Dá um certo alívio sair do mar. A paisagem mutante da cidade é agora uma carícia, assim como o trânsito pesado no rush, os moleques bêbados cantando canções do U2 na noite de Livorno, a garota com walkman e touca de lenhador esperando no ponto de ônibus.

Ao sair do navio, senti uma certa pena da rotina azul do comandante Túlio e do contramestre baixinho e atarracado de macacão. Trabalhavam juntos havia 20 anos.
Adeus ao contramestre Anesse, homenzinho incansável que pinta o convés pela manhã, troca cordas dos salva-vidas à tarde e de noite dá plantão sozinho na ponte de comando. Sempre rindo.
Para integrar a tripulação de um barco destes, é difícil. Um cadete passa em média 5 anos na academia naval. Depois, passa mais dois anos estagiando em navios cargueiro pelo mundo afora.
Um marinheiro italiano ganhava, na época, cerca de US$ 2 mil. O contramestre ganhava US$ 3,5 mil.
Despedimo-nos da tripulação. Os passageiros nos convidam às suas casas, um dia, quando de passagem.

O mundo não é tão receptivo nesse momento na Europa. Nas ruas de La Spezia, encontramos cartazes xenófobos cuidadosamente espalhados por postes e muros. “A imigração do terceiro mundo desagrega a sociedade e leva ao fascismo”, dizem os cartazes. Nem de Tal fotografa os cartazes.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter desde 1986 e autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019), Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021), O Último Pau de Arara (Grafatório, 2021) e A Culpa é do Lou Reed (Reformatório, 2024)

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