei depois dele eu tava completamente esvaziado. Tive que fazer um esforço pra voltar, na hora que Preta Gil entrou eu ainda tava baqueado. Ele me esvazia mesmo, aquele homem tem um poder impressionante.

PAS: Esvaziar não tem um valor negativo?

ED: Não, como posso explicar? É energético mesmo, uma energia muito poderosa que te aniquila . Como se eu tomasse uma droga muito poderosa, é adrenalina, me deu uma injeção de adrenalina tão forte que eu… Mas tenho um senso crítico muito grande, tem coisas que decididamente eu não gosto da carreira do Ney, nunca tive endeusamento. Ele dava 12 ingressos pra gente ir no show dele, a gente vendia seis com cambista e bebia o dinheiro, e contava pra ele.

PAS: Quando e como você conheceu Ney?

ED: Na produção de “Ladies na Madrugada”. Eu tinha 15, 16, era muito precoce, muito alto – é até um problema pra mim, porque sou muito alto, me sinto meio desenturmado. Quando trabalho com estrelas femininas sempre dou uma quebradinha, porque senão fica um varapau. Mas Mauro Rasi me adotou, me enturmou com Ney Matogrosso, Vicente Pereira, Luiz Carlos Góes. Eram todos mais velhos que eu, virei um mascote, muito inteligentezinho, metidozinho, fashionzinho. Andava com umas roupas irreverentes, loucas, e já tocava piano.

PAS: É também a época dos Dzi Croquetes. Havia uma inter-relação entre os dois grupos?

ED: Tinha tudo a ver, eu frequentava muito os shows dos Dzi Croquetes, embora eu sempre fosse um pouquinho mais novo.

PAS: Eles tinham muito a ver com Ney, no modo de se expressar, não?

ED: Tinham, eram a mesma geração. O Ney se baseou muito neles, começou a se maquiar e se fantasiar porque era inibido em cena.

PAS: Qual foi sua primeira gravação cantando?

ED: Foi uma que não deu certo, em 1977. Quem produziu foi o Nelson Motta. Era uma música irreverente que eu tinha, chamada “Não Tem Perigo”, um deboche em cima da classe média. No outro lado era “Apelo da Raça”, mais romântica e batida. Nunca mais gravei essas músicas. Nelson Motta me levou pra gravadora RCA Victor e me levou pra trabalhar com Marília Pêra e com as Frenéticas. Um anos depois, 1978, as Frenéticas estouraram. Eu fazia músicas pra elas. Se não me engano, gravaram uma só, “Vesúvio”, mas eu fiz quatro ou cinco. E eu fazia meus shows paralelamente. Foi por aí que Gilberto Gil me apadrinhou, e eu lancei quatro shows antes de ficar famoso.

PAS: O que significa exatamente Gil apadrinhar você?

ED: Tinha um projeto alternativo, da meia-noite, do Teatro Opinião, que apresentava compositores novos. Você tinha que arranjar um padrinho famoso, senão não conseguia se apresentar. Lembrei que Gil tinha ido na minha casa, consegui um contato. “Você toparia me apresentar?” “Topo, quando é que é?”. Elr cantava três ou quatro músicas, e aí contava uma história de como tinha me conhecido, eu entrava e fazia um show, e esse teatro lotou. Um dos meus shows a crítica odiou, chamava “Arame Farpado”. Era punk, punk mesmo, a plateia separada do palco por arame farpado enrolado, até que um espectador tropeçou e caiu dentro do arame farpado, quase fomos processados. Depois montei um chamado “Folia no Matagal”, era o nome da música que o Ney gravou depois. Esse show bombou no Rio e em São Paulo, e o pessoal do festival da Globo viu e me ligou. Era a maior mamata, eles pinçavam pessoas do underground pra se inscreverem entre aspas, “se inscreve que a gente vai classificar muita gente, o festival tem que ter qualidade”.  Mandei quatro ou cinco músicas, eles é que selecionaram “Nostradamus”.

PAS: “Nostradamus” era você testando o besteirol na música, não?

ED: Total. Era uma música que não tinha nada a ver, eu tinha feito pra Maria Bethânia, ela quase gravou. Falava em cadáver, umas coisas meio punk radicais, passionais.

PAS: Foi aí, no festival “MPB 80”, que o Brasil tomou conhecimento de você, vestido de fraque e cueca.

