garota em show de pole dance, na virada cultural
leonardo soares/AE

“Um vagabundo como eu também merece ser feliz”. A letra de Giramundo parecia cair como uma luva para as dezenas de sem-teto que dançavam no Largo do Arouche, cada um num ritmo diferente, carregando seus sacos de latinhas de cerveja amassadas e os cobertores residenciais. À uma da tarde do domingão, era com o som do decano grupo jovem-guardista Os Incríveis que se acordava, definitivamente, uma São Paulo que ainda se espreguiçava nas praças do centro, após uma noite inteira de Re-Virada Cultural.
O sol a pino fez o baixista recomendar ao público: “Passem um protetor solar porque vai queimar”.

Enquanto Os Incríveis entravam, Dadi, do grupo A Cor do Som (para quem Caetano fez Leãozinho), que tocou um pouco antes para quase ninguém, arrastava o seu instrumento até o outro lado da praça. O cantor Fernando Mendes (estrela da noite anterior com A Menina da Cadeira de Rodas) tomava café na rua na frente do hotel, nos fundos do palco. O produtor e lojista Luiz Calanca, dono da Baratos Afins, reduto da resistência de um mundo analógico na Galeria do Rock, filmava tudo por ali, com uma camiseta onde se lia: “Seicho-no-Iê-Iê-Iê – Beat Pop Rock do Brasil”.

É geralmente de manhã que a gente vê a cara da Virada, bocejando no asfalto. Dois hippies que vendiam brincos de pena de pavão abraçavam efusivamente uma senhora de cabelo vermelho que andava pela São João segurando uma plaqueta: Camping Simplão. A garota com o pastel pingando óleo quente arrastava a mãe pelo meio da platéia. Um velho remexia o lixo em busca de latinhas usando uma camiseta da seleção espanhola com o nome Torres e o número 9 nas costas. Um rapaz com um louva-a-deus no chapéu entregou cuidadosamente sua lata de cerveja ao velho, que o agradeceu fraternalmente. O policial acordou a moça que dormiu aos pés da estátua de César – não o heroi palmeirense, mas o imperador romano César Otávio Augusto, nos fundos do palco – cuja plaqueta parece ter sido há muito furtada.

“Quem lembra do hully-gully?”, perguntou o baterista Netinho, lenda da Jovem Guarda. Parecia que todos os que lembravam estavam ali naquele momento. Conforme se sucediam os sucessos (O Homem do Braço de Ouro, Olha a Banana, Biquini de Bolinha Amarelinha, Estúpido Cupido, Rua Augusta), a platéia ia se encorpando e se juntando e dançando rumo ao fim da Virada.

E foi de fato uma jornada memorável noite adentro. No Largo do Arouche, os anos 80 pareceram reviver durante a madrugada com Ritchie e Marina Lima. A duas quadras dali, na Alameda Barão de Limeira, o asfalto virava sertão com Anastácia, Dominguinhos, Flavio José, Almir Sater e Genival Lacerda – o maior salão de baile da Virada (perdi o Genival, não me perdoo).

“Tudo é sertão, tudo é paixão”, cantava o violeiro sul-matogrossense Almir Sater na Barão de Limeira, que também enfrentava problemas com o som – não conseguia ouvir o som do berimbau do percussionista Pateta, por exemplo. “Como é que tá aí atrás? Tá chegando o som aí? Porque aqui tá muito grave”, disse a cantora Marina Lima, que levou o título de João Gilberto da noitada (passou o tempo todo reclamando). “Reclamo porque quero o melhor, entende?”, disse. O melhor momento do show da cantora foi quando ela debulhou uma versão matadora de Pessoa, de Dalto. Artisticamente, foi uma das melhores edições da Virada, mas o som dos palcos precisa melhorar, tava meio amadorístico.

A “Lei Seca” foi um blefe. Vendia-se de tudo. Garrafas de vinho Cantina do Vale custavam R$ 5 – o estômago da Virada é antes de tudo um forte. Nas bancas de jornal, os atendentes falavam baixo e entregavam a lata de cerveja de um jeito mocozado, como se estivéssemos em Chicago, em 1930.

Luis Gonzaga e o baião foram os gêneros mais presentes no quadrilátero entre a Ipiranga, a São João, o Arouche e a Barão de Limeira. Da forrozeira Anastacia ao popular Fernando Mendes, Dominguinhos e Almir Sater a Forroçacana e Os Incríveis, só deu Gonzagão.

A cantora Anastácia, 70 anos de idade, 56 de forró, saiu-se bem também com Dominguinhos e Jackson do Pandeiro, e fez contundente discurso contra a discriminação aos nordestinos (preconceito que aflorou na campanha). “O povo paulistano ficará regojizado em saber que o Nordeste trabalha para todo o País. Para a gente, é difícil deixar o Nordeste, mas o povo paulista precisa saber que a gente só sai em busca de trabalho”, afirmou, antes de iniciar seu show com O Último Pau de Arara, de Luis Gonzaga. “Vocês que estão aqui não vieram ver um cantor americano. Vieram ver uma cantora de cabeça chata”, brincou.

Anastácia foi a responsável por iniciar a grande conspiração contra a cintura dura que dominou o palco da Alameda Barão de Limeira, o lugar da dança de salão sem salão no evento. Baião, xote, forró de pé de serra, coco e outros gêneros animaram a noite desde as 18h15 do sábado, quando deu a senha inicial a veterana forrozeira Anastácia, codinome da pernambucana Lucinete Ferreira, 46 discos na carreira e mais de 200 canções em parceria com Dominguinhos, outro astro do Palco Barão de Limeira.

Fernando Mendes, a maior juba da Virada, um herói do povo, contou como foi recusado num show de calouros no início dos anos 1970 e prestou homenagem ao seu padrinho Luis Gonzaga, que o ajudou a sair do limbo em 1973. Para ilustrar sua proximidade com o padrinho, cantou o forró Fogo de Amor.

Jay Mahal, apresentando o reggae e o dub na São João, mereceu o título de o Mais Aloprado Mestre de Cerimônias. E ainda cantava sobre as bases. Atrás deles, os fantásticos Skatalites mostravam como o reggae um dia foi um ritmo de salão, e como se relacionou artisticamente nos primórdios com seu primo, o jazz.

Uma noitada de improvisações e sarros. “Iú á uédi?”, perguntou o MC que apresentou o show do grupo americano Dumpstaphunk. O rapaz era um legítimo adepto do Enrolaitor Tabajara. A Alessandra Negrini, que de boba não tem nada, tava lá assistindo o funk que vem do barro do Mississippi. E as melhores backing vocals da Virada, as mais cortejadas pelos marmanjos da platéia, que lhes dirigiam gracejos alucinados, eram as do sanfoneiro Flavio José.

“Vou cantar agora uma música em minha língua nativa”, anunciou o inglês Ritchie. E emocionou ao interpretar Mercy Street, do Peter Gabriel. Ritchie ilustra o sonho que um dia teve o nosso pop de ser planetário, equiparar-se ao interncional. Com hits como Shy Moon, Ritchie parece que continua perseguindo esse objetivo. Quando tocou Menina Veneno, regeu o maior coral humano da Virada. Do Arouche até o Minhocão, todos pareciam estar cantando. Eu tava.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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