Só gostaria de fazer um comentário sobre “A Fazenda”, porque, não adianta, eu não consigo deixar de me interessar e ficar ligado nesses shows de realidade.

Ao que tudo indica, quem vai vencer “A Fazenda” é o Dado Dolabella, aquele canastrão – ou “polentão”, como meu velho pai dizia para se referir à canastrice interpretativa do Tarcísio Meira quando o Tarcísio Meira ainda era galã.

Está tudo nos conformes, o Dolabella Jr. (não sei quem se lembra, mas o pai dele era uma figura meio repulsiva, meio vilanesca das novelas globais dos anos 70) desde o início contou mesmo com a simpatia instantânea da torcida. Mas. Foi bastante interessante e instrutivo acompanhar a construção da vitória do rapaz pelos… inimigos dele.

É o enredinho básico de todos os shows de realidade. Logo de cara a turma detecta o potencial vencedor de um determinado candidato, e toma como meta principal derrubá-lo. Por isso, passa a persegui-lo, constante e obsessivamente. E exatamente por isso, e em geral na condição autoconstruída de “vítima”, o “pobre” consolida um percurso (sofrido, mas) “vitorioso” e, bumba!, fatura o milhão.

Ou seja, os “perdedores” pavimentam o caminho doirado do “vencedor”.

Todo mundo há de lembrar uns três ou quatro ou cinco fulanos que venceram assim o “Big Brother”. O cara do lado de cá do espelho se identifica com o perseguido porque também se sente um eterno perseguido, pronto, simples assim.

E não sei se esse método brota da “vida real” para os confinamentos, ou foge deles para ela, ou ambos, mas não é só nas telas da Globo e da Record que a fórmula se consagra e se repete. Longe disso.

Por exemplo, se aquele maluco chamado Luiz Inácio Lula da Silva surfa em ondas colossais de popularidade e prestígio, em alguma medida não seria esse seu percurso pavimentado pela espuma raivosa babada pelas bocas de Vejas, Folhas e Globos? Será que eles nos fazem este bem, sem sequer saber? Será que lá nas profundezas dos fundos dos porões das mentalidades eles desejam o bem do Brasil, ainda que o bem do Brasil seja o contrário do que eles mais desejam?

E, a bordo da histeria midiática destes dias que correm, você se espantaria se, num futuro breve, José Sarney fosse eleito para o cargo que quisesse, se o quisesse?

E alguém conhece um brasileiro com mais cara de “vítima” que o “rei” Roberto Carlos?

E a Dilma Roussef, estará secretamente torcendo para que apareçam muitas e muitas e muitas fichas policiais falsas, Linas, Marinas e que tais? (Não estou sendo original aqui, vários têm apontado o efeito fermentador do ódio contra Dilma no crescimento da aceitação a Dilma. Ainda que ogros, damas de sociedade, intelectuais sensíveis e reginas duarte em geral gritem aos quatro ventos seus picarescos “eu tenho medo da Dilma”.)

Outro que sabe muito bem se servir da condição de perseguido é aquele homem franzino e de expressão aparentemente impassível chamado Edir Macedo, o bispo-mor da Igreja Universal. Vi ele outro dia no domingão da Record falando mais ou menos isto: que é perseguido, que sempre foi perseguido (inclusive dentro de camburão) e que assim continuará sempre sendo. Está feita a “vítima”, pronto, eis a sopa no mel para que seu enorme contingente de admiradores aumente em progressão continuada e autossustentável. Mas, também, om o auxílio luxuoso e platinado de sua maior inimiga, dona Globo – que, no sonho de destruir seu Dolabella particular, brinca com o fogo de rejeitar, ofender e se indispor com o imenso eleitorado evangélico disponível no Brasil.

(Aliás, veja a ironia: há uma evangélica à beira de se tornar candidata à presidência da República, também sob o patrocínio aloprado de inimigos de Lula e Dilma como José Serra, Globo, Veja, Folha & cia limitada.)

E este meu vaivém maluco por personagens disparatados tem um só objetivo final: observar que neste domingo, quando se consumar a vitória do Falabella, quero dizer, Dolabella, o símbolo que estará emoldurado atrás dele não é apenas mais uma enfadonha vitória do “perseguido”.

Simbolicamente, o “vencedor” por trás do tão perseguido Dado Dolabella é Edir Macedo, o homem que lhe pagará o prêmio-bagatela de 1 milhão de reais.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000), "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004) e "Álbum" (Edições Sesc, 2021-2026)

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