Um belisco meu nos territórios da literatura, publicado na revista “Gol” 91, de outubro de 2009:

O horror, o humor e o escritor adulto
COM 32 ANOS E QUATRO LIVROS LANÇADOS, O PAULISTANO SANTIAGO NAZARIAN BRINCA DE SER POP

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

O ESCRITOR PAULISTANO SANTIAGO NAZARIAN guarda bem expostos na sala de seu apartamento de adulto alguns dos brinquedos prediletos de quando era criança. Um morceguinho. Um macaco de boca aberta e feições de horror, que quando pequeno chamava de “monstro do pântano”. Uma cobra de borracha. “Fui uma criança gótica”, ele se diverte. Mais resguardado, na área de serviço, fica Araki, um iguana, este vivo e de verdade, não de plástico ou borracha.

O cenário ajuda a introduzir o imaginário norteador de um autor que acaba de publicar seu quarto romance, O Prédio, o Tédio e o Menino Cego (ed. Record): algumas doses de terror, morbidez e atmosfera “dark”, mas maciamente embalados em bom humor e encharcados da pura cultura pop imaginadora e inventora de cobras, lagartos, King Kongs e monstros do lago Ness.

No novo livro, as asas à imaginação dão voo a serial killers e zumbis. A um prédio inclinado que costuma “ejetar” seus moradores mais marginalizados. A uma versão mais tenebrosa (ainda) da fábula de Branca de Neve e os Sete Anões, na qual os anões são substituídos por um septeto de adolescentes às voltas com o conflito inevitável de crescer.

Santiago já passou da adolescência – tem 32 anos –, mas elege a transparência ao explicar que o rito de passagem esmiuçado no texto lhe serve para alegorizar outra transição, bem mais próxima: “Comecei a escrever esse livro com 29 anos, num momento de passagem, de transição, de me aceitar como homem, como adulto”. Em meio ao ritual, foi ao Chile conhecer sua xará Santiago, a cidade (onde passou, sozinho, a virada para os 30 anos), e o deserto do Atacama, certamente um santuário para colher referências cinematográficas pop e ultrapop. “Acho que tenho postura e ritmo de vida de acordo com minha idade”, reflete, talvez com certo temor, e ciente do impacto de sua produção junto a camadas mais jovens de público. Assim era, por exemplo, Mastigando Humanos (ed. Nova Fronteira, 2006), sobre um jacaré que foge do campo para viver de aventura nos esgotos da “grande” São Paulo. Na escrita de Santiago, a cultura pop faz pano de fundo e várias vezes toma conta da cena, mas existe não para preencher espaços vazios, e sim para obrigar o autor a mergulhos em profundezas duras, nuas e cruas como as habitadas por seu jacaré fictício. Ele diz possuir algo que chama de “apelo extraliterário”, que gerencia de modo consciente. “Minha imagem, o universo pop, o apelo com o público adolescente”, enumera, “sem isso não estaria indo ao programa do Jô Soares pela terceira vez”.

ROTINA CONHECIDA
Pop à parte, estilhaços da personalidade do autor se espalham pelos sete garotos do novo livro, identificados por traços-estereótipos: narcisista, andrógino, atleta, junkie, negro, gordo e cego, todos em conflito com as próprias inclinações ao isolamento (ou “tédio”, como traduz o título). Conexões são perceptíveis quando Santiago descreve o modo como administra e-mails, blog (www.santiagonazarian.blogspot.com), comunidades na internet, fãs virtuais etc. “Tirei os comentários do blog. As pessoas entram para aloprar, dizer ‘ah, você é péssimo’”, lamenta, admitindo-se suscetível às críticas. “Por e-mail, ninguém me ‘chocha’. Quando a pessoa quer ‘chochar’, ela quer que os outros saibam que está ‘chochando’.” [na edição final da reportagem, os jargões “chocha”, “chochar” e “chochando” foram trocados por “detona”, “detonar” e “detonando”]

Por um lado, admite sentir culpa por não responder a todos os apelos, muitos deles pedidos de ajuda para emplacar na literatura. “Digo que eu não tive padrinho, que eu pus meu texto em concurso.” Por outro, vale-se das frestas virtuais para se comunicar: “Meu namorado é um leitor que me escrevia. A gente também precisa de amigos e de amor”, constata, em tom entre debochado e doce. A sexualidade é outro tema que aborda com foco e objetividade. “Não gosto daquela história de escritor dizer ‘não falo que sou gay porque senão viro autor gay’”, toca numa das molas propulsoras dos (auto-)preconceitos.

Para lá da literatura, Santiago leva uma rotina bem conhecida de escritores não nascidos em berço esplêndido. Além do ofício principal, tem de se virar fazendo traduções, pareceres para que editoras se decidam por traduzir (ou não) obras estrangeiras, roteiros variados (no dia da entrevista, estava às voltas com textos internos para uma companhia telefônica), artigos na imprensa. “Gosto de fazer parecer. Tem a parte mercadológica, ter que dizer ‘este livro é ruim, mas vai vender bem’”, diverte-se com esse outro tipo de brinquedo.

Santiago formou-se em publicidade, e antes de fixar uma identidade de escritor trabalhou como redator de agência em Porto Alegre (RS). Perambulou pela Europa, trabalhou como barman em Londres. Em São Paulo também teve rápida experiência de barman, na boate gay SoGo. “Com 25 anos tinha voltado para a casa da minha mãe. Não ia pedir dinheiro para ela para ir à [boate] A Loca”, diz, com humor semelhante ao que habita os livros.

ALÉM DA MERA IMAGEM
Nesses vaivéns escreveu e manteve inéditos os dois primeiros romances, A Morte sem Nome, escrito entre os 22 e os 23 anos, e Olívio, aos 23. “Sinceramente, não fazia para publicar. Não escrevia porque queria ser reconhecido.” Mais ou menos simultaneamente, inscreveu-se num concurso literário e atendeu a um classificado que buscava roteiristas para o Disk-Sexo, “para textos eróticos e esotéricos”. Venceu o primeiro, foi contratado para o segundo. Ao concurso enviou o segundo livro, Olívio, que acabou sendo publicado em 2003.

“No começo, não saiu nenhuma resenha. Escrevi a todos os jurados do concurso, agradecendo e perguntando ‘o que eu faço?’. Não dava para ficar esperando as coisas caírem do céu. Beatriz Rezende foi a única que respondeu, e falou de um amigo de uma editora grande, à procura de jovens autores”, lembra. Era a Planeta, que se estabelecia no Brasil e buscava ações para atrair atenção na Flip, a feira literária de Paraty, então também em seus primeiros passos. Santiago foi um dos escolhidos. “Só aí começaram a sair resenhas do primeiro livro”, conta, expondo mecanismos que governam a indústria literária. Seus livros têm vendido quantidades modestas, mas expressivas para a média local. “Saem com tiragens de 3 mil exemplares. Vendem duas edições facilmente, na terceira começa a dificultar. Mas dizem que sou o escritor jovem que mais vende no Brasil”, espanta-se.

Pop, mórbido, humorado ou gótico, ele demonstra manejar habilmente uma qualidade que o destaca e o leva além da mera imagem. Seja falando ou escrevendo sobre sexualidade, solidão, estratégias mercadológicas, síndrome de Peter Pan, os morcegos da infância ou o temor de se relacionar, Santiago Nazarian brinca, o tempo todo, de ser transparente. Deve ser isso, além da imagem, que adolescentes (e também adultos) vislumbram em suas entrelinhas.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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