ED: Sim, fraque e cueca pra mim é que nem turbante pra Carmen Miranda. Eu achava que ia ser vaiado. Quando cheguei ao festival foi a contragosto, veja bem, eu estava achando uó do bodó. Ia me mudar pra Paris, tinha vendido tudo, apartamento, até meu piano. “A gente vai fazer sua música com orquestra”, com orquestra? Queria banda de rock, mas quando vi aquela orquestrona maravilhosa, adorei. Falei: “Ah, é? Se é pra ser clássico, vou ser clássico de cueca”. Aí botei a casaca, que é o clássico, e a cueca toda cheia de frufru, que era a irreverência. Todas as gravadoras que tinham me esnobado me procuraram, porque foi uma ovação generalizada, fiquei de cara.

PAS: Um monte de gente apareceu ali, Sandra de Sá, Zé Ramalho, Amelinha, Oswaldo Montenegro. Era muito competitivo?

ED: Não. Era todo mundo muito jovem, muito doido, era tudo festa. E, depois, todo mundo deslumbrado com história de TV Globo, vamos combinar, né? Todo mundo duro, liso, teso, duro, e a TV Globo era a Vênus Platinada da época. Ficou todo mundo amigo. Não fui pra Paris, tive que refazer a vida toda, recomecei do zero. Fui contratado pela PolyGram. Até (o crítico musical) José Tinhorão elogiou o primeiro disco (“Olhar Brasileiro”, de 1981). Pensei: ih, se José Tinhorão tá falando bem, alguma coisa tá errada. É melhor dar uma guinada antes que me coloquem como um intelectual da música popular brasileira. Eu não quero essa cadeira, Deus me livre! Aí resolvi fazer rock’n’roll.

PAS: No festival seguinte, você inscreveu “Valdirene, a Paranormal”, mas na hora cantou outra música.

ED: Mudamos a música, cantamos “Barrados no Baile”. Eu cantava “Valdirene” no show “Olhar Brasileiro”, o (diretor musical da Globo) Guto Graça Mello falou: “A gente quer aquela música no festival”. Mas eu estava achando a mesma caretice, e falei: vou dar um golpe. Falei pra gravadora: “Não quero essa música, tô de saco cheio de coisa teatral, tô a fim de fazer rock’n’roll”. Também não queria negar uma oportunidade ótima de aparecer na Globo. E a gravadora topou. Ensaiamos à parte, com o mesmo arranjo. A Globo achou um arranjo meio ruim de “Valdirene”, mas falei, já muito metido: “É assim ou nada”. O programa era ao vivo, as músicas tinham que ser submetidas antes à Censura. “Barrados no Baile” não passou na Censura na primeira vez, aí a gente mudou o que eles queriam, não me lembro o quê, e aprovou uma letra boa. Pegou o papel da Censura Federal, botou um cara da gravadora dentro da Globo, olha só o desatino da gente. Na hora da apresentação, os Miquinhos Amestrados atacaram e eu comecei a falar. “Gente, era pra eu cantar aqui ‘Valdirene, a Paranormal’, mas estive com Luana Camará”, Luana era a personagem vidente da Regina Duarte na novela, “e ela falou que não é um astral muito bom pros nossos patrocinadores, a Sheeeeeeeeeeeell, e depois não vai agradar ao Booooooooooni, então a gente já sabe que vamos ficar… ‘barrados no baile’…” Guto, quando percebeu, falou: “Vamos cortar porque vai dar merda”. Aí o cara da gravadora falou: “Tá aqui, tá liberada a música”.  Aí ele percebeu que era um golpe,  começou a gritar: “Isso é uma armação da PolyGram!” (ri).

PAS: Podiam ter parado? Ia ser um vexame transmitido ao vivo.

ED: Ia ser um vexame se parasse. Ele preferiu deixar, mas ficou puto. Nós fomos desclassificados e mandados de volta pra casa, no dia seguinte era assunto em todos os jornais.

PAS: Nisso, o disco “Cantando no Banheiro” já estava pronto?

ED: Estava pronto o single. “Barrados no Baile” estourou, começou a tocar no dia seguinte. Eles ficaram putos. Disseram que o Boni me proibiu de tocar na Globo, mentira, três semanas depois “Barrados no Baile” tava tocando no Chacrinha. Anos depois perguntei pro Boni e ele falou (imita a voz do diretor): “Não, porra, achei genial, desafiou a TV Globo”. Guto me disse, um tempo atrás, que não foi bem assim, não, que tomou um esporro do Boni, “como você deixa o garotão te enganar?”.

PAS: “Cantando no Banheiro” saiu em 1982, que é o ano do estouro da Blitz. Havia ali uma confluência entre o rock e o humor?

