jazzistas celebram miles davis em são paulo

a natureza de são paulo é boa.
quer saber por que são paulo nunca fica complexada com sua feiúra, com seus prefeitos vilanescos, com seus rios fétidos, com sua burguesia brega?
por que são paulo não se deixa abater pela voracidade especulativa de seus ricos, a tendência sadomalufista?
é porque a natureza de são paulo é superior a tudo isso.

falo da cidade que pensa, que inventa, que critica e que cria.
falo de sua natureza autopurificadora.
falo da cidade que é artesanal no meio da cidade industrial.
contra a vocação vilaolímpia, os baixos da rua augusta.
contra a arquitetura monstruosa, osgemeos pintando nas paredes do cambuci.
são paulo é são paulo quando afirma sua vocação antipadronizadora.
é legítima quando os meninos de 20 anos fazem dos bares da parte baixa da rua augusta um oásis de originalidade e pureza.

contra os fazedores de bulevares, todo poder aos bares moscas-fritas.
essa cidade está acima de toda caretice, afirmando a todo momento a superioridade antiprovinciana.

digo tudo isso a propósito de duas coisas que presenciei no final de semana:

COISA 1. a apresentação da peça aos ossos que tanto doem no inverno, de sergio mello, com mário bortolotto e nelson peres.
no espaço satyros 1, no coração da praça roosevelt.
o teatro de sangue que se insurge contra o teatrão sem alma.
o teatro que se faz apenas porque é preciso ser feito.
e, além de tudo, o ator que depois da peça sai encurvado pela calçada com seu coturno sem cadarços, procurando algum alívio na mesa de latão (não é um texto do qual se sai impune).

COISA 2. um tributo a miles davis que assisti no bar mais bacana de são paulo, nos fundos de uma garagem. melhor que os bares do village.
nas imediações da benedito calixto.
os músicos que tocam para quem está de fato a fim de ouvi-los.
os músicos que tocam sem saber se haverá paga, ou quando haverá paga.
a platéia que ouve porque ama o que ouve, e que não está ali apenas para ser vista.
(não dou o endereço porque, se as revistas semanais descobrirem, o lugar está acabado, mas se os amigos perguntarem eu conto).

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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