ED: Eu e a Blitz cantávamos nos mesmos espaços. Luiz Fernando Guimarães, com Regina Casé e o grupo Asdrubal Trouxe o Trombone, resolveu montar o Circo Voador com o Perfeito Fortuna. E chamaram vários grupos novos, entre eles eu também. Eu tava começando a fazer rock’n’roll quando me chamaram. Quando eu vi o Evandro Mesquita se apresentando ainda sem a Blitz, só cantando “Você Não Soube Me Amar”, falei pra ele: “Puxa, tem gente querendo fazer rock, nós tamos fazendo rock, isso vai bombar”.

PAS: Até hoje se fala no verão da Blitz, mas você também estava por perto ali, com “Barrados no Baile”, “Rock da Cachorra”…

ED: Estava, mas inquestionavelmente foi o verão da Blitz. O meu era um estouro comercial também, mas não naquele nível. Não era popularesco, era cult ao mesmo tempo, embora fosse a mesma geração, a mesma galera.

PAS: Como você se vê em relação ao pop-rock dos anos 80? Um irmão mais velho, um tio?

ED: Todos ficaram meus amigos. Nunca quis assumir negócio de paternidade, então nunca me chamaram de tio. Sempre saio pela culatra. Isso envelhece, cristaliza, é muito chato. A gente na verdade debochava um pouco dos outros grupos, como Kid Abelha. Depois ficamos amigos, mas a gente debochava, achava enfraquecido. Aquele grupo francês, Metrô (fala com sotaque francês), a gente achava meio diluído. Éramos interessadod em fazer revolução, e eles vinham interessados em ganhar dinheiro. Depois é que amadureceram e viraram revolucionários. O RPM virou um darling da gente, porque tinha um charme especial. Três pra que a gente não torceu nariz foram Renato Russo, RPM e Cazuza. Lulu Santos e Lobão a gente respeitava, porque eram anteriores à gente. Lulu abriu caminho, só que era rock progressivo que depois virou pop. Marina também, ela aconteceu antes de mim, quando eu estava estourando já respeitava muito a Marina.

PAS: Hoje como você avalia? Você fez parte daquela geração?

ED: Sim, mas eu não fiquei lá. Fiz questão de não deitar naquela cama. Não faço isso. “Ah, mas os anos 80 eram maravilhosos”, as pessoas dizem. Os anos 80 eram uma ressaca. Era todo mundo drogado, enlouquecido…

PAS: Você também?

ED: Também. Era uma festa drogada. Era normal, todo mundo drogado. Foi a última oportunidade de fazer esse tipo de festa.

PAS: “Enfant Terrible”, que você canta com Leo Jaime, era uma canção gay?

ED: Era, mas era um deboche sobre o gay, sobre o gay cult. Ele vai de maiô pra cantar o professor. Os Miquinhos faziam muito essas brincadeiras. Eram totalmente machistas, mas eram machistas light. Adoravam os gays, tinham muitos fãs gays, faziam trenzinho no palco, cantavam “Telma, Eu Não Sou Gay” com o Ney. Eram tão machões que não tinham preconceito contra nada.

PAS: E você, como se localizava nisso? Tinha medo de rótulo?

ED: Não, porque eu sempre fui muito mais louco que isso. Aquela piada que faço no show é verdade: todo mundo comia todo mundo e ninguém era gay. Sempre fui eclético, tanto que fui me relacionar com Miquinhos Amestrados, que eram héteros da Silva Xavier. As travestis todas amavam a gente, “Alô, Alô, Brasil” virou hino de travesti. A gente não regateava nem escolhia cliente, pode ser da ala machista, da ala gay, do futebol.

PAS: A piada “como todo mundo, é falta de educação perguntar o sexo da pessoa” é real? Você não se define como gay, hétero, bi?

ED: Não, nada. Pelo contrário, me dou direito de fazer o que quiser. Sempre me dei direito de frequentar tudo, da mesma forma que socialmente. Ao mesmo tempo que apoiei o Lula nos anos 70, frequentava coisas de extrema direita, alta sociedade. Ia pro Hipopotamus, mas ia pro show do Lula quando Lula era ainda candidato a ser presidente de sindicato. Apoiava ele, fazia show pra ele em 1977. Sou a favor de todo mundo, o que quiser fazer eu vou fazer, nunca dei satisfação da minha vida a ninguém. Com o brega foi a mesma coisa.

PAS: O novo show mostra que sua música tem apelo pop até hoje. Por que você ficou tanto tempo sumido?

ED: A minha técnica sempre foi essa. Por exemplo, se estou namorando alguém e começo a sentir que o relacionamento tá esvaziando, eu sou o primeiro a terminar, mesmo que seja apaixonado pela pessoa. O ser humano tem uma tendência a se esvaziar e entediar muito rápido. Se há uma coisa que eu não tenho é tédio.

PAS: Isso significa que no terreno amoroso você tem relações curtas?

ED: Não, porque volta, quando você é o primeiro a sair… O que aconteceu? Começaram a achar que eu estava ficando meio cinza. Quando houve o sucesso comercial do disco “Dusek na Sua” (de 1986), com “Aventura”, começaram a dizer que eu estava ficando pasteurizado. Aí fiz um CD que foi horrível, “Contatos” (1991), que eu mesmo achei uma merda.

PAS: Acha até hoje?

ED: Acho até hoje, uma bosta, acho um horror. Se você ouvir, vai ver que é uma merda. Falei: você errou do princípio ao fim. Artista também se equivoca. Eu estava sem inspiração. A inspiração também depende da vida que você tá levando. Você tem que ter uma vida intensa pra poder fazer uma arte intensa. Mas é impossível ser assim o tempo inteiro. Por isso sempre digo: se você não tem o que dizer, fecha a boca pra não entrar mosca nem sair merda.

PAS: Há artistas que não param nunca.

ED: Mas é porque tem muito marketing, muita estrela, são pessoas que têm um establishment muito bem azeitado, sabem fazer um marketing muito bom. Eu não sou de fazer marketing, detesto. Ali no “Dusek na Sua” a imprensa já começou a ficar meio fria comigo, e me fritou. E eu sou muito amigo de jornalistas, conheço o pensamento de jornalista. Saquei isso e falei: ah, é?, então vou pirulitar. Mas nessa de pirulitar a Eldorado me chamou pra fazer um disco de São Paulo, eu estava frequentando o Santo Daime, tava mais ligado em coisas esotécias. Não devia ter feito aquele disco de jeito nenhum. Quando terminei o disco e ouvi tudo, caiu a ficha. Se fosse produção minha eu jogava fora, como já aconteceu. “Apocalipse Elegante”, um CD que gravei em 1994, ficou quase pronto, mas falei: não aprovo, joga fora. Botava pros jornalistas meus amigos ouvirem, eles falavam: “Ah, interessante”.  Interessante não é uma palavra que eu quero ouvir. Mas o dinheiro era meu, joguei fora. Só que nesse caso da Eldorado eu não podia virar lá pro cara da família Mesquita do “Estadão”, que tinha investido tudo, e dizer: “Querido…”. E não deu outra, os jornalistas concordaram, todos falaram que era uma merda. Aí falei: quer saber?, vou dar um tempo, despede essa banda, vamos pagar o prejuízo – foi um prejuízo imenso, foi quando entrou plano Collor.

PAS: Isso abortou sua história com o pop-rock?

ED: Abortou com tudo. Falei: você não tem o que dizer, você não sabe o que dizer, vá fazer pesquisa, porque você tá ruim de criatividade. Nem me lembro como paguei esse prejuízo e como sobrevivi. Acho que comecei a dirigir teatro e fazer uns shows muito muquiranas numas casas meio suspeitas, pra manter o orçamento. Foi aí que começaram a  acontecer os musicais de marchinhas de carnaval, o projeto sobre Carmen Miranda. E comecei a trabalhar em shows personalizados pra empresa, que fizeram muito sucesso e me deram muito dinheiro.

PAS: O formato piano e voz surge daí?

ED: Voltou com tudo, mas o show de 1981 já era piano e voz. O novo show é um formato que inventei em 1981, stand-up comedy. Tenho uma banda pop-rock ótima, chamada Copacabanda, gravei com ela “O Tao do Dusek” (disco independente lançado em 2010). Eu queria fazer com banda, mas a gravadora não quis, e eu respeitei. Vou lhe dizer a verdade, fechando essa história: foi muito boa essa crise. Tenho isso claramente hoje, a crise nasceu principalmente pelo fato de que eu não sabia quem eu era. Não sabia se eu era um cara que curtia música romântica, um cara irreverente, se eu tinha paúra de ser irreverente, se queria ser romântico, se era clássico. Demorei pra assumir, depois desses anos todos trabalhando no exílio é que falei: bicho, você é tudo isso, você é um eclético, uma cornucópia de estilos, todos feitos com muito talento, assume isso. Claro que tem o lado pessoal também, você fica se achando meio não-compreendido. Mas se não tá compreendido, faça-se compreender, querido. Tem que entender o que você quer e fazer. Fui botando as coisas nos trilhos, levou uns 15 anos azeitando a fórmula, fazendo terapia, ginástica meditação, tudo pra moldar uma personalidade que vibrasse mais forte.

PAS: Sem nenhum demérito das outras vertentes, mas você é muito bom em fazer baladas. Elas não foram esquecidas, no show todo mundo sabia cantar.

ED: Bom ouvir isso. Falei também isso: você tá tendo crise porque você não é um humorista. Eu viveria muito mal tendo que fazer uma piada atrás da outra. Sou bom cantor, bom músico, ator. Você é bom naquilo que faz. Você tem que ser bom naquilo que faz, você tem que provar pra essa galera, nem que leve dez, quinze anos, que você é bom. O resultado tá começando a aparecer agora, depois de 15 anos.

PAS: Com o disco “Brega Chique” (1984), você difundiu o termo “brega” pelo Brasil. Por que você usou essa palavra? O que estava querendo?

ED: Eu adoro combater os preconceitos. Eu adorava a dupla sertaneja Aristeu & Barreirito, era amigo do Chitãozinho & Xororó, assistia aos shows, escutava os discos, achava ótimo. Eu adorava música sertaneja típica, Pena Branca & Xavantinho, Inezita Barroso. Amo Inezita, tinha todos os discos dela, é minha amiga até hoje. Gostava de Arrigo Barnabé fazendo “Londrina”, que sempre me fez chorar pra caramba, aquele horizonte, aquela tristeza sertaneja, interiorana. Eu e o Júlio Barroso (líder do grupo Gang 90), que morreu pouco tempo depois, achávamos que o brega ia comandar este país, e não deu outra, quem está comandando? Fiz “Doméstica”, que vira a história, ela começa como empregada e termina como patroa. Foi um grande sucesso. Os jornalistas falavam: “Você está maluco, você tem uma carreira estabilizada no rock’n’roll”. Aceitem, é a minha visão.

PAS: A Globo logo pegou o mote.

ED: Fez a novela “Brega & Chique” (1987), todo mundo foi absorvendo. O Lula o que é que é? Brega. Brega-chique. Não tem vergonha disso, e acabou presidente do Brasil. O país é brega. E não tem vergonha nenhuma nisso, seja autêntico. Nunca fiz música de fossa, mas aquilo de chorar mágoa, o auge foi a amizade que criei com Leandro & Leonardo. Eles eram desbragados (canta), “pensa em mim, chore por mim”, aquilo é sofisticadíssimo ao mesmo tempo. Em vez de ficar chorando pelos outros, vem pra mim que eu lhe dou toda guarida. Era uma coisa de dar a volta por cima, é uma capacidade que o povo tem. O Rio de Janeiro é brega dando a volta por cima, o que é a favela da Rocinha? E não tenho nada contra esse sertanejo universitário, não. Acho divertido.

PAS: Suas piadas são diferentes das do stand-up comedy no fato de preferirem a autodepreciação a zombar dos outros.

ED: Esse tipo de humor que avacalha todo mundo eu não faço. Não faço. Vou depreciar a imagem de alguém com meu humor? Você não tem capacidade de fazer humor sem isso? Se for pra fazer, vou fazer com a minha própria imagem. Mas é sempre com a crítica feroz ao ser humano. Na verdade não tô tendo crise de autoestima nenhuma. Eu tô adorando fazer aquela brincadeira, aquilo é muito saudável. A grande suplantação do ser humano é rir. Todo sofrimento é risível. A gente sofre porque quer. Todo sofrimento é autoifringido, assim como toda alegria é autoinfringida. Tudo isso que sofri fui eu que busquei, jamais digo “fizeram isso comigo”. Não me vem com aquele papo de “você é injustiçado”. Para com isso, eu sou o que eu sou, não tem injustiça nenhuma. Injustiça é o direito autoral do Ecad. Acho breguísimo você se achar um coitadinho. E, quando faço aqueles negócios comigo, pelo contrário, eu me acho ótimo. O ser humano é muito mais maluco que essa caretice aqui, de bem e mal, o que é certo e o que é errado. “Ah, não pode falar mal de judeu.” Não precisa falar mal de judeu, judeu é que tem que se autocriticar. Não precisa falar mal de nazista, negro, gay, eles que o façam. Todos têm culpa no cartório. Ninguém é inocente, ninguém. Sempre digo isso: você não é dono da verdade e você tem culpa no cartório, sim. Você aprontou ali, fez cagada ali, essa crítica e esse deboche são saudabilíssimos. Só isso já me planifica o dia.